O sol se punha num céu de laranjas e liláses, como se Fortaleza fosse feita de cores, não de concreto e indiferença.

Garotos subiam na amurada da ponte e saltavam no mar. Suas risadas e o barulho de seus corpos batendo na superfície da água salpicavam as pessoas que ali estavam com uma felicidade que me irritava. Nada daquilo me soava natural e orgânico. Eu estava só, cercado de gente e totalmente só.

No meio de casais se beijando e famílias tirando fotos, eu apenas olhava o reflexo da luz multicolorida quebrando com as ondas. Buscava, no silêncio e no vazio, algo que  – eu sabia! – jamais me preencheria. A vida me cansava.

Alguém sentou a meu lado. A intromissão. A invasão. A ousadia…

– Lindo, não é?

Ela era linda. Usava um vestido branco, longo e rendado. Pequena, tinha a pele pálida e os cabelos negros. Não pude adivinhar sua idade.

– É verdade – respondi. – Mas há coisas mais bonitas.

– Por exemplo?

– Seus olhos – falei. Eram de um verde pouco comum, sem nenhum traço de castanho. Como o mar em um dia nublado.

Ela riu, e foi como se mundos colidissem.

– Você não perde tempo – disse ela. A voz rouca era cheia de cores e texturas.

– “O meu coração selvagem tem essa pressa de viver”, diria Belchior.

– E você, o que diria?

– Diria que não tenho mais interesse no fim de tarde.

Ela sorriu. Ou eu era esperto, ou idiota, diziam seus olhos.

Ela se aproximou de mim. Meu coração estava completamente descontrolado. Eu suava como se tivesse corrido uma maratona.

– Nervoso? – perguntou. Ainda tinha aquele sorriso de dentes tão brancos. Os lábios eram carnudos, vermelhos. Puro desejo.

– Um pouco. Não costumo ficar fora até tão tarde.

Novo sorriso, maior, menos… cauteloso. Eu podia sentir se cheiro agora: canela, almíscar, papel antigo.

Coloquei a mão em sua cintura, e ela era morna e afiada. Uma serpente prestes a dar o bote. E eu era a presa hipnotizada.

Aqueles olhos.

– Você é interessante – disse ela, pondo a mão em meu peito. Mas tem coisas que jamais deve saber. Ou tocar.

– Por quê? – perguntei. Sua mão percorrendo minhas costas emitia pulsos de eletricidade e calor.

– Por quê nos sonhos também se pode morrer, meu querido. E quando se morre num sonho…

Aquele clichê eu conhecia. Mas estava pagando para ver, e ela sabia, pois num instante estávamos abraçados, nossos lábios colados, os corpos unidos e separados apenas pelas roupas que usávamos.

Vi imagens de uma terra estranha, cheia de luz e selvageria, como se o mundo ainda, então, fosse jovem. E percebi que ali, em minha frente, estava alguém que já vira séculos e séculos passarem.

Afastei-me dela devagar. Ela arquejava, e tinha os olhos verdes arregalados.

– O que é você? – perguntou, a boca semiaberta, os lábios brancos, tentando se afastar. Suas costas bateram na coluna de madeira que sustentava o mirante.

– Há coisas  que você jamais deve saber – respondi, esticando meus braços em sua direção. – Ou tocar.

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