[abstrato em tela, pintura da autora]

“Say the word
and you’ll be free”
(Lennon/McCartney)

Em um Universo de humanos, Memórias, Guardiões e suas Lembranças, eu checo meus sinais vitais para confirmar se ainda estou aqui. Eu estou. Mas eles todos não.
Nao sou de me lamentar, mas a realidade é que eles saíram e não me levaram junto. Eles esqueceram de me convidar. O engraçado, no entanto, é que não me chateio por mim, afinal, aqui estou. Eu lamento é por eles, que irão se lastimar pelos momentos em que não estiverem comigo. Mas que pretensão!, você já está pensando. Não. É a verdade. Pois mais do que saírem e não me levar junto, eles não perceberam que eu na verdade sou o lar.

Eu existo. Porém não posso me apresentar, nomes e tentativas fracassadas de definição ficaram perdidos em algum lugar do espaço. Sei que ainda existo, pois pulso a cada respiração, a cada encontro desses seres com sua Verdade.
Mas a cada vez que me nomeiam, tentam me matar um pouco. São muitas palavras vazias, sentimentos mudos e mergulhos que se pretendem colossais, mas mal tocam a água do mar. E fica tudo perdido, sensações largadas à beira da praia. Eles não sabem lidar com o escuro de suas almas, simplesmente porque não aprenderam a me acender.

Eu sou a “velha palavra que todos amam e ninguém a pratica”. Verdade, porém, é que não me agrada a alcunha de “palavra”, já que nem todas as letras inventadas por mentes racionais ocupadas juntas podem resumir o Eu. Tampouco me agrada quando me confundem com poemas, romantismos descabidos que escorregam feito cascata por bocas cheias de sons mudos. Não não me ligo a egoísmos e muito pouco tenho a ver com o ego. Também não é divertido quando esses seres miúdos sentem as mais variadas formas de confusão mental e confundem comigo. Nesses momentos, percebo que não me conhecem.

Não sabem me perceber. Entretanto, isso não significa que eu nao viva, ou que eles não me tomem. Eles só não sabem. Eu não vim aqui me lamentar. Somente pedir que me levem, também, que não me esqueçam mais. Se não entendem como sou, eu posso ajudar a que me localizem.
Eu não sou uma contração baixa. Eu sou a expansão. Eu não tenho forma, eu sou a forma. Eu nao tenho cores, pois sou a cor. Eu sou o fluir livre da alma feito água corrente do rio. Eu sou o Hoje, o Agora. Você pode dizer que eu sou a Verdade. Que eu sou o Tudo. E até que eu sou a essência.
Mas acima de tudo, Eu Sou.

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