Hoje inauguro um post totalmente diferente do habitual nestes três anos de Enlaces Literários, que consistiram sempre de contos publicados pelos autores!… É uma entrevista realizada com uma pessoa que foi muito importante no estímulo à criação literária dos participantes – assim como fazemos nós, neste projeto Enlaces Literários – e também no estímulo à leitura de livros literários. Tratam-se, respectivamente, dos projetos Incubadora Literária (IL) e Desafio Literário (DL). Vale salientar que eu participei de ambos os projetos dela, como um dos diversos participantes.

Saiba um pouco sobre essa líder cultural nesta minibiografia a seguir que ela me enviou anteriormente para publicação no livro de poesia animalista Os Animais Declamam e Cantam (que sigo na luta para publicação) ao qual a convidei para participar, com dois poemas de autoria dela:

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Viviane Lima nasceu em Brasília (DF) em 1976. Pedagoga, fez especialização em Educação a Distância e Educação Aplicada no Contexto das Organizações. Na seara literária, fez o curso Trajetória do Livro e da Edição, pela Unisinos EAD. Criou o projeto Incubadora Literária (IL), que aconteceu entre 2008 e 2013, pelo qual foram produzidos 142 textos de 11 autores, com foco na experimentação em torno de variados gêneros, estilos e formatos. Também criou o Desafio Literário (DL), que durou de 2010 a 2013, tendo contado com mil leitores resenhistas, que registraram 5.480 leituras feitas. O projeto era uma gincana que motivava a leitura de, no mínimo, 12 livros por ano, cada um de um tipo.

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Pois bem, segue a entrevista!

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1) Por que você inventou o DL e a IL? Resuma no que consistiam. E por que parou?

Depois de tanto tempo, é possível que um tom de ficção se sobreponha aos reais motivos que me levaram a criar os projetos. Mas, creio que, precipuamente, foi o entusiasmo pela leitura, no caso do DL, e mais pela escrita, no tocante à IL. A título de curiosidade, a IL aconteceu dois anos antes do surgimento do DL. Quem escreve sabe o quanto é necessário incrementar o repertório de leituras, se apropriar de mundos e temas, torcendo para que exerçam influência nos textos em progresso ou nos textos futuros. Mesmo não sendo o motivo que ensejou a criação de ambos, hoje percebo o quanto um projeto fez bem ao outro. Na verdade, sinceramente falando, determinante para a criação do DL e da IL foi o meu desejo de conhecer gente, de me aproximar de pessoas que, a priori, se situavam na mesma esfera de interesses.

A IL surgiu tomando de empréstimo a ideia do blog Duelo de Escritores (Não sei se está ativo). Consistia na feitura de textos com base em temas previamente escolhidos pelos participantes. A dinâmica seguia o ciclo de uma rodada por mês. A cada rodada, por intermédio de uma votação entre os participantes e leitores, elegia-se o melhor texto.

A DL consistia na leitura anual de, no mínimo, 12 livros. Um por mês. Os temas também eram escolhidos previamente e ficavam disponíveis aos participantes por intermédio de um calendário em que se explicava o conceito de cada tema. Dados os temas, os participantes, de acordo com a sua preferência, partiam em busca das leituras que melhor se encaixassem nos temas requeridos.

O encerramento se deu por que tudo é ciclo. Os dois projetos foram pensados para cumprir um percurso transitório. Mesmo porque nada é eterno. E assim é a vida.

2). Quais benefícios viu ocorrer com esses projetos? Você se orgulha, te deixa feliz por tê-los criado, como marca de sua vida? A quais outras realizações pessoais, profissionais etc você as compara?

Os dois projetos foram interessantes para o desenvolvimento de competências e habilidades de leitura e escrita. Falo isso não só por mim. Com relação a DL, recebi muitas mensagens de agradecimento pela criação do desafio, por ter possibilitado às pessoas uma espécie de reconciliação com a leitura. E a escrita tornou-se, por tabela, um ótimo acréscimo ao aprendizado, uma vez que para fins do cumprimento do desafio era preciso entregar um texto escrito sobre o livro lido. Não foi de caso pensado, mas o que se provou foi que a leitura e a escrita andam bem de mãos dadas.

