(Créditos das fotos: Francielle Biglia 2014.
Comunidade de São Domingos [Floresta Nacional], Pará).

— moça? que dia é hoje? nunca sei que dia exatamente foi.
a moça riu. continuava a caminhar com a criança.
— ontem foi segunda.
— hoje o rio tá verde. cada dia muda de cor. laranja, prata, azul.
caminhavam em direção à beirada. a moça e o menino. o Bicho Preguiça e o Tracajá. o Buritizeiro e a Samaúma.
— vem cá ohh? come isso daqui.
— conhece? Murici.
eu sei que ela queria caminhar apontando o queixo para o céu. e fincar os pés na terra. andava que nem nós. pés nus.
nós recebíamos algumas visitas. tinha gente que umedecia a pupila.
recebíamos cartas. algumas voltavam. outras continuavam suas vidas sem pensar na gente. o pensamento era que nem o nosso rio, à vezes, comia a terra, tomava espaço. Jacaré não saía nem à noite do medo daquele bicho que come terra, cabeça, tudo. os homens de uns tempos pra cá, estavam assim. canibais do pensamento.
numa noite adentro vi que os insetos estavam sem o rio, vi o menino secar, uma cor dourada tomar conta de tudo. falavam uma língua estranha. diziam que vinham da civilização, lá do canadá, do pará, lá de cima. queriam tirar o sangue da Terra, da Árvore, dos Bichos, até da gente. era sangue metalizado. desses perigosos.
só de sentir no desaparecimento…daquele rio, daquele menino e a Piracaia que preenchia nossos rios. era bom mesmo voltar para Árvore.

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eu vim do Jatobá. na comunidade era conhecido por meter o equilíbrio da cabeça na gente, ajudar com os Frutos, dos pequeninos até os maiores. tinha cada caso de medo. sempre pensamentos de analisar prós e contras. dando um nó no coração.
se eu olho pra Árvore. o negócio é o sentimento. da Terra até o Céu. unidos. coisa que menino desaprende…

minha mulher vinha da Onça. ela falava com uma lá que aparecia de vez em quando no quintal de casa. o medo era do pensamento. do ouro. da televisão. a Onça, minha mulher até transmitia alguma gentileza. dizia que era amiga, e dessas tristes. pra botar todo mundo com o queixo apertando a garganta.
na casa eu não tinha nada. mas quando saía lá fora…

eu entendia por que a moça ficava com o queixo pra cima e não caía. queria pegar tudo que era Estrela pra lembrar nas noites em que apagavam. morriam um pouco. a moça morria também. toda gente dos lados de lá do mundo cambaleava, morria pior.
eu havia entendido que morrer era bom. uma honra.transitar. tanto a gente fica com a gente. que nem Árvore que vai ficando.

quando vem alguém e quer deixar as coisas arrumadas. daí cortam.
o homem tá no desequilíbrio. na oportunidade o fruto de Jatobá ajuda.
tinha índio que plantava Árvore pra dar vida alta, vida longa. agora fica pra decorar, fica belo. eu não sabia o que era feio. até a Terra sangrar que nem eles fazem com ela.

meu filho e a moça se reúnem agora com a comunidade perto das redes. era tanta cantoria em círculo que botava o pensamento para deitar. o que tá feito fizeram.

no vai-e-vem da roda.
corre Cutia na casa da tia
corre Cipó na casa da avó
lencinho na mão caiu no chão
mocinha bonita do meu coração.

aquilo tudo e mais o Tucuxi que nadava prateando toda a água do Tapajós.
a moça e as crianças giravam. dava muito equilíbrio. limpando os corpos.
da janela eu observava, até os Anhangás vinham ver o acontecimento.
depois era a canoa, a roseira, tanta palavra pra gente fazer afago que o pensamento me impedia de lembrar das coisas.
a moça cantava e tirava foto no crepúsculo. cada cor que se ganhava. depois só no papel pra olhar.

eu tinha uma coleção de álbum de visitantes. também das Árvores e das Sementes das Corujas das Borboletas dos Pássaros. da Onça tava difícil de ela ceder. ela não queria ser tocada pela luz e um dia ser lembrada só assim. custava acreditar.

com um visitante que ficou com a gente bastante tempo. falou isso. que a gente ia desaparecer.
— já tava, né? me pedindo confirmação.
ele me deu uma câmera dessas. aí virou mania minha, bater foto. se a gente some…que vejam…replantem.

minha dúvida era se dava pra replantar o nosso mar.

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Salvem o Tapajós!

Texto em homenagem à comunidade de São Domingos na Floresta Nacional (FLONA).

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