Ilustração do autor

 

E então, como se nada tivesse acontecido, quase tudo voltou a ser como era antes.

Quase tudo, menos para um Curumim de uma aldeia amazônica aculturada, que agarrado no seu livro de histórias, depois deste rápido momento, se perguntava:

 

Para onde vão as palavras?

Para onde vão as frases construídas, e os parágrafos lidos?

E os livros relidos e a palavra virtual?

Em vão ele tentava descobrir.

 

Foi neste momento que o Saci apareceu.

Ei! Que cara é essa? Nunca viu um saci? Demorou para responder, já vi que nunca viu.

Já vi, sim, mas você não é um iaci verdadeiro. Você tem uma perna só.

Tem razão, não sou um iaci, sou um saci-pererê e perdi a perna jogando capoeira, já ouviu falar?

Já, inclusive eu vi na tevê um igual a você no Sítio do Pica Pau Amarelo.

Aquele é um primo meu que foi pra São Paulo, passar uns dias no sítio de um tal de Lobato. Se deu bem o cara. Você viu na tevê, mas do jeito que você me olha, de pertinho, pertinho, eu tenho certeza que nunca viu um saci-pererê.

Vi sim!

Aposto que não!

E se eu não vi não é da sua conta.

E o que é da minha conta, conta aí?

Engraçadinho!

 

Curumim, se você me der esse livro de histórias, eu conto para onde vão todas as palavras.

Ah tá! Até parece que você sabe. Saci, eu posso ainda ser um Curumim, mas não caio nessa não.

Tô falando sério Curumim, sou assim com as palavras, unha e carne.

Um saci-pererê assim com as palavras, só faltava essa.

Vai rindo, vai. Sou um legítimo saci poeta! Escuta aí: Batatinha quando nasce…

Essa é mais velha que andar pra trás!

Claro que é, pois a poesia é ainda mais velha que as batatas. Me dá o livro que eu conto toda a história.

Não posso dar o livro, nem é meu.

Então me dá aquela pena ali.

Qual, essa?

Não essa de arara não, aquela pequena.

A do matita perê?

Essa mesmo.

Essa eu não dou!

Dá!

Não dou!

Tem que dá, ele pertence ao meu ancestral.

E daí? É minha, não dou!

Dá!

Não dou!

Dá! Não dou! Dá! Não dou! Dá! Não dou! Dá! Não dou! Dá!

 

E o dá não dou já durava horas quando o Saci disse, eu posso ficar aqui dias e dias dizendo dá, mas você pode ficar todo esse tempo dizendo não dou?

Tá bom eu vou dar, mas o que você vai me dar em troca?

Ah, esses indígenas e o velho escambo! Vou contar pra onde vão as palavras, não era isso que você queria saber? Vou dar o endereço completo com CEP e tudo.

Então conta primeiro.

Sabe daquele tempo em que só havia o dia?

Sei.

Esse Curumim sabe tudo. Eu só sei de ouvi falar, porque naquele tempo ainda não tinha saci.

Não?

Não, só apareceu saci depois que criaram a noite, ainda bem, pois quando só tinha o dia, todo mundo não parava de trabalhar, os homens caçavam e pescavam e as mulheres trançavam e ralavam mandioca o dia todo. Era só isso de sol a sol, porque só tinha o Sol.

Aí, quando criaram a noite e a Lua, nós sacis fomos nascendo dormindo e de dia, ao acordarmos, nós saímos por aí para aprontar o dia inteiro, inclusive a noite quando todos estão dormindo.

E saci não dorme?

Depois desta longa noite de sono não precisamos mais dormir. Agora me dá a pena!

Só depois que você contar para onde vão as palavras conforme você prometeu.

 

É mesmo, tinha esquecido, então presta atenção Curumim. Aí num dia desses eu acordei e saí cedinho, ouvi um barulho na trilha principal do mato, achei que era onça, mas não era onça não, era uma frase correndo e se enroscando toda pela vegetação. Aí:

 

Eu segui as palavras

Segurei a frase pelo seu sujeito

E peguei uma carona no ponto final

 

Atravessei muitos livros e suas enormes lombadas

Naveguei pelos rios entre palavras

 

Ouvi o canto da Uiara

Se perder na virada de uma página

 

Vi o conto

Desfazendo-se no encanto deste encontro

 

Vi o poema

Se desmanchar no ar como um aroma perfumado de flor

 

Senti o romance

Afundando no desembocar do grande rio no mar como um manati

 

Vi uma palavra

Perdida no seu próprio sentido

 

Ouvi uma letra morrer

Sendo pronunciada numa língua antiga

 

Não ouvi, vi ou senti mais nada

Apenas aconteceu o encontro da prosa e da poesia

 

Onde as palavras

Fundem-se umas com as outras

 

Palavras entre rios

Rios entre palavras que desaguam na memória

 

Todos os rios lá se encontravam

Todas as palavras inventadas e reinventadas

 

Vislumbrei palavras criadas neste instante

Uma atrás da outra sem parar

 

Olha mais uma! Outra… Mais uma!

Outra ali, outra acolá

 

E sempre mais uma

No instante da eternidade

 

Deste encontro que não passa despercebido

 

Onde mora a memória

E vive a estrela da água, a flor da Vitória-régia

 

Eis que surgiu na pureza de um simples pensamento

Na visão de um nativo desta terra

 

A palavra certa que explica em imagem e som

O encontro das palavras nestas águas

 

POROROCA

 

Cuja imagem sonora é a prosa

Fazendo poesia

 

E justo quando eu ia descobrir o lugar onde moram todas as palavras do mundo…

 

O que aconteceu?

Aí eu ouvi aquele som, aquele estrondo, não deu outra, deu uma vontade de surfar naquela pororoca recém foi anunciada, só deu tempo de voltar pra casa, pegar a prancha e uau! Você precisava ver, num pé só, detonei. Agora me dá a pena!

Não dô! Você inventou tudo isso, quer me enrolar seu Saci safado?

E daí Curumim, tudo não foi criado, tudo não foi inventado? Pensa bem.

 

É mesmo, você tem razão, mas antes de te dar essa preciosa pena do matita perê eu quero saber se é verdade uma coisa.

Ei! O que você vai fazer com esse fio de palha?

Dar o terceiro nó! Pronto, já dei! Agora eu posso pedir para você encontrar uma coisa para mim não é?

Não, agora não, eu já tô apertado, inclusive ia pedir agorinha para ir no banheiro, desmancha isso!

Nossa, não é que funciona de verdade? Então Saci, agora que você está amarrado magicamente seu bilau, eu quero que você encontre uma coisa pra mim.

Ah! Diz logo o que é que eu tô muito apertado!

 

Saci, eu quero que você me traga um curupira!

Ôooo, Curumim! Você tá doido, como eu vou trazer um curupira?

Porque, vai dizer que você não consegue?

Nem eu nem ninguém consegue.

Porque?

Porque curupira é só uma lenda, ele não existe!

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