“O livro traz a vantagem de a gente poder estar só
e ao mesmo tempo acompanhado.”

Mário Quintana

* * *

As ruas escuras facilitavam que eu andasse sem ser visto. Mas os olhos humanos eram os únicos que não me preocupavam. Minhas formas eram aceitáveis; perfeitas, até. Eu era um deles sem que restasse nenhuma dúvida na mais crítica das criaturas. Logo, um humano era como o ar: eu passaria por ele como se fosse nada, e a única prova de minha existência seria o (não) cheiro que eu carregava.

Não. Meu medo era que enxergassem através de mim. A sombra deturpada que olhos específicos enxergaria; a alma em cores que apenas um ladrão teria a audácia e ânsia em roubar. Minha alma não tem nada de diferente; é uma miríade clara como muitas por aí. O que a torna especial é sua capacidade única de absorver o que há ao redor. Dores e alegrias, medos e coragem, desespero e esperança.

Tanto é especial, que minha alma já foi fruto de estudo de guardiões. Os mestres que protegem tudo o que deve ser eterno neste universo e nos outros. Sempre há ao menos um guardião do universo, sendo ele da Luz ou das Sombras. E nenhum deles é claro o bastante em sua posição. Os Guardiões de Memórias são os mais perigosos. Protegem, sim, aquilo que deve ser guardado para quando chegar o fim de tudo. Mas a que ponto sua proteção é também imparcial, sem influências? Até nos guardiões a dúvida assola.

Não me lembro – pois não guardo memórias em minha mente, e a alma se tranca quando o corpo se transforma num receptáculo frágil demais – quem me aprisionou. Mas sei quem me libertou. Um rosto jovem, inexperiente. Um dos aprendizes dos guardiões que viu crueldade onde eu me encontrava. Disse para eu procurar aqueles que protegem os sentimentos (sejam eles cruéis ou ternos), que protegem as ideias (deturpadas ou esperançosas); eu deveria procurar aqueles que brincam com palavras, trançam linhas, enredam parágrafos e que enlaçam os destinos dos outros. Pois apenas com eles eu estaria seguro.

Nunca vi – pelo que sei – tais criaturas. Ouvi falar deles, é claro, pois quem nunca ouviu algo assim? Algo capaz de pegar símbolos aleatórios e transformá-los em algo tão devastador quanto belo não é de ficar muito tempo na surdina. Dizem que eles podem fazer alguém ser o que não é por determinado tempo. Não para sempre. Nem o universo é para sempre.

No entanto, os lábios jovens de quem me libertou disse que, mesmo que temporariamente, eu gostaria de ser outro. Navegar por mares que talvez nem tenham existido. Cruzar fronteiras através de guarda-roupas ou colunas de tijolos. Só disse para eu tomar cuidado com as torres negras. Mas o meu maior medo ainda era aquele que roubava almas. Diziam coisas dele que eu não sabia serem verdadeiras, porém, na dúvida, preferi julgar como tal. Esperar o melhor, mas estar preparado para o pior. Um dos melhores ditados que ouvi enquanto percebia uma e outra memória do guardião.

Virei uma esquina, mas ela se mostrou tão clara que senti meus olhos doerem. Havia tanta luz ali que por um instante pensei ter morrido, que aquele era finalmente o paraíso. Límpido, quente, e levando até mim esse calor de uma maneira que só as luzes em meio às trevas sabem ter. Mas eu não havia morrido, e muito menos estava no paraíso. E a luz que me cegou diminuiu a intensidade, mostrando uma pessoa que me olhava com o cenho franzido, a cabeça levemente inclinada para o lado como quem estuda os detalhes de minha alma.

