“A história de hoje fala sobre um amor impossível, ele aconteceu há muitas eras, muito antes de seus pais, avós ou bisavós. Um amor jamais visto antes ou registrado.” – Disse o senhor às crianças do orfanato enquanto abria um grande livro, quase tão velho quanto ele, porém muito mais empoeirado. A capa era toda em couro e haviam certas gravuras ilegíveis em relevo. O idoso pigarreou e continuou a falar:

“Essa pequena história se inicia com um homem, mas não era apenas um homem, ele habitava os céus e morava nas nuvens, voava e se divertia com as correntes de ar, os mortais referiam-se a ele como anjo.

Aquele ser andava entre os homens que ali habitavam e muitas vezes até se misturava em meio a multidão completamente camuflado entre eles. Podia-se dizer que o homem levava até mesmo uma vida comum, se você desconsiderar as asas que ele escondia.

Porém um dia a vida do anjo mudou, em uma calma tarde de verão, quando o sol estava a pino, ele caminhava pelas ruas de terra e pedra daquela cidade. E foi enquanto divagava pelas ruelas sonhando acordado que se deparou com os mais belos olhos que já havia visto, foi como se seu olhar tivesse sido tragado por um buraco negro, ele fitou aquele par de olhos verdes por mais tempo do que pôde perceber, talvez até mais tempo do que pode ser considerado normal. E naquele instante o anjo sentiu algo dentro de si, algo único, que nunca ocorrera antes, uma fagulha acendeu em seu interior o enchendo de emoção e uma alegria inexplicável, quando finalmente voltou a si, o par de olhos jazia na multidão desaparecido.

Ao longo dos próximos dias, o homem procurou a quem pertenciam aquele par de olhos, mas não encontrou. Ele então decidiu voltar às nuvens ao fim de mais de um dia de procura, quando estava prestes a sair da cidade ele a viu, a mais bela mortal que já havia visto, e no instante em que ela se virou ele notou, seus belos olhos verdes eram os olhos que ele tanto procurava, ele a observou imóvel sem saber o que fazer. Foi o tempo da garota notar o olhar do anjo e se aproximar dele, roubando-lhe um sorriso. Durante aquele fim de tarde, eles conversaram sobre diversos assuntos até o sol começar a desaparecer no horizonte. Durante aquele pôr do sol, houve o primeiro beijo daquele improvável casal de uma mortal e um imortal, ele então disse que precisava ir, mas voltaria no dia seguinte.

No decair da noite, o homem voltou às nuvens e mal sabia que não poderia encontrar seu amor no dia seguinte. Naquela madrugada o anjo foi punido por se apaixonar por uma mortal, seu castigo foi perder suas asas e sua juventude eterna, ele também foi condenado a terra, sem destino ou caminho a seguir, e para sempre se lembrar de sua penitência toda a flora a qual se aproximava se tornava branca e logo morria. Sua amada também recebeu sua punição, ela se tornaria imortal para sempre procurar seu amado anjo sem poder encontrá-lo.

Os dois amantes vagueiam pelo mundo a procura um do outro, sonhando um dia poderem se reencontrar.” – O senhor olha para as crianças atentas, que em momento algum durante sua leitura, pareceram piscar, e diz:

“E esse é o fim da história meus pequenos…” – E vagarosamente, o idoso fecha o livro em suas mãos, selando as páginas que pareciam estar completamente em branco dentro da grande capa de couro, ele então se levanta, sorri para a dona do orfanato e segue seu caminho porta afora.

Ao sair, o senhor ajeita seu casaco para não sentir o frio da noite, a lua estava cheia e majestosa no céu, ele então pega uma bela rosa vermelha da roseira ao seu lado e caminha ao luar, deixando cair uma flor branca aos seu pés, antes de desaparecer na escuridão.

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