1. A estrada

Ele viu as pedras negras assim que fez a curva na estrada de terra. Desceu do carro, pegou uma garrafa d’água e seguiu caminho a pé.

Tudo ao redor era desolação. Galhos secos, escuros como se tivessem sido queimados; o chão ressecado e rachado, açoitado pela brisa quente e seca que levantava uma poeira fina e avermelhada. No céu, o sol solitário.

Não havia barulho de animais, casas ou sinal de atividade humana, qualquer que fosse. Nesse vazio, o silêncio oprimia os ouvidos e o peito com uma pressão quase infinita.

Seus pés esmagavam a areia e as pequenas pedras gerando um barulho incômodo, mas bem vindo. Olhou para trás e não viu mais o carro. A vontade de voltar subiu-lhe à garganta com gosto de arrependimento, mas ele não desistiria. Tomou um gole da garrafa e continuou.

 

Bebeu o último gole. Fazia duas horas desde que deixara o carro para trás, e a paisagem parecia imutável. Começou a achar que deveria voltar e esquecer tudo aquilo, aceitar a coisa toda. Seus pés estavam cheios de bolhas, os joelhos queriam ceder a cada passo. Ele mesmo não sabia de onde havia retirado tanta força.

Mas sabia que ela estava acabando. A visão ficava turva e escurecida, acompanhada de um zumbido baixo nos ouvidos. A garganta seca mal aceitava a saliva, e as câimbras começavam a dar sinal em suas panturrilhas.

Pensou em sentar, mas sabia que, se o fizesse, deitaria. E se deitasse, jamais conseguiria seguir em direção alguma.

Ordenou aos pés que se movessem. Havia uma subida mais à frente, e ele jurou que, se o que procurasse não estivesse lá, voltaria ao carro.

─ Só mais um pouco – falou.

 

O relógio de pulso marcava catorze horas quando chegou ao topo da elevação. Pertencera ao pai, e ao avô antes dele. Brilhava como ouro sob a luz do sol.

Caiu de joelhos. A dor parecia não lhe pertencer.

Procurou uma sombra sob a qual descansar, mas não havia. No céu, nenhuma nuvem. O calor misturava-se com o frio em sua pele, e ele tremia. Apoiou as mãos no chão poeirento e deitou devagar.

─ Descansar só um instante… ─ sussurrou, e sentiu o sabor da terra antes de tudo ficar escuro.

 

  1. A casa

Acordou. Estava sentado no alpendre de um casebre de taipa. Mal conseguia se mexer, mas percebeu que não estava só. Havia uma pequena mulher ─ cabelos brancos, pele escura e enrugada ─ olhando para ele.

─ O sinhô ou é doido ou tá disisperado – falou.

Seus olhos estavam pesados. O corpo todo doía, dividido entre o desespero e as dormências. A boca e a garganta estavam inchadas, em chamas.

─ Qué um poco d’água?

─ Aceito ─ respondeu. A voz saiu rouca e pequena.

A senhora entrou no casebre. Ele ouviu o barulho de água ─ tchibum! ─, e logo em seguida ela saiu, um copo de alumínio na mão.

─ O sinhô me disculpe que o copo num é de vidro…

─ Não tem importância ─ falou, tomando o copo da mão dela. Bebeu toda de uma vez, não se importando com o sabor barroso e salobro. Era água. Água!

 

A mulher observava-o beber. Não o conhecia, mas já o temia. Ela sabia, com a certeza que vem dos muitos anos, que somente alguém que perdera tudo a procuraria, colocando em risco a própria vida no processo.

E as pessoas desesperadas são as mais perigosas.

 

Quando ele terminou de beber, ela disse:

─ O sinhô tava deitado na estrada, no sol quente, chei de poeira. O que um homi como o sinhô, bem parecido, faz por essas banda? Ninguém vem aqui. Nunca.

─ Estou procurando a Dona Dorinha – respondeu.

─ Pra mode quê?

─ É a senhora?

─ Depende de quem pregunta – falou. ─ E depende do assunto.

