[ilustração do autor]

Começou como um acidente. Menos que isso até, um incidente. Um escorregão num piso molhado do quintal de casa que lhe deixaria de molho por alguns bons dias, com fortes dores no braço, no quadril e até na cabeça, com risco até de alguma quebradura, lhe trouxe nada mais duradouro ao longo do dia.

Se doeu? Sim, doeu. Mas ao menos foi rápido. A dor passou em cerca de 5 minutos.

Depois de 5 meses, foi um tombo de bicicleta, descendo de uma ladeira. Perdeu a direção, acabou encostando as rodas numa guia de calçada e lá se foi ela.

– Deus! – gritou, enquanto era arremessada até o chão.

Rasgou à beça suas calças e também ralou muito as mãos e os braços, que instintivamente foram pra frente tentar proteger a cabeça do impacto. A dor foi horrível, raspando e rasgando o corpo pelo asfalto por vários metros.

Porém, passados 10 minutos, tudo bem, passou. As feridas abertas nos joelhos, pernas, braços e mãos, sem falar na lateral esquerda do tronco, na região abdominal… estava tudo devidamente cicatrizado. As únicas lembranças do acidente eram a bike torcida do avesso, as roupas rasgadas e a sujeira no corpo. E o sangue espalhado pelo chão e pela roupa.

Certamente ela se dava conta de que algo estranho estava ocorrendo com ela. Isso não era normal. Parecia que ela tinha virado uma espécie de “Wolverina”, com o tal fator de cura mutante!

Dava-lhe vontade de testar mais a sua habilidade corporal de cura rápida. O problema é que cada uma dessas experiências lhe doíam muito. Não era poupada da dor dos impactos e dos ferimentos, no momento em que eles aconteciam.

Pensou em tomar analgésicos. Não, isso devia ser mais pra dor de cabeça, não? E muito fraquinho. E morfina, não é isso que davam aos soldados feridos para aliviar suas dores na guerra? Bem, passou na farmácia e arrumou alguns remédios contra dores. Os melhores e mais potentes que podia arranjar. E lá foi ela. A coisa estava ficando divertida.

Testes

Mas… ainda que estivesse na adrenalina de experimentar outras possibilidades, tinha certo medo ainda. Achou melhor então tomar mais cuidado no tipo de teste que faria consigo mesmo. Resolveu ser bem certeira em um ponto específico de seu corpo, pra evitar que morresse então com algo brutal demais.

Pegou um facão afiado da cozinha, meteu em seu braço, na parte de baixo – vai que não desse certo e ficasse com cicatrizes horríveis? – e foi rasgando. Pronto. Ali estava o teste. Bem localizado e não resultaria em morte caso não desse certo. Os comprimidos, contudo, não deram muito certo. A dor era muito grande. Gritou. Mesmo assim, como das outras vezes, em questão de minutos, o rasgo em seu corpo foi se fechando.

A coisa estava ficando viciante. Animou-se, cheia de confiança então. Jogou-se do alto de um prédio isolado. Não queria alarde. De alguns andares acima. Uns cinco. Desta vez, até perdeu a consciência. Mas recobrou-a em minutos, como sempre. Assim como seu corpo voltou todinho a se integrar – tinha literalmente se arrebentado todo e partes dele tinham se espalhado pela calçada – e a funcionar. Pôde perceber isso porque, felizmente – ou não – sua consciência voltou rapidinho, antes de o corpo voltar a se reconstruir e se remontar após as graves e múltiplas fraturas ósseas da queda. Assim, assistiu à sua milagrosa reintegração.

Ficou cada vez mais animada! Ia agora pular de um prédio ainda mais alto! Ou jogar-se na frente de uma rodovia de altíssima velocidade? Sim, rodovia!

O encontro

Arranjou transporte para os limites da cidade e estava quase chegando ao seu novo desafio. Após descer do ônibus numa parada próxima à estrada, com os olhos brilhantes do fulgor de quem brinca de ser imortal, porém, foi interrompida.

Uma mão firme agarrou seu ombro direito por trás e a puxou. A moça levou um tremendo susto! Como assim? Quem ousava interromper a sua jornada de desafios invencíveis?

Ao virar-se para trás, deparou-se com uma senhora elegante e de semblante duro. De braços cruzados, como que pronta para lhe dar uma bronca daquelas.

– Ahn… quem é você? – perguntou a jovem.

– Essa não é a pergunta mais importante aqui, minha cara.

– Como não? – estranhou a moça “Wolverina”. – De repente você chega aqui me puxando e não posso nem perguntar quem é você?

– Eu não disse que não vou me apresentar. Meu nome é Gabrielle, se te satisfaz. Porém, como eu disse, isso não significa grande coisa, ainda mais perto perto do que você tem feito.

– Tá, dona Gabrielle. Mas o que é que eu tenho feito de mais?

– Está brincando comigo? Você está cometendo atos escabrosos com seu próprio corpo e sua vida, e você me pergunta o que tem feito de mais?

– Putz… você viu o que eu fiz, então? Mas onde? Como? Achei que eu tinha sido discreta. E… como você foi me encontrar bem aqui?

– Eu tenho bons contatos, digamos assim. – respondeu a senhora. – Estamos sempre de olho em você.

– O quê? Como assim? Estão me espionando?

– Claro que espionamos. E vocês sabem muito bem disso. Senão, não pediriam por nossa ajuda o tempo todo.

– Nossa ajuda? De quem está falando? – retrucou, insegura