– Dê uma chance ao destino, Luís – dissera minha psicóloga, ainda naquela manhã. – Você se cobra demais.

Saí do consultório e passei num pequeno restaurante chinês que havia ali perto. Comprei um saquinho cheio de biscoitos da sorte. Tirei um e sacudi, sentindo o papel balançar. Olhei-o contra o sol, mas não dava para ver através, e eu não queria tirar a mensagem antes da hora. 

 

– Bom dia, seu Luís – disse José, o porteiro do prédio onde eu trabalhava. 

Acenei de volta e apanhei o elevador até a cobertura do prédio, onde eram guardados o material de manutenção e um monte de velharias. Caminhei até a borda e sentei, balançando os pés. Abaixo de mim, pessoas, carros e ônibus passavam miúdas, seu barulho apenas um eco fraco e frágil.

Comi o biscoito,  a massa fina e levemente adocicada desmanchou em minha boca, junto com o papel seco e sem sabor. Um após o outro, comi-os, engolindo suas mensagens. Eu era um náufrago que se negava a ser salvo, ou a salvar alguém.

Lá embaixo, eles seguiam desatentos e infelizes, enganando-se quando ao poder que tinham de controlar suas vidas. Sinto muito, pessoal, não existe tal isso! Nossas existências são um conjunto vago de coincidências que mal se relacionam. Todo o sentido está em nossa necessidade desesperada de acreditar que algo zela por nós, que há um objetivo final.

– Besteira – falei, a boca cheia de papel doce. 

Nessa vida sem significado, tornamo-nos zumbis acompanhando uma manada cega, alimentados por uma estúpida, quente e suave sensação de pertencimento, seguindo códigos e regras vazios, esperando com medo a morte que sempre chega. Como somos ridículos.

O único ato puro de vontade no meio desse mecanismo indiferente seria escolher a hora e o modo de morrer. Um único momento de liberdade, guiado pela ânsia de abandonar o caos da vida e encontrar a paz no esquecimento.

Sim, eu vou pular. Mas antes, porque não comer o último biscoito?

Ia colocá-lo na boca quando a curiosidade ficou pesada e densa, e eu puxei o papelzinho.

“Não pule.”

Rindo, joguei o biscoito e comi o papel.

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