Ele queria pedir mais um pouco d’água, mas tinha vergonha. Continuou:

─ Ouvi dizer que a Dona Dorinha pode fazer contato com quem já partiu…

─ Se foi pra falá c’os morto, é melhor o sinhô voltá por onde vêi. Num mecho mais cum isso não. Num é coisa de Deus.

─ A senhora não entende…

─ Ah, meu fi, entendo bem dimais. Eu também perdi gente. Meu marido, meus fi… enterrei eles tudim. Eu entendo seu sofrê, mas não posso mais mechê c’os que partiro. Deixa eles discansá, isquece, fica c’os vivo.

Ele apenas negava com a cabeça, em silêncio. Parecia um menino birrento.

 

Ela sentiu vontade de dar umas palmadas nele. Já ia gritar, botar ele pra fora de seu alpendre, quando percebeu as lágrimas e os soluços.

Dona Dorinha pegou o copo da mão dele e entrou para buscar mais água. Demorou uns cinco minutos, imaginando de onde vinha tanto sofrimento. Puxou um banquinho velho até a porta, sentou e estendeu o copo em sua direção.

 

Ele recebeu o copo. Estava mais calmo agora. Ela tinha abrandado o olhar. Lembrava-lhe um pouco sua avó, já falecida.

─ O que aconteceu, meu fi?

─ Acidente de carro. Nós havíamos brigado… por besteira, numa festa, na empresa em que trabalhávamos. Estávamos voltando para casa quando um louco, bêbado, saiu de sua mão e avançou sobre nós. Pegou o lado dela em cheio, e ela morreu na hora. Eu…

Não conseguia evitar o choro agora. Fazia mais de um ano que tudo acontecera, mas sentia tudo aberto como se tivesse sido ontem.

─ Desculpe ─ disse ele, enxugando os olhos. Ela fez um gesto com a mão, e ele continuou. ─ Ela estava grávida, e eu não sabia… Deus!

Mal conseguia aguentar a dor no peito. Com esforço, respirou fundo e prosseguiu.

─ Eu só queria dizer a ela que a amo… pela última vez…

 

Dona Dorinha olhou para o céu. O sol começava a se por, pintando o céu do sertão de laranja e lilás. A brisa quente trocou de lugar com um vento morno, quase frio, e os pássaros começaram a cantar.

─ Espera aqui ─ disse ela, e entrou na casa.

 

  1. O Desejo

Ela demorou meia hora. Ele, sem forças para levantar ou pensar, permaneceu ali, jogado no alpendre. Talvez até deva ter cochilado.

O arrastado do chinelo fê-lo saber que ela retornava. Trazia nas mãos um copo de barro.

─ Beba ─ disse ela, estendendo-lhe o copo.

─ O que é isso? ─ perguntou, recebendo-o. Estava quente. ─ Como fede!

Ela sentou no banquinho, depois falou:

─ Eu disse pra ti que num fazia mais essas coisa, mas tu insistiu. Fiquei com pena da tua história, moço, fiquei sim. Resolvi ajudá: bebe isso que tu vai vê tua muié de novo. E teu fi.

Ele cheirou a beberagem e fez uma careta.

─ O que é isso? Algum tipo de droga alucinógena?

─ Qué vê a muié ou não?

Ele bebeu. Cheirava a coisa morta, a mofo, a pecado. Tomou até o último gole, a bebida queimando a boca, garganta e estômago.

Botou o copo no chão, sentindo-se tonto e fraco.

─ Posso beber água?

─ Não – disse Dona Dorinha. Levantou do banco, entrou em casa e trancou a porta e a janela.

O sol se pôs e a escuridão abraçou o sertão.

 

Dona Dorinha abriu a porta e encontrou o corpo gelado do homem na mesma posição em que ele ficara. Tinha os olhos abertos, mas sorria.

─ É a última vez que faço isso – sussurrou. Tinha os olhos cheios d’água.

Ela fechou os olhos do defunto e enxugou os seus. Pegou uma pá e foi até o quintal cavar mais uma cova.

Enquanto isso, o sol nascia, e os pássaros começavam a cantar.

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