“O enterro de Atala”
Louis Girodet

 

Esse é o presente. Mas o que vai ser, quando este mesmo presente virar passado? Tem dias que eu tenho medo, um medo agudo apertado aqui dentro. Aí eu corro para mamãe e tento explicar.

— O que foi agora?

— Aquilo de novo. Medo.

— Medo de que, filha? Está tudo bem. Vai para sua cama, desliga a tevê.

Minha mãe não entende que eu tenho de ligar a tevê para não escutar o barulho do silêncio. Eu tenho medo de não ser mais eu um dia. Isso acontece de noite, mas só às vezes. Tem outras vezes que tudo está certo. Na escola, eu brinco com as meninas, a Laís e a Amanda. Nós mudamos de apartamento, de novo. Eu canso, mal começo a me acostumar, mal meu pai fez as prateleiras novas para as bonecas, e lá vem as caixas de papelão de novo. E aí depois disso, eu me sinto culpada. Porque sei que a culpa é minha.

Esse apartamento é mais espaçoso do que o outro. Dá para dançar bem enquanto ouço meus discos. Eu estava dançando, mesmo, quando apareceu aquele homem aqui. Eu não o conheço e não lembro de ele ser amigo dos meus pais. Ele surgiu, um olhar meio amargo e tão silencioso. Ficou fazendo um monte de perguntas que eu não sabia responder. E depois ficou sentado na poltrona, admirando o chão. Quando minha mãe chegou, eu contei tudo.

— Que homem? Que história é essa?

— Não sei, mãe, o homem veio aqui, ficou perguntando da Ana. Quem é Ana, mãe?

— Ele tocou a campainha?

— Não lembro, acho que não. Ele apareceu, só.

— Ninguém aparece assim, meu Deus! Pela janela que não foi! De novo, Milene? Inventando história?

Eu não invento nada. Sufoco uma vontade doida de chorar. Raiva. Uma raiva comprida vai crescendo dentro de mim, porque odeio quando eu falo a verdade e dizem que estou mentindo. E agora, tudo de novo. Eu juro que aquela moça na casa era verdade, eu nunca menti. E ela chorava tanto, dava pena.

Depois disso, o moço voltou mais uma porção de vezes. Queria ver a Ana, queria ver o exame. Eu devia era ter ficado quieta. Mas tonta, Milene! Foi contar! Minha mãe, achei que ia me dar um tapa na cara. Ela só ficou me olhando, séria. Por um momento, achei que tinha acreditado. Aí depois, eu vi que estava no telefone. À noite, eu já deitada, levantei pé ante pé para ouvir meus pais na cozinha.

— Eu já falei para você, isso não é normal.

— Relaxa, Clara, criança é assim mesmo. Eu também inventava das minhas quando precisava.

— Roberto, você não entende? Ela não está inventando!

— Como que não? O que é, então?

Só ouço minha mãe chorar baixinho. Meu peito arde aqui.

— Não sei, Deus. Não sei. Não sei que eu fiz para merecer isso. Mas isso veio do seu lado! Ah, eu devia saber! É genético!

— Que foi? Qual é o problema? Você tá doida, Clara!

— Eu, doida!? A sua mãe que era esquizofrênica, não a minha!

— Ah, por favor! A menina não tem nada! A Milene é saudável, forte.

— Se você ficasse mais em casa com a própria filha, ia saber. Vou marcar um médico.

Volto para o quarto, deito na cama, que de repente parece fria e enorme. Fico olhando o teto. Minha avó morreu na clínica, internada. Eu nem lembro direito dela. Só lembro da minha mãe dizendo…e a palavra sobre e desce na minha cabeça. Louca. Louca. Louca.

No dia seguinte, fui ver o médico. Minha mãe me levou, ficou segurando minha mão firme, o olhar pesado. Na sala, ele pediu para ela esperar do lado de fora. Por trás dos óculos, o homem ficou me olhando compenetrado, me senti mais complicada que um problema de matemática. De onde vem essas pessoas que você vê? Eu não sei. Eu não sei, mesmo! Cada pergunta chata. Quero ir para casa. Você sempre viu essas pessoas? Eu não sei, também. Sua mãe achava que era influência de uma amiga no outro colégio, na outra casa. Mas parece que os episódios continuam se repetindo. São sempre as mesmas pessoas? Eu não sei! Por que eles aparecem para você? Eles te dizem coisas? Te mandam fazer coisas? Eu não sei! Me deixa!

Levanto correndo e vou para a porta. Não quero saber mais. Na volta para casa, não dou um pio. E nem minha mãe. Depois ela só diz:

— Vamos procurar outro médico. Não se preocupe, querida. Vai ficar tudo bem.

— Mãe…eu sou louca?

Ela me olha desconcertada.

— Não, claro que não, filha. Nunca mais repita isso.

— Você disse que eu sou esquizofrênica, igual a vovó. E você dizia que a vovó era louca.

Ela me abraça apertado e chora.

— Não, filha. Não.

Depois disso, vem outro médico. Outras perguntas e outros choros. Ele passa um remédio que tomo todos os dias e me deixa tonta. À noite, o moço vem de novo. No meu quarto, senta na cama. A Ana! Ele repete sem parar. Eu sinto falta da Ana. Se ela aparecer, diga que eu a amo.

Mas é só no dia seguinte que eu tenho um entendimento. Nunca entendi porque me chamavam de mentirosa. Nunca soube porque minha mãe me achava louca. E mesmo a Laís e a Amanda às vezes me olhavam torto. Eu estava saindo do banheiro no intervalo da aula e ia voltar para a classe, quando vi que tinha um menininho sentado ali.

— Você não pode ficar aqui! Esse banheiro é das meninas! Eu vou chamar a diretora! – eu ameacei. Mas ele nem ligou. Parecia triste e longe.

— Eu já sei, eu já sei que eu morri. Eu não sei sair daqui. Pode achar a minha mãe?

Fiquei parada ali, feito estátua. Não achei que era brincadeira, não achei que era mentira. Só senti aquele mesmo medo crescendo em mim. Aquele medo do silêncio, o medo do tudo e do nada. Saí correndo e não olhei para trás.

Naquela noite, o moço do apartamento voltou e perguntou pelo exame e pela Ana de novo. Aí veio minha mãe, me deu o remédio e fomos jantar.

— Querida, me diga uma coisa…você está bem? Como está…? Você tem ahn…visto…algo?…alguma coisa?

E de repente eu entendi. Eu entendi tudo. E com toda a esperteza que eu podia ter reunido nos dez anos de vida, estufei o peito e respondi:

— Nada, mãe. Não vi mais nada.

 

 

Anúncios