(abstrato em tela, pintura da autora)

 

Os dias escorregavam cinzentos e iguais pelo calendário, feito um colar de pérolas idênticas. Eu escutava o tic-tac do relógio, sem sentir nenhuma agonia ou entusiasmo particular. Aquele divã de repente parecia gigante na pequena sala.

– Joana, faz um favor? – chamei a moça – cancele todas as sessões de hoje.

– Todas? Mas doutor…

– Todas, obrigado.

Aquelas quatro paredes opressoras, parecendo cada vez mais apertadas, gritavam para que eu saísse e buscasse um pouco de ar. Não pude fazer nada além de as obedecer. Entretanto, ao contrário do que eu estava esperando, as árvores no parque não coloriram a minha vista e o ar poluído não trouxe nenhum ânimo repentino.

Por diversas outras ocasiões eu já havia sentido essa ambiguidade, dos sentimentos opostos lutando por uma guerra em que não há vencedores. Há dias em que abstraio as questões alheias com a mesma facilidade que a enfermeira higieniza as mãos com álcool. É simples, é fácil, basta analisar tudo de um ponto de vista bastante clínico, branco e objetivo, em que tudo fica trancado atrás da porta e posso ir para meu tranquilo apartamento e aproveitar uma refeição quente. É a solução, para não perder a sanidade. Porém há dias em que os comentários e os sentimentos dos pacientes ficam passeando pelo meu pensamento, voltando, trazendo memórias e reflexões e não é tão fácil abstrair essas sensações, pela única razão de se ser humano.

Sim, houve outras vezes em que me perguntei: mas por que raios não resolvi ser açougueiro ou engenheiro? Então me lembro que é por causa do tal chamado dom, quando alguém inventa de dizer que você veio a este mundo para cumprir uma missão, deixar algo melhor com o que você souber contribuir. E esta é a forma que eu sei ajudar.

– Será que sei, mesmo? – me pego perguntando, em voz alta. Aquela imagem não sai da minha mente. Minutos antes, estava ele ali, um bocado angustiado, porém ao alcance da minha mão. E o que foi que eu fiz? Tentei reduzir sua agonia a alguma explicação Freudiana analítica e simples. Você se sente assim por causa de determinada situação na sua infância. Este fato se explica por x+y. E logo em seguida, ali está ele, um corpo, uma mente, uma alma talvez, um amontoado de emoções que não podem ser quantificadas em explicações e tampouco guardadas em gavetas organizadas para análise simples.

E aquele homem, tão profundo e tão cinza, estava lá, caído, longe e vermelho e frio.
Minha mente não consegue esquecer a cena. Continuo dançando em volta dela. Minha mente se vê azul, somente uma grande nuvem azul e apagada.

– Chega! – eu grito para mim mesmo. Desejo sumir. Ser tragado pela terra. Mudar de cidade. Mudar de profissão. Me tornar advogado, marinheiro ou simplesmente sair viajando o mundo. Pronto.

Vou andando a esmo, subindo a rua, sentindo a brisa e mal conseguindo equilibrar os pensamentos na linha da mente. Entro no mercado da forma mais mecânica que foi possível, afinal, meu corpo ainda reage e sei que preciso comer.

Depois de escolher uma massa e uns biscoitos, peguei a fila para pagar. Uns poucos passos a minha frente, me deparo com uma pequena menina, uns 5 ou 6 anos, com maria chiquinha. Ela olha para trás. Por fim, volta-se por completo para mim e fica me encarando. Os olhos arredondados tão vivos me chamam. Olho intensamente. Ela sorri.

– Oi tio! – ela acena com a mão.

E eu, em meio a uma crise existencial que eu já nem sabia se pertencia a mim, me vi completamente concentrado em uma criança desconhecida. Aquele olhar brilhou dentro, ela sorriu de novo. Sorri de volta.

– Qué bolacha? – perguntou.

– Quero – respondi, amistoso, enquanto a mãe da garota pagava pelas mercadorias. Ela me ofereceu o pequeno doce de carinh, olhando-me tão fundo nos olhos que era quase transparente. Sorriu e acenou outra vez ainda, antes de se ir.

Peguei-me ali, atônito por um simples olhar, segurando meio biscoito todo babado e sentindo uma paz começando a crescer aqui dentro. Esperança, eu logo reconheci. Aquela pequena semente que começa a brotar e crescer. E eu soube que amanhã iria reabrir a clínica com a vontade legítima de ajudar. Eu soube, assim que olhei para aquela metade de biscoito me sorrindo. Sorri de volta.

Anúncios