IL
Os benefícios trazidos com a IL, você também pode dizer, Maurício…rs Escrita é exercício. E a IL não foi nada mais do que um micro laboratório literário. Ali aprendi a disciplina como condição fundamental para escrever. Fora isso, havia também um certo contorcionismo criativo para dar conta da multiplicidade de temas e gêneros abordados, tudo agindo em prol de sairmos da tal zona de conforto. Dentro desse contexto, o resultado foi muito bom. Melhor do que esperado.

Eu me sinto orgulhosa de tais feitos. Não é falsa modéstia, porém não faria nada disso sozinha. Em ambos os projetos, a ideia foi levada em frente com a ajuda de uma equipe empenhada e da receptividade positiva dos participantes. Interessante que criei os dois projetos “na doida”, como se diz. E isso é um fator que me marca bastante: saber que posso empreender e contar com a recepção e apoio colaborativo das pessoas. Quando o projeto é bom, as pessoas encabeçam. Nada na minha vida profissional se equipara ao que vivi. Imagine, no início, não havia nada além das ideias e de uma plataforma gratuita para tocar os projetos, e mesmo com tão poucos recursos, eu me vi sendo bem-sucedida muito mais pelos ativos intangíveis conquistados. Foram experiências únicas.

3). Você se inspirou em algo ou alguém para esses projetos? Quais/quem? Ou depois conheceu algo parecido?

Como disse acima, no que tange à IL, os créditos são devidos ao Duelo de escritores. Já o DL foi formulado com base nos muitos desafios feitos nos blogs norte-americanos. Não vou saber citar os nomes, porque eram muitos e a memória parca. Lá os desafios parecem ser algo comum. Assim que o DL começou a se “auto divulgar”, muitos outros desafios surgiram seguindo a mesma tônica. Hoje a ideia se difundiu e virou tradição aqui no Brasil. Tenho conhecimento do Desafio Literário Skoob para o qual, quando do início, fui gentilmente convidada a participar. Infelizmente, não foi possível na época. Tem o “Livrada” que é bem aceito entre o público-leitor e conheço alguns canais como o da Tatiana Feltrin e o Lido Lendo que têm criado desafios literários junto ao seu público. Um dado interessante é que, a partir do DL, muita gente e se apropriou da ideia para fazer sua lista pessoal de leituras ao modo de desafio. Felizmente, a ideia original se replicou e está em vigor até os dias de hoje.

4). Até uma equipe se engajou no DL contigo pra ajudar como assistentes. Como foi esse processo de equipe?

Tranquilo. E graças a Deus, pude contar com esse apoio, que sempre chegou até em mim de forma voluntária nos momentos em que eu mais precisei. O diferencial do DL estava no controle da participação de cada inscrito. Havia um acompanhamento. Eu usava meu e-mail como uma central de contato, recebia centenas de e-mails e nunca pensei em criar um faq, até que um membro da equipe sugeriu que o fizéssemos. Eu fazia tudo do modo mais amador que se possa imaginar. E a minha equipe me ajudou a otimizar as atividades simples, mas que tomavam muito do meu tempo.

5) Você recebeu críticas pelos métodos de conduzir DL e IL? Quais, de quem? Acha q foram pertinentes? Porque? Aprendeu algo com isso?

Olha, que eu me lembre, não. Vale dizer que as coisas foram feitas na base do diálogo. Não havia o porquê da imposição. Desde que dentro dos regulamentos, as pessoas fizeram o que lhes aprouveram. Além do que, em ambos os projetos, as sugestões eram colocadas à equipe e as alterações ou mudanças feitas foram devidamente acordadas pelo grupo. Lembro-me de que, no DL, as reclamações mais recorrentes relacionavam-se aos temas, aos gêneros…havia quem gostasse de um gênero e não de outro… Mas, são coisas pequenas que foram resolvidas com muita diplomacia. Nunca foi preciso apelar para a discussões, para os textões…

6) O que aprendeu ao criar e gerir dl e il? Acha que há algo que podemos aplicar na educação brasileira, no fomento à cultura, leitura, num país em que 70% da população, segundo pesquisa Fecomércio, não lê livros ou não tem esse hábito?

