Os olhos dela, por vezes, são maiores que o meu. Dez anos. Quem diria… Sempre tive receios. Via o silêncio gritante dela pelos cantos, e a TV que nunca desligava, soando um chiado, um rangido chuviscado que existia só para calar o silêncio dela mesma. As amigas na escola olham estranho, até a diretora chamou uma vez… História velha, carcomida. Mas dói, e dói porque sou mãe. Mãe sempre se dói na dor do filho, coisa que não tem tamanho nem tempo. Adoeço só de olhar. Filhos por aí descansam, a minha se amedronta. Claro que outros filhos se amedrontam, dos monstros, das feras, das assombrações, mas eu vejo nela uma loucura outra. Sempre corri pelos lados que não seria como a avó, a velha louca, mãe de Roberto… Chovem dias antes de saber o que farei com a pobre menina. Outro dia discuti de novo com Roberto, ele dá de menos para a situação toda. Eu vejo amplidões. E dores muitas também… Queria socorrer esse cérebro pequenino, dez anos e nos rumos da mãe de Roberto, vendo o que ninguém vê, chamando e conversando com coisas imaginárias. Entendo o silêncio dela. E da TV. Sem isso sobraria um gosto azedo, uma lancinante vergonha de estar assustada no meio da noite. Já senti isso, mesmo sem ter essas “visões”. É como se algo pudesse paralisar agora e jamais se desconstruir, jamais voltar a existir e simplesmente apagar de todo o sempre, mas a menina não pode ser dada a tais pensamentos com dez anos, é outra coisa. Deve ter vindo da avó mesmo…. Todos sabiam da esquizofrenia dela, e por vezes, acompanhei Roberto até o médico quando a situação ficava incontrolável. Uma vez, no início do namoro, acho que sequer sabia dela, até porque Roberto escondeu durante o tempo que pôde, ela começou a dizer que era filha do maior ser iluminado que já pisou na Terra, e que por isso queriam ter o sangue dela para rituais que iriam proliferar sua energia pelo Mundo, porém iria consumi-la até a morte. E passamos a ver sangue, mas era ela mesma que estava se cortando, algumas vezes cortes profundos, e até hoje não sabemos o porquê. Entramos na velha casa dela, as toalhas todas vermelhas, panelas dentro da máquina de lavar e bilhetes espalhados. Já vi os olhos da avó na menina, com aquela mesma insanidade buscando nas paredes os sinais que só aqueles olhos podem identificar, sinais de invocação, construção e destruição. Tudo era sinal. Certa feita foi a faca na mesa, ela disse que a faca estava mostrando o caminho todo, do início à salvação perfeita. Jamais entendi, mas ela rasgou um quadro que adorávamos, eu e Roberto. Vários silêncios foram se instalando em casa. Vários interditos das palavras. Algumas eram particularmente perigosas, como “sol” e “tempo”. Ela disse que o tempo era invenção das mentes pequenas dos homens que não podiam abarcar a grandiosidade cósmica do Universo. Tinha lá um sentido, mas passava a destruir os relógios que encontrava… E do sol que ia viver só dele, como planta assim que se alimenta dele, e parava de comer completamente, dizendo que sua mente era muito elevada e espiritual, que ninguém ia entender o que ela tinha visto, e que a deixassem em paz…
A menina cresceu com a avó até a última internação. As duas se entendiam. A loucura de um, pode ser a loucura de dois… Mas parece que a menina não gravou na alma a avó. Depois da internação, jamais tocou no assunto. Acho que não dei de entender. Nunca quis acreditar, mas agora, da menina, surgiu uma Ana e um homem que pergunta por ela. Só pode ser a… Não! Deixa que os médicos digam! Preciso de uma confirmação científica, é o que se precisa hoje em dia, que a ciência diga sobre as pessoas e não eu! Coitada da menina… Deu até para se atrapalhar na escola. Como se convive no meio de “visões”? Até eu já me peguei assustada, vai que tudo que eu mesma vejo não seja só uma “visão”? Mas como ela vê esse homem? Já gastei água de dentro que daria duas lavagens de roupa daqui de casa, e quase sequei ontem. Choro agudo. E sei que ela ouviu, porque passou a estender as roupas na cama, buscando fugir. Isso eu entrevi. Mãe tem suas adivinhanças. Só queria resolver, porque como vai ser dela? Como? Se homem aparece e ela se espanca? Se menino na escola for menino que não existe? Que faz dela essa Vida?

No médico foi a dor mais pungente que senti. A menina fugindo das perguntas, como fugimos das punições extremas do mundo. “Mãe… eu sou louca?” perguntou, num tom que até hoje me fere a espinha. Tive de descontar essas dores da conta que abri quando fui um pouco feliz. Tive que abraçar a pobrezinha sem palavra, derramando os próprios olhos antes de mim. Vou procurar mães que passem por isso, talvez com mais experiência me façam saber agir. Amigas diziam, que lendo na internet, tinham crianças que viam mortos. Lancei estupidez mais forte que essa e fechei o mundo pra dentro. Fomos em outro médico. Ele garantiu, em particular, porque palavra dessa compartilhada ia desfundar a infância toda da criatura, que a menina era mesmo esquizofrênica e precisa de remédios. Fui pesquisar, porque já ouvi que isso afeta o desenvolvimento da criança, mas do jeito que está não pode ser, não dá de arranjar futuro assim. Com alguns pesares, comprei o medicamento. A menina se empastelou. Fica sorumbática pelos cantos, mais estranha que antes, mas agora, quando pergunto se vê alguma coisa, me afirma com firmeza: “Nada, mãe. Não vi mais nada”. Ontem foi o primeiro dia que voltei a dormir mais tranqüila após alguns anos de disfunção do travesseiro…
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