Aprende-se logo cedo que, neste mundo infestado de desmazelo, nada é o que se parece. O ladrão pode ter roubado por ser seu último recurso para se alimentar – pode ser a preguiça em ter que se levantar cedo para trabalhar. A mãe que não dá o sorvete para a criança que chora pode ser crueldade – ou o fato do infante apenas estar com uma infecção de garganta em recuperação. Já a pessoa que sorri pode estar acreditando que aquele dia será o melhor de sua vida – ou apenas está tentando esconder o imenso buraco que a depressão cavou em seu peito.

Logo, espera-se que até com o silêncio essa ambiguidade aconteça. É regra. E a exceção dessa regra é que é uma regra sem exceção.

Neste caso, o silêncio veio de mim. Um silêncio que exigi manter a despeito de toda gritaria que queimava meu peito, dilacerava minha garganta, exigindo ser extinto. Mas a única coisa que passava por meus lábios eram palavras mentirosas – e que soavam como uma música bonita e verdadeira aos seus ouvidos. Não mais.

Decidi gritar. Decidi abraçar o que sou. Como dizia aquela garota do filme, decidi ser livre! E agora livre estou para fazer o que quiser com o que sou e o que posso me tornar. Mas não se culpe por minha decisão. Por mais que seja quase uma prerrogativa pegar minha dor e transferir para você, não faça isso. Não é sua obrigação sentir minhas dores; você fez o que precisava: tentou amenizar. Do seu jeito, é claro, mas perfeição é uma coisa que ninguém pode alcançar, por mais que se tente. Sei disso. Tentei ser uma filha perfeita. Fiquei em silêncio quando pensei ter entendido tudo, falei mentiras que soaram verdadeiras até para mim mesma. Mas não mais.

Nevermore, crocitaria a ave negra de Poe. Nunca mais.

É engraçado, porém, como isto aqui também é uma maneira de silêncio. Uma maneira torpe de perfeição em continuar sendo a filha que só sabia mentir para agradar a vocês dois. Porque, de certa maneira, te dou uma escolha. Rasgar tudo isso, apagar a fogo estas palavras. Fingir que os médicos tinham razão. Que a esquizofrenia me levou de uma maneira que viver não era mais uma opção. Pois todos sabemos (eu mais do que nunca!) que algumas mentiras, quando ditas repetidas vezes, podem se tornar verdades enraizadas.

Sou o que sou. Não posso mudar, assim como a vovó não quis. Então vou agir como deveria ter feito quando percebi a ambiguidade das minhas escolhas.

O silêncio me deixa morta. A mentira também. E se me tornei um cadáver que sorri, que mente e que perambula sem olhar para os lados, penso que está na hora de definir os fatos que aparecem.

Então, novamente eu digo: deixo uma escolha. Posso morrer para sempre, é só rasgar ou queimar essas palavras; fingir que as do médico é que contam. E que em sua mente tenha apenas minha saída por aquela porta e meu andar moribundo até o viaduto mais alto desta cidade imensa. Ou pode manter estas palavras se possuir a coragem que eu a custo consegui reunir.

Você sabe onde estou. Esperarei até o que crepúsculo venha (é quando eles mais me procuram – e, sim, ele ainda me pergunta sobre Ana) e os faróis me ceguem. E se nenhum de vocês aparecer, entenderei que deveria ter pulado do viaduto. Entenderei seus motivos. E não os julgarei. Peço apenas que não me julguem por abraçar o que sou e o que posso me tornar com isso. Pois há muito ainda a ser descoberto, mãe, muito ainda a ser vivido. E eu não quero mais as metades que fui forçada a aceitar com um silencioso sorriso enquanto apenas gritava, afogando-me neste mesmo silêncio.

E estas palavras são sinceras, sem mentiras ou medos ou ambiguidade.

Com todo o meu amor e de tudo o que sou e que vocês não gostariam que eu fosse,
Milene.

Clara leu a carta três vezes. Na quarta, os olhos não tinham mais lágrimas, embora o peito pesasse. Ela foi até o marido, que não mostrava preocupação como nos últimos anos. Naquele momento, sentiu desprezo por si mesma, por ter permitido como tudo aquilo tinha se desenvolvido. E talvez fosse por isso, pela apatia daquele homem com quem casara, que simplesmente dobrou a carta e colocou em cima da mesa da cozinha.

— Vai sair? — ele perguntou aos berros quando a viu pegar a bolsa e rumar para a porta da casa, sem sequer olhar para o papel ligeiramente amassado.

— Não. — Clara o olhou, e Roberto se surpreendeu com o brilho que viu nos olhos da esposa, o mesmo brilho pelo qual se apaixonara naqueles anos de luta enquanto só se ouvia falar em Atos Institucionais. — Vou apenas fazer o que deveria ter feito há muitos anos: amar de verdade.

Anúncios