( Mulher andando nas ruas de Nova York – Fonte internet)

Enquanto ela balbuciava sua própria mensagem . Seus cabelos não se moviam. Nem um fio de cabelo acompanhava o som de suas palavras.

Mas de alguma maneira eu conseguia sentir cheiros distantes. E parecia vê-la da janela contornando a rua rumo à festa da vizinhança. O grito das crianças ao brincar com as frutas num movimento junto aos passantes. E ela poderia ser Lívia carregando aquela Coragem de Mudar, Tamires na busca constante de si mesma onde Viver o Sonho não é loucura, Lily aprendendo a viver com e por Ela Mesma; André saindo em Busca da Luz do Sol, da luz de algum olhar que valesse a pena, Maurício quem aprenderia a Arte do Desapego, ou até mesmo Paulo expressando sua Arte naquele galpão. E tudo aquilo que ela teria sido naqueles anos de formação. Já não importava.

Sem passado.

Estávamos todos naquela fábrica.

Não podia deixar de fitá-la. Não era uma vista, paisagem, nem mesmo contemplação. Era…nem eu mesmo sabia. Eu estava ali para esquecer. E ela…

O sino tocou.

— Hora para o almoço! Blocos A e B das 12:30 às 13:30; e blocos C e D das 13:30 às 14:30.

Havia um corredor de vidro transparente que separava os blocos. Era possível ver todo os empregados executando suas tarefas. Trabalhávamos com lentes. Eu estava no bloco A e manuseava uma lente para binóculo. Ela estava no bloco C e se ocupava de lentes antirreflexo.

Eu havia trazido minha marmita, mas desta vez não coincidia com o turno dela. Mas me contentava de vê-la através do cristal.

Eu saía do trabalho às 17:00 e pegaria minha filha na escola.

Amanhã quem sabe.

**********************

Do outro lado do Atlântico era verão. Clara havia trazido um pouco mais que a roupa do corpo. No dia anterior um sentimento de evasão latejava.
Um pouco antes de aterrissar ao aeroporto, via o mar e muitas pessoas desconhecidas. Só ela se conhecia: talvez a primeira vez que podia se reconhecer em meio à multidão de um aeroporto. Ninguém a esperava do lado de fora. Um alívio tomava conta de seu semblante e se misturava com seus olhos grandes e castanhos.
Esperou sua mala feita com minúcia na esteira. Apenas o básico. Suas joias e alianças haviam sido depositadas na pia do banheiro, antes de sair de casa. Nada de cartas, Clara não era de muitas palavras, apenas um bilhete:
 
Roberto,
Eu sempre te amei.
Não me espere para jantar.
Nunca mais.
E tente não escutar Billie Holiday nesses dias.
Clara

Nos primeiros dias, construiu com argúcia sua ilha em meio a um arquipélago quase desabitado. Era de novo um corpo só.
Para os habitantes do novo lugar, inventou uma nova biografia, algumas cidades e nenhuma família. Jamais esteve casada, e aquela filha do antes, agora era uma foto guardada num envelope azul.
Nunca mais ouvira alguém preocupado em procurar por Ana. Nenhum espírito atormentado. Nenhuma sombra do passado.
Seu marido ficara longe e com as alianças.
Sua filha descansava.

Mas a força de Clara não se perderia e, mergulhada naquela nova identidade, já sentia o pulsar da vida, mesmo que fosse dor, mesmo que um cavalo branco a tivesse jogado da sela e saísse em busca das rédeas da própria vida. De novo. E de novo. E caísse para levantar, e assim sucessivamente.

Ela era fogo. Ela era as ondas do mar tenebroso. Ela era o vento cortando a floresta. A noite das pessoas insones. Era cada fase da lua. E em cada fase a busca incessante de ser ela mesma no mundo.

Era tempo de recomeçar.

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