(A Conversa [Henri Matisse 1864-1954])

Ela andava se sentindo mal e não queria ir à festa da empresa naquela mesma noite. Trabalhávamos juntos. Eu insisti e ela cedeu com aquele seu típico olhar de “você vai me pagar” e, durante os dias seguintes, realmente foi o que aconteceu.

O barulhinho da xícara leve e o cheiro do bule de café envolvendo sua figura e seus cabelos longos caídos sobre suas costas me fizeram parar por uns segundos. Deveria ter parado o dia todo, fingir-me de louco, inventar que tinha recebido um telefonema da empresa dizendo Alô, Rafael e Ana, não precisam trabalhar hoje, pois o departamento de Relações Internacionais está com problemas técnicos. Ah! E mais uma coisa: cancelamos a festa.

Eu tive aquela leve intuição de mudar os planos, mas como a maioria dos humanos, não me escuto, não viajo para dentro. Fico naquele esquema da rotina decidida por alguém e acordar-trabalhar-dormir era um plano fácil de seguir, embora, às vezes, fosse doloroso. Pois sabia que estava forçando meu corpo a se gastar e nesse jogo, meu rosto se esvaziava de ser feliz.

Notei um envelope médico na cabeceira do quarto. Ana dizia que não era importante: exame de rotina. Peguei meu paletó e as chaves, enquanto ela me esperava com a porta aberta do apartamento, pronta para encarar um dia qualquer.  Não consegui parar minha ação que mudaria meus planos. Fui covarde.

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Ana era uma moça que tinha uma certa dificuldade em se relacionar. Tinha se acostumado a ficar sozinha. Filha única de mãe solteira. Aprendeu desde cedo o encontro com a solidão. Refugiava-se na biblioteca de sua casa. Tinha um cachorro com dois nomes. Um para o dia, outro para a noite. Vivia num bairro de crianças traquinas. Esconde-esconde na rua. Rede de vôlei que era retirada a cada passagem de carro de vinte em vinte minutos. Guerras de bexiguinha com algumas delas sendo lançadas deslealmente do alto de uma sacada, onde o pedestre era um alvo certeiro. Ainda não se conhecia a violência. Ainda não se conheciam as cercas contornando os prédios e a tristeza de morar num apartamento de condomínio fechado. Ainda eram papéis de carta e brincadeiras na rua. Ainda eram mãos dadas e sorvetes a decorar nossas mãos. Uma certa ingenuidade permitia que pudéssemos com a vida.

Ela era tímida e doce. Aquela pessoa que não ia bem na escola, mas devorava livros. Com o passar do tempo a natureza cometeu a crueldade de impor-lhe um temperamento difícil.
Eu a observava na janela do outro lado da rua. Conseguia vê-la com os livros, fumando às escondidas. Tocando violão e desafinando. Era muito magra e sem curvas. E costumava usar camisetas longas para ocultar ser corpo. Queria se proteger de olhares depravados. Não queria muito existir.

E às vezes parece que não existe. Nunca existiu aquele encontro. O olhar de Ana.  A voz de Ana que saia das fissuras escuras da casa para vir à luz. O corpo de Ana que se encolhia pelos cantos na vinda de qualquer gente. Difícil era ver seu corpo por inteiro. Faltavam alguns sentimentos que ela com graça ocultava.

Quanto era odiosa e adorável. Mas, mesmo assim, como quem encontra gosto pelo mistério, acabei indo ao seu encontro.

E no começo do namoro, ela me fez sofrer. Sentia-me sozinho em sua companhia. Dizia-me que me amava. Estranha maneira de amar. Ela estava aprendendo e no meio do caminho, feria-me levemente.

Para que me entendam, eu a vi comigo para sempre.

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Ele atuava como se nada tivesse acontecido, mas mesmo assim me convenceu a ir àquela festa “chata” de empresa. Mesmo cedendo, joguei meu olhar de desaprovação. Não pensava que este seria o último dia que o veria em carne e osso, e deixaria de sentir quem se formava dentro de mim.

Havia três semanas que tinha começado a me sentir com náuseas. Ontem, tinha recebido a notícia de que esperava um filho. Era uma mistura de medo e felicidade. Carregar uma parte de mim, uma parte dele, juntas.

Naquela manhã, estava me sentindo mal, mas resisti e não disse nada a Rafael e me vesti para encarar o dia. E durante o café mergulhei meu olhar em sua pele, com vontade de me esconder nela. Minha voz queria seus ouvidos. Metade de mim queria lhe dizer que com ele minha vida era mais leve, com ele eu havia sentido um amor diferente, com ele queria uma família. Tínhamos briguinhas, joguinhos de ego ridículos. E a outra metade, envenenada, queria lhe dizer que com ele minha vida se fazia pesada, com ele eu me sentia abandonada, com ele eu preferia ficar só.

Mas naquela manhã nada disse. Mas afoguei a metade de mim podre. Sabia que aquilo não era eu. Embora não tivesse força para declarar-lhe todo meu amor e de trancar a porta para ali ficarmos durante o dia, para comemorar a boa notícia. Mesmo me remoendo e passando toda essa angustia para este ser, segui sustentando minha xícara, como se estivesse representando aquilo que deveria ser. Nada disse sobre o filho. A família e o quanto feliz estava. Fui egoísta.

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Rafael era um moço atraente e que tinha facilidade em se comunicar. Filho de família numerosa, não sabia o que era a solidão. Vivia no meu mesmo bairro que eu e havia compartilhado a fase difícil da adolescência comigo. Ele me espiava da janela do outro lado da rua.

Um dia, enquanto eu estava na sacada, para despertar minha atenção, jogou-me um balão cheio d’água. Eu ainda era tímida e meu movimento foi simplesmente entrar para dentro do apartamento com a camiseta molhada. E assim, tentou outras vezes manter contato comigo. Aquela menina solitária, misteriosa.

Eu também espiava Rafael e ria de suas danças na cozinha. E ficava triste quando chegava o verão e ele, junto com sua família, partia para passar dois meses de férias no litoral. Passava o verão assim, imaginando a praia. Imaginando Rafael no mar. As ondas invadirem seus cabelos negros cacheados.

Ele era o típico moço que estudava durante a aula e sempre se sobressaia. Não sabia nada de Milan Kundera, meu autor preferido na época. Mas tirava notas mais altas do que eu. Confesso que ele tinha um temperamento difícil. Era aquela pessoa do “sim” para tudo. Não negava pedidos a ninguém. Só que às vezes as coisas saiam fora de seu controle. Ele vestia o mesmo boné durante o ano e não estava nem aí para suas roupas.  Não queria se entregar a futilidade tão facilmente.

Até que um dia começamos a passear de mãos dadas.

Eu tinha medo daquela pessoa, tão segura de si, com afã de reconhecimentos. Mas como quem aceita o desafio de viver, juntei-me a ele.

E, às vezes, parece que não existe. Nunca existiu aquele encontro. A pele de Rafael. O corpo de Rafael que se manifestava durante os dias de manhã e de noite, impreterivelmente. Confesso que às vezes ocultava-lhe aquele sentimento de amor que tinha o desejo de transbordar por todos os lados.

E no começo do namoro, ele me fazia tão feliz, só que eu não entendia aquela sensação. E me ocultava em sua companhia. E sentia sensações em mim que eu ainda não sabia lidar.

Para que me entendam, estava decidida a ficar com ele até o fim dos dias.

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Na festa da empresa o lustre refletia a cor azul e verde entre os cálices de vinho. Ana e Rafael conversavam ao som de Billie Holiday, enquanto alternavam entre vinho e água. Ana ficava com a água. Dizia que não gostava daquele vinho.

Os colegas de trabalho contavam histórias escabrosas de vida e de morte. Ana pensava no seu filho e tremia. Rafael não prestava muita atenção no assunto e achava tudo aquilo besteira. Não acreditava na vida após a morte. Tudo virava pó e pronto.
Um colega que costumava viajar para o interior do estado, falava que existia uma espécie de bruxa que possibilitava o encontro de pessoas mortas. Atendia pelo nome de Sinhá Dorinha. Acrescentava em seu relato que a técnica empregada por Sinhá Dorinha não era vista com muita aprovação, pois, muitas vezes, a pessoa que desejava contatar com o além poderia não voltar. Esse era o perigo. Somente para casos desesperados.

Ana ficava imaginando quem faria tremenda idiotice de quase perder a vida para falar com os mortos.
Rafael continuava achando que o pó era nosso destino.

Ana preferia não falar sobre sua gravidez na festa. Achava que o ambiente não era propício e tentava disfarçar sua náusea.
Queria lhe dizer o quanto ela o amava. O quanto seriam felizes. E como ela se esforçaria para melhorar. Para mudar algo. Nem que fosse começando pelo respiro.

Rafael achou o comportamento de Ana estranho. Não quis perguntar na hora. E reservou sua conversa para quando chegassem a casa.
Queria lhe dizer o quanto ele a amava. Quanta felicidade lhes esperava. E como ele se esforçaria para melhorar. Mudar algo. Escutar mais.

Mas nunca voltariam à casa.

Rafael e Ana não sabiam que se encontrariam com Luís. Um motorista que havia bebido demais. E assim como as palavras que não são ditas a tempo.

Era tarde demais para Luís aprender a amar.
Era tarde demais para Luís parar de beber
Era tarde demais para perdoar quem lhe abandonou.
Era tarde demais para impedir que Luís pegasse aquela estrada.
Era tarde demais para evitar aquele acidente e com ele a morte de Ana e o que fazia parte dela.
Era tarde demais para aquela conversa.

Mas ainda havia tempo de Rafael mudar sua ideia de que tudo vira pó.

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