Ilustração do autor

 

As nuvens da mata branca geralmente são brancas contra o céu de um azul intenso. Eu não podia ter deixado ela ir, mas deixei.

Quando vacilo assim, lembro do poema que ela gostava de citar. Aquele poema que fala em não deixar passar a vida em branca nuvem.

E agora estou aqui sem gasolina no meio da caatinga, se eu ultrapassei um carro acho que é só esperar e pegar uma carona. Dito e feito, lá vem aquele carro verde todo empoeirado.

Ela desceu do carro perguntando, então, quebrou ou faltou prevenção? Seus olhos tinham a estranha cor de seu carro, um verde profundo mesclado com um leve acastanhado.

O que você disse? Desprevenido com certeza. Não entendi. Perguntei se o seu carro quebrou ou… Ah! Não quebrou, dá até vergonha de falar, acabou a gasolina. Então você foi desprevenido mesmo. Foi.

Isso é comum por quem utiliza esses caminhos, tem que levar galão de reserva, eu também prefiro essas estradas de terra, ficamos imersos na paisagem.

Ah, eu não aprecio nem um pouco, na verdade eu me perdi, você tem gasolina sobrando para que eu possa prosseguir a viagem? Até onde você vai? Raimundo Nonato, na Serra da Capivara.

Coincidência, eu também estou indo para lá, vai fazer turismo? Não, estou viajando por amor. Ela sorriu. Por amor à arte rupestre? De tabela, ela é pesquisadora nesta área.

Outra coincidência, eu também sou pesquisadora. Que coisa. Os dois riram. Meu nome é Bárbara, Bárbara Rocha. Você é parente do Glauber? Esses cabelos negros e…

Não, não sou, sou parente das rochas mesmo, sou geóloga. Incrível isso, a pesquisa, todo pesquisador tem que casar com a sua pesquisa? Só se ele for competente! E você é? O que você acha? Pelo que você disse do seu sobrenome deduzo que sim.

Deduziu bem, mas se você acha que eu vou deduzir qual o seu nome? Meu nome é… Espera que eu sei, deve começar com D. Como você sabe? D de desprevenido!

Que bom, nem preciso me apresentar, mas irei fazê-lo. Danilo Desprevenido, especialista em pedir carona por falta de gasolina.

Ela sorriu, mas sorria principalmente com seus olhos verdes poeira. Imagino que por ser desprevenido perdeu a sua mulher numa pesquisa aqui na caatinga. Agora foi a vez de Danilo sorrir, você é danada, hein?

Mudando de assunto Danilo, acabei de colocar o ultimo galão há uns quilômetros atrás, mas não estamos tão longe, venha, vamos encostar mais o seu carro perto da vegetação e seguir viagem.

Amanhã você pega uma carona e vem pegar resgatá-lo, o que acha? Agradeço muito Bárbara, só em pensar passar a noite por aqui me dá arrepios.

Sim, a noite a vegetação esbranquiçada e espinhosa torna-se uma paisagem meio fantasma a luz da lua. Ela perde o viço, embranquece devido a de perdas das folhas e ressecamento que sofre no período de seca.

Uma mata branca, que coisa, não sabia que a caatinga era uma mata branca. Mais que isso Danilo, caatinga significa mata branca em tupi-guarani. Sabe que pensando bem, eu acho que eu já tinha visto isso num documentário?

Devem ter falado que só ocorre isso aqui no Brasil, especificamente no semiárido, é um ecossistema bem diferenciado em vários sentidos, mas você precisa ver quando chove, tudo isso floresce, fica tudo verde.

Verde assim como seus olhos? Se for assim eu venho ver. Você está me cantando Danilo? Não, claro que não, se fosse cantada eu teria outras melhores que essa, mas já que você tocou no assunto, seus olhos são lindos principalmente quando você sorri com eles. Ela sorriu novamente.

É Danilo, essa foi um pouco melhor. Danilo deu uma gargalhada. Sério Danilo, qual é o nome dela, talvez eu a conheça, mas se ela está aqui há pouco tempo, acho que não, pois eu estava de férias. Você não deve conhecer, ela está por lá faz duas semanas, chama-se Elisabeth Novais. É, não conheço mesmo.

E como são as férias de uma geóloga de campo, possíveis? Você me acha tão fanática assim, que não largo a geologia nem um pouco? Vou deixar você me dizer. Danilo, eu fui para Irlanda, em Edimburgo.

Hummm, interessante, não é lá que foi formulada a primeira teoria da geologia moderna? Ah, foi, não é uma coincidência? Ainda estou esperando uma explicação plausível. Que carona folgado hein? Ainda tenho que me explicar.

