Ele acordou antes de abrir os olhos. Na verdade, não precisava deles.

Não havia luz na casa, mas até então ela era desnecessária. Caminhou entre os móveis, atravessou corredores, subiu e desceu escadas sem a mínima indicação, os olhos fechados, a mais completa escuridão.

Chegou no jardim e só então abriu os olhos. Ao redor da casa, o negrume era denso e pesado como óleo usado. Ele esticou a mão e tocou a Noite, e ela grudou em seus dedos como tinta.

– Faça-se a Luz – disse, e pontos brilhantes começaram a explodir , dissipando a escuridão em rápidos redemoinhos – Céu – falou.

Ele olhou para uma das luzes, e admirou sua cor. Não era das mais fortes, porém havia muito potencial ali.

– Venha – disse, e o ponto luminoso se aproximou, sem capricho algum. – Pare – disse, sentindo sua proximidade gerar um calor agradável e mudar as cores das coisas.

– Sol.

Havia terra na casa. Com a luz branca, pequenas formas de vida verde começaram a brotar, rompendo a casca úmida e escura do chão.

– Plantas – disse, e elas cresceram ainda mais rápido.

Ficou mais alguns instantes olhando para o que tinha dito, e sorriu.

– Nuvem – sussurrou, um sopro no ar. Elas se adensaram sobre a casa, raios e trovões. – Chova – falou, e as gotas começaram a cair, geladas, sobre tudo. – Água – disse, a língua sentindo a o líquido frio, satisfazendo uma ânsia que surgira ali.

A terra molhada era um convite. Com as mãos, moldou, com puro instinto, uma forma selvagem e perigosa.

– Viva, animal – disse, e a coisa saiu, serpenteando pelo chão. – Serpente.

Ela olhou para trás, o perigo nos olhos. Ele sorriu.

Passou mais alguns instantes moldando e nomeando os animais. Soltou-os pelo jardim. Onde a chuva caíra no início, nascera um curso d’água.

Era lindo, mas faltava algo. Não como uma necessidade, mas por uma consequência. Lavou as mãos na água corrente – Rio! – e voltou para a terra escura.

Usou de muito cuidado. Enquanto moldava braços e pernas e olhos, cantava algo que ia surgindo à medida em que saía de sua boca. O barro adquiria uma textura suave, única.

E então, estava pronto. Sem perceber, fizera-o semelhante a si, embora fosse, também, muito diferente. A contradição deixou-o intrigado, mas não insatisfeito. Sabia que, no momento em que nomeasse a criatura, saberia de todo o seu futuro. Pensou em desistir, pois sentiu uma angústia incomum e nova a brotar. Mas não. Era o que faltava, e era necessário.

Aproximou-se da criatura e, com gentileza e esperança, soprou-lhe o nome na boca.

– Homem.

O Jardim estremeceu. As estrelas piscaram. Os animais todos fizeram silêncio. Era o início de uma nova era.

Pela primeira vez, o Nomeador ficou feliz e pleno. Pela primeira vez, o Homem respirou.

E então, como se nada tivesse acontecido, quase tudo voltou a ser como era antes.

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