Senti um arrepio percorrer minha espinha, mandando embora todo o calor que senti instantes atrás. Será que aquele era o Ladrão de Almas que tanto tinha ouvido falar? Eu seria sua próxima vítima? Ele deu um passo em minha direção e eu recuei apenas para sentir um toque suave às minhas costas, porém que serviu como uma parede de concreto. Afastei-me, tentando me colocar longe da nova pessoa, no entanto sem me aproximar muito daquele que eu tinha certeza ser o tal ladrão. O toque suave tinha vindo de uma moça e o rosto dela se abriu em um tímido sorriso; carregava na mão, de maneira displicente, direita um pedaço de graveto, enquanto na outra uma vassoura agitava-se como uma libélula presa num pote. A moça (era uma bruxa, outra certeza que minha mente sem lembranças rápida e estranhamente registrou) fez um sonoro “Shi” para a vassoura, que sossegou. Poderia até se varrer o chão com ela, agora.

— Você está perdido — falou o Ladrão de Almas. Havia um quê em sua voz que me acalmou. Um ladrão maluco não teria uma voz daquele jeito, como se carregasse tantas histórias quanto um Guardião de Memórias.

— ‘Magina, ela ‘tá na maior vibe — ironizou a bruxa; parecia uma menina, mas no segundo seguinte era tão mulher quanto eu jamais poderia sonhar ser.

— E quem está nessa maior vibe?

Outra mulher havia aparecido, com uma feição irritadiça e que corrigiu nitidamente a bruxa em sua maneira de falar, dando uma entonação de desgosto para a última palavra.

Essaí, Rainha das Letras.

A mulher olhou para a bruxa e franziu os lábios. Não parecia tão irritada ao ser aparentemente ofendida. Mas o que sabia eu de ofensas quando sequer sabia de onde tinha vindo e para onde eu ia?

— O fato de eu gostar de dizer corretamente e ter o desejo de que os outros ao meu redor façam o mesmo, não me torna rainha de nada. Só um pouquinho exigente.

— Um pouquinho. Tão “inho” quanto você é “inha”.

— Corvinha, Amazona, menos, vocês duas. Temos algo mais importante acontecendo aqui — interrompeu o Ladrão de Almas algo que não parecia ser uma discussão inédita. — Então, minha cara, o que te levou a se perder por estes lados?

— É que… Bem… — Olhei para a bruxa chamada Corvinha e a mulher austera chamada Amazona. Se eu falasse algo errado ela me corrigiria? Ou me liquidaria? A bruxinha me defenderia? O Ladrão de Almas roubaria minha alma para nunca mais devolver? Engoli a seco. Para quem fugiu dos guardiões de memórias ruins, estou me saindo uma covarde sem tamanhos. — Me disseram para procurar aqueles que brincam com palavras. Que…que enlaçam destinos e… E destrincham sentimentos como se não os sentisse, mas que também têm eles em demasia. Não sei o que significa, só sei que me mandaram procurar.

— Quem a mandou? — exigiu saber a Amazona.

— O guardião de memórias ruins me mantinha presa. Então o aprendiz dele, que se dizia chamar Libri, me disse que eu procurasse essas pessoas que te falei.

— Sempre tem um Libri refém de memórias ruins, mesmo — falou a bruxa Corvinha e seu meio sorriso fez tais palavras soarem com ironia, embora eu não entendesse o que ela quis dizer. Mas tanto o Ladrão de Almas quanto a Amazona também sorriram. Deveria ser uma piada interna.

— Então veio ao lugar certo. — A mulher sorriu e pela primeira vez não vi austeridade em seu rosto.

O Ladrão de Almas se aproximou e colocou a mão em meu ombro.

— A casa é antiga, tem uns moradores novos, mas a base continua a mesma: tão firme quanto um Severino sabe ser. Seja bem-vinda.

Ele apontou para a porta que eu não tinha visto por causa da luz e da situação estranha que se desenlaçou naqueles minutos. Olhei para a bruxa. O sorriso dela era enorme, e antes que eu me desse conta, ela montou na vassoura e desapareceu na escuridão da noite. Me perguntei o que ela estaria aprontando, agora sem a austera Amazona a pô-la de vista ou a minúcia do Ladrão de Almas a acalmá-la. Mas talvez isso seja uma outra história que o Libri queira que eu descubra…

* * * * * * *

Tradução livre do título: “sem livro, na escuridão estás” (podendo ser adaptado por: com livro ruim, memórias ruins terá – mas essa é uma presunção para outro capítulo)
Anúncios