Não é satisfação Bárbara, é apenas uma explicação de como tirar férias da geologia num lugar tão, tão, como posso dizer, com uma geologia e uma história geológica tão fascinante.

Eu até explicarei, mas antes acho que o senhor é que me deve satisfação. Do quê, posso saber? Sim, exatamente isso, desse seu saber geológico sobre Edimburgo, talvez possa começar por aí.

Ah é um longa história. Temos tempo Danilo, desembucha. Há aproximadamente uns quatro e meio bilhões de anos atrás começou a história geológica da Terra, mas para simplificar e ganharmos tempo, a minha começou quando eu tinha 8 anos e fui num Instituto geológico com a minha avó.

Lá ganhei um kit com algumas pedras, entre elas, basalto, feldspato e mica e acabei trancado num laboratório de microscopia eletrônica de varrimento voltado a geologia.

Ela brecou bruscamente. Danilo segurou-se como pôde, quase batendo a cabeça no vidro. Nossa, ficou doida, o que foi isso? O senhor desprevenido esqueceu o cinto? Parece óbvio, não acha? Mas porque você freou assim?

Porque você me enrolou Danilo! Eu não enrolei ninguém. Claro que enrolou, com aquele papo furado de pensando bem, sabe que eu já tinha visto num documentário. E eu pensando que você era um bancário, dentista, sei lá mais o quê, mas nunca um geólogo.

Na verdade é quase isso Bárbara, sei de tudo isso só pelos livros e além do mais, você sabe qual é a semelhança de um geólogo de laboratório e um de campo?

Sim, eu sei  Danilo, você tem razão, é só o nome, geólogo, de resto são completamente diferentes, porém não encanta você estar indo a Serra da Capivara com todo o conjunto geológico que existe por lá?

Nem tanto como deve encantar a você, mas se eu puder levar umas amostras, vou delirar quando voltar ao laboratório e olhar no microscópio, entende?

Agora eu sei porque ela veio para cá e você ficou. Nossa era com você mesma que eu precisava falar, por que nem eu sei a razão real dela vir, de deixar ela vir ou se tinha outra solução!

Ela riu e ele ficou observando seus olhos, quando a poeira baixou na primeira piscada ele perguntou. Porque você riu?

Porque foi a nossa primeira briga. Bárbara, isso está errado, sabia? Nós brigarmos? Eu acho normal termos a nossa primeira briga, mas não concordo com a ordem. Que ordem Danilo? Essa! Ele a beija ternamente. Olha nos seus olhos e diz, primeira briga, não deveria ser antes do primeiro beijo.

Não acredito que você me beijou! Segunda briga? Lembre-se da regra. Qual? Outra briga, outro beijo. Mas ela se esquivou.

Chega de ordem e regras, disse Bárbara ligando o carro novamente, temos que ir, pois o sol está baixando. Danilo eu estou voltando para o que eu mais gosto de fazer na vida e sua namorada está lá, te esperando.

Minha noiva Bárbara. Deus, pior, sua noiva! Ex-noiva e não está me esperando, mas é difícil dizer isso, ela estava me deixando e eu deixei ela fazer isso sem fazer nada. Já vi tudo Danilo, eu conheço bem essa história, agora você está confuso, carente e eu não sou mais que…

Bárbara, quer saber quem você é nesta história? Sim quero, mas fica difícil de saber isso a essa altura. Você em linguagem geológica é uma linda pedra verde poeira que eu encontrei no campo e quero levar para o meu laboratório, ampliar, ampliar, ampliar e me perder dentro desse seu olhar.

Neste momento começa a sair fumaça do capô do carro. Ela para novamente. Eles saem rapidamente do carro, ele abre o capô com cuidado e sai aquela fumaceira. Com esse calor deve ter fundido o motor, a senhora prevenida de gasolina e esqueceu da água?

Parece óbvio que sim, o que você acha? Acho que é um problema mais grave do que a falta de gasolina. Agora Danilo, o grande problema é que nessa hora é difícil passar um carro por aqui, no máximo, pode passar algum que esteja voltando.

Sabe Bárbara, acabo de perder o medo de dormir no carro. Assim Danilo, de uma hora para outra? Pode isso? Pode! Ela responde e o beija. Eles entram no carro, a lua desponta na mata branca da redundante caatinga, meia hora depois apareceu um carro se aproximando e piscando o farol.

Bárbara sai do carro primeiro, Danilo está se recompondo, o carro chega e para. Quando ele sai, uma voz familiar chama do carro recém chegado. Danilo? Ele responde, Beth o que você faz aqui? Eu estava voltando, indo atrás de você, nesses dias lembrei daquele poema e vi que eu não podia deixar esse lado da vida passar em branca nuvem.

 

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