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Encarou o livro. O livro encarou de volta. Ouro, fogo e megabytes*. Que espécie de título era aquele? O que uma coisa tinha a ver com a outra? Tinha que admitir que a cobra cuspindo fogo na capa era maneira, mas achou uma desgraça de presente aquele livro.

Pra começo de tudo, era de autor brasileiro… E todo mundo sabe que livro brasileiro é chato pra caramba. E daí ainda tinha esse título esquisito e falava de folclore. Justo folclore? Não podia ser livro de guerra? Ou de lobisomem? Aí sim seria legal.

Pediu para a mãe se podia trocar o livro, mas ela negou.

-Anderson, foi presente da sua tia. Ela é professora, então sabe o que é bom. – Foi o comentário final dela a respeito.

Emburrado, jogou o livro sobre a escrivaninha do quarto. Se largou na cama, pegou o celular e fuçou em qualquer coisa.

Depois de um minuto, a raiva passou. Olhou pro livro. Era judiaria machucar assim um livro, mesmo que ele não quisesse ler. Levantou e segurou o objeto, alisando a capa. Pelo menos não tinha danificado.

Lembrou, então, da tia com o pacote de presente, o quanto ela parecia satisfeita quando deu aquele presente. Talvez devesse começar a ler, pelo menos poderia argumentar que tinha começado, mas que a história não era legal. De qualquer maneira, as férias estavam chatas mesmo, não tinha muita coisa pra fazer…

O guri sentou na cama, escorando as costas na parede e começou. O personagem era seu xará! Será que a tia tinha escolhido o livro só por isso? Leu o primeiro capítulo, receoso, leu o segundo, emendou o terceiro. Aquele livro era mesmo de autor brasileiro?! Podia? Em algum ponto tinha que começar a ter aquelas chatices de que todo mundo falava.

Em sua busca, de repente ele se viu na metade da leitura. Quase soltou um grito de espanto de si mesmo. Coisa louca, nem tinha visto o tempo passar. Chegava a estar com dor nas costas de tanto ler.

Saiu do quarto sentindo os olhos meio cansados de enxergar o que não fossem letras. Achou a mãe e a tia tomando um chimarrão na varanda.

-Ué, piá, o que houve? – A mãe perguntou, vendo que o menino parecia meio perdido da realidade.

-Mãe, a gente pode ter uma capivara de estimação? – Foi a resposta que ela obteve.

Enquanto ela discutia com o menino a respeito, a tia bebia o chimarrão, serena, sorrindo por dentro. A ideia da capivara tinha saído do livro, então o menino tinha lido, e logicamente, tinha gostado. Tem tanto folclore por aí nesse mundo, como dizer que jovens não leem e que literatura brasileira é chata…

 

*O livro Ouro, fogo e megabytes é real e de autoria de Felipe Castilho. Isso não é uma propaganda, mas o livro vale a pena. Se não conhece, procure e leia. 🙂

*A imagem no começo da postagem foi retirada da capa do livro Ouro, fogo e megabytes.

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