Não tem ares profissionais o que vou dizer, mesmo assim registre-se: aprendi a conduzir as coisas, até mesmo os probleminhas, com amor. Se há algo que podemos extrair de ambas experiências é a de que é preciso aliar a leitura à escrita, e vice-versa. Vejo o ensino da leitura muito ocupado com a estrutura do texto, com as ideologias a ele subjacente, esquecendo-se da narrativa propriamente dita. Diante disso, a história contada no livro passa a ser periférica, de menor importância. A isso devemos o fato de muitas crianças e adolescentes não gostarem de ler. O DL soube encontrar uma dinâmica em que a leitura valesse por si mesma e fosse também enriquecida com as impressões de leitura, em sua maioria divulgadas na forma escrita. Com relação a isso, creio ser importante estimular os estudantes a criar um diário de leitura. Penso ainda que quanto mais houver oficinas de escrita, melhor. De outra parte, sei da difícil realidade do Brasil, porém é importante que os professores desenvolvam também o hábito de ler.

7) Conhece o enlaces literários? Acha que ele tem algo a ver com o que você já fez? Que opina sobre o valor do site? Quais críticas nos faria, para melhorar?

Conheço O Enlaces. É um projeto literário como a IL. Embora a dinâmica pareça ser diferente, no fim das contas, o que vale é o esforço feito nos bastidores da escrita. A tela apenas mostra o resultado do que é a luta com as palavras que todo o escritor tem de travar. A ideia dos textos entrelaçando-se para gerar novos textos é genial, ainda que assustadora aos meus olhos. O conselho que dou é: escreva, escreva, escreva e escreva. E que a experiência, aos modos de ensaio e de laboratório, sirva também para abrir espaço para que as dúvidas sejam buscadas e respondidas em cooperação entre vocês.

8) Como você acha que conseguiu motivar mil leitores a escrever cerca de 4 mil resenhas? É um feito incrível! Porque acha q isso foi importante?

O mérito não é meu. O sucesso da experiência se deve ao simples fato de que as pessoas gostam de comentar o que estão lendo. O DL só fez juntar a fome com a vontade de comer.

9) tem noção de onde foram os participantes de seus projetos, qto a estados e países?

Não. Não possuo os dados para dizer com precisão.

10) O que diria a quem desejasse fazer algo similar ao que você fez? Incentivaria? Permitiria que usasse os mesmos sites que você usava? Por que? Que dicas daria a quem o fizesse hoje?

Quando dei o DL por encerrado, convidei os participantes a empreenderem os seus próprios desafios literários, fossem pessoais ou coletivos. A página continua disponível ao acesso, com os regulamentos e com o todo o histórico do projeto para quem quiser conferir. Inclusive, há quem faça uso dos regulamentos e pesque alguns temas de lá. O lema do DL era o seguinte “vambora ler” em que a inclusão estava sempre dentro do pacote. Isso continua valendo, que eu esteja à frente ou não. Para implementar o projeto, não há receitas, só a vontade de realizar. O conselho que dou é o de que faça o que fizer, faça-o com amor.

11) O que você aprendeu sobre o gosto dos leitores? Quanto a escritores e assuntos e gêneros? 

Os leitores do DL liam de tudo um pouco. Curiosos, buscavam conhecer livros e autores novos. Considero um dado interessante à procura recorrente pelos clássicos.


12) como eram definidos os temas de cada mês?

Eram definidos previamente antes da abertura da temporada. Os participantes tomavam conhecimento de toda a agenda de temas com um a dois meses de antecedência. No início, a escolha dos temas partia de mim. Com a equipe, passou-se a elencar quais eram mais interessantes e inéditos. De uma lista com vários temas, 12 eram escolhidos mediante votação entre os membros da equipe.

13) como o leitor pode tirar mais dúvidas contigo e te contatar? Fale de você um pouco.

Hoje tenho o blog sentindodeleve.com.br em que abordo o assunto “livros”, entre outros temas. Há um desafio literário pessoal ocorrendo lá também: o Projeto Ilha deserta (http://sentindodeleve.com.br/projeto-ilha-deserta/).

Eu continuo a investir na escrita literária. Conto com o blog pegueinomeucoraçao.com.br para “engavetar” os meus textos e satisfazer a minha necessidade íntima de escrever. Estou disponível para contato em ambos os canais.

Quanto ao DL, penso em resgatá-lo um dia, com uma nova fórmula a se pensar. Não é nada certo ainda. É somente um desejo.

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