ilustração do autor

O depois costuma ficar mesmo para depois. Acho que existem duas formas básicas, o depois que se realiza e o depois que jamais acontece. E o depois do último depois, ainda é mais confuso.

Desde o momento em que senti um grande impacto e um baque surdo, quanto tempo se passou, eu não saberia precisar. Você também está ouvindo Billie Holiday cantar?

Quando tocou a nossa canção na festa na empresa, de alguma maneira, eu sabia que Ana queria me contar alguma coisa. No carro eu fiquei quieto aguardando ela falar, coloquei um som. Imagine de quem era a música, nem precisa, né?

Quem por ventura possa me ouvir, ouça: mesmo que você procure viver no presente, sempre haverá algo que ficará para depois, sempre haverá arrependimentos do que foi dito, do que foi feito e também do que não foi.

Parafraseando o dito popular, não deixe para amanhã, o que se pode falar hoje. Onde está Ana agora? Por que ela me deixou aqui sozinho? O que será que ela ia me contar?

Todos me ignoravam, menos um sujeito que parecia embriagado e ficava atrás de mim, choramingando com as mãos no rosto, mas nunca me interessei pela sua história, só me interessava o sumiço de Ana.

O envelope do exame que estava na sua cabeceira, não estava mais lá, nem a cama. Nosso apartamento estava estranhamente vazio. Seria apenas uma recordação que tenho dele antes de mudarmos? Não creio, pois a parede da sala que eu mesmo pintei de cáqui no começo deste ano, insiste em denunciar a farsa.

Não, você não se enganou, foi exatamente o que eu quis dizer, tudo isso com certeza é uma grande farsa. Alguns diriam que estou inventando uma espécie de teoria da conspiração contra a minha pessoa.

Alfredo agora está sentado em minha cadeira, usando a minha mesa, o meu computador e o mesmo aconteceu com Ana, alguém que nem recordo o nome está na sala dela.

Como você deve saber, eu e Ana trabalhamos juntos. Será que entramos em férias? Fora isso, vejo que na sala do café, apesar de algumas caras tristes, estão rolando as mesmas fofocas de sempre.

Fui visitar minha mãe, mas ela não estava em casa, curiosamente o envelope do exame que Ana disse que era de rotina estava na mesa da sala. Até ela estaria envolvida? Não se pode confiar em mais ninguém?

E o bêbado que não larga do meu pé, parece gemer acompanhando a canção. Como geme mal o desgraçado! E ainda por cima desafinado. Se Ana iria me contar algo quando voltássemos para casa, achei melhor esperá-la por lá.

Por algum motivo que eu desconheço, o fulano que me acompanhava como se fosse minha sombra ficou do lado de fora, porém, eu ainda ouvia seu gemido esganiçado. No apartamento, na sala do home theater, agora dormia uma menina.

Ela me viu e acordou. Quando eu ia perguntar se ela tinha visto Ana, senti aquele baque novamente que me jogou na rua entre luzes e sirenes. A enorme dor de cabeça somente cessou quando ouvi Ana dizendo, eu ia contar sobre o exame quando chegasse em casa, mas eu não conseguia vê-la.

O envelope não estava mais em cima da mesa e coincidentemente minha mãe também não estava em casa, só Billie Holiday. Por que será que todos resolveram ouvir apenas Billie Holiday? Se tudo era uma farsa conspiratória, essa situação não poderia durar por muito tempo.

Mãe eu vi de novo o moço, ele queria saber se a Ana havia aparecido e se eu sabia onde estava o envelope do exame dela. Eu juro por Deus mãe! Milene, jurar por Deus é pecado, imagine se seu pai fica sabendo dessas histórias que você insiste em inventar.

Se tiramos férias será que Ana foi visitar a sua tia? Por esse motivo já brigamos muitas vezes, não gosto dela, nunca gostei. Como também não gostava de ver o Alfredo em minha mesa, porque a cada dia ele parecia estar mais à vontade.

O depois eu conto da Ana nunca chegava, as férias pareciam intermináveis, a menina que não sabia de nada fazia aniversário mais uma vez, ao menos agora ela sabia de quem era a música que ouvíamos.

Minha mãe nunca estava em casa, mas o tal envelope com o exame de rotina da Ana reapareceu na mesa da sala dela. Rotina mesmo era o bebum gemendo, tocar Billie Holiday e o impacto que frequentemente me jogava de volta naquela rua.

Rua que eu conhecia muito bem, ficava no caminho de volta do trabalho. Além das luzes e sirenes, na última vez, eu vi retirarem alguém muito ferido de um carro, quando a maca passou ao meu lado, o que me chamou atenção é que ele gemia igual ao bêbado.

Mãe eu juro de pés juntos e sem cruzar os dedos, além do homem que sempre aparece, eu conheci a Ana, ela disse que ia contar sobre o resultado do exame de gravidez quando chegasse em casa, mas agora ela ia ter que viajar para outro lugar.

Mãe, você está ouvindo? Onde você estava este tempo todo? Você viu a Ana, sabe se ela está doente? Eu sinto tanta falta de andar de mãos dadas com ela. Você não pode me ignorar como os outros! Não, não chore, eu só queria um pouco de atenção.

Você já vai sair de novo? Eu poderia levar você, acho que deixei meu carro naquela rua, mas não lembro onde coloquei as chaves. É melhor chamar um táxi. Ela parecia muito triste. Chorou de novo.

Eu me distraí ao ver o envelope aberto em cima da mesa e minha mãe foi embora. Não tive coragem de ler, mas o bêbado leu. Eu nunca irei esquecer, dele saiu o gemido mais comovente e sentido que eu presenciei na minha vida.

A menina e sua família desapareceram como mágica, o apartamento estava vazio novamente favorecendo a acústica, o eco deixava a voz de Billie Holiday com uma reverberação diferente.

Sucederam-se os amanhãs. Não havia mais gemido e nem música, não havia mais impacto ou envelope, só havia a rua sem luzes e sirenes. Depois só restou o pó, deixando tudo escuro. Havia um amanhã que eu comecei a desejar, mas que nunca chegava, a morte.

Então eu me abracei, encolhido, não saberia precisar o tempo que fiquei assim. Lembro apenas do momento em que ouvi, Rafael, sou eu, Ana!

Percebi aos poucos seus traços e ao lado dela outra silhueta se configurava, uma senhora de cabelos brancos, era a menina que dormia na sala do home theater. Olhei para Ana que fez sinal de silêncio, agora me dê a mão, depois eu explicarei tudo.

A impressão que eu tenho é que o depois, do derradeiro depois, parece ser distinto para cada um. Por enquanto só posso dizer que ele existe, gostaria de poder falar mais sobre isso, mas terá que ficar, obviamente, para depois.

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