Aquele poema ficou rondando a minha cabeça durante alguns dias. Eu não queria ter um porquinho da Índia, achava muito esquisito ter um bicho daqueles. Eu queria sair de casa com o meu na coleira. Queria que a minha vizinha me visse passeando e perguntasse se poderia passar a mão. Ela, sim, seria a minha primeira namorada.

Minha mãe vivia distraída com os afazeres domésticos, a televisão sempre ligada, atenta às novidades dos reclames. Ficava tentando entender por que diziam sempre as mesmas histórias. Cansei. Abri a porta devagar, ela não percebeu, fui ao parque próximo de nossa casa.

Ali, quase todos os dias, a minha vizinha passeava sem perceber que eu a observava. Quase todos os dias, ela abria a porta, dava um sorriso falso, passava a mão na minha cabeça e descia. Depois eu começava a reinventar aquele gesto. Ficava reproduzindo a mesma imagem. Será que mais alguém me observa? Sem perceber, eu já estava dentro da tela, contribuindo para que o nosso mundo possa existir. Mais alguém teria a chave? Não suportava a ideia de que poderia ficar preso como em Matrix.

Dei dois toques e voltei para o corredor. Olhei para saber se poderia continuar controlando os seus passos, mas ela gostava do hábito de surfar no seu skate invisível. Eu precisava inventar uma estratégia para chegar até ela.

Era preciso ter o meu bicho de estimação! Fiquei parado, anotando os movimentos das pernas que passavam perto do meu nariz. Elas, de alguma forma, fogem do meu corpo, ali sentado, criando estratégias possíveis de confirmação de minha existência. Rapidamente, percebi que havia um outro movimento ao meu redor, teria resolvido o meu caso? É isso! Claro que não seria fácil. Teria que passar por minha mãe sem que notasse. Essa seria a tarefa mais difícil.

Sim, o meu animal de estimação encontrava-se ali, e eu só precisaria de uma corda e uma boa dose de sorte. Voltei correndo para casa; havia a caixa, debaixo de minha cama, com a minha coleção de coleiras.

A minha mãe quando queria perdia todo o encanto com a surdez. Falava com voz de preocupação, marcando que o seu lugar estava bem definido. Se ela soubesse das minhas intenções, certamente faria de tudo para me dissuadir. Ela reinava soberana, eu precisaria ter precauções. Alguma vantagem eu levava, não teria que perder o meu tempo com latidos. Até que se prove o contrário, capivara não late.

A capivara do parque seria a minha companheira. O único problema, e bastante perigoso, era o danado do carrapato. Minha mãe vivia gritando quando me via chegar perto das capivaras. Tatu, sim. Capivara, não! Mas eu não quis saber, capturei uma para o meu deleite. Conquistaria a minha namorada; ensinaria a capivara a sentar perto da porta, no horário matinal, do passeio com o skate.

Depois, já outro projeto em mente. Não ficaria com a capivara por muito tempo, convidaria a vizinha para um jantar. Minha mãe não perdia a sessão de cinema das terças, à noite.

Compraria um pacote de carvão e faria um churrasco perfeito! Comê-la-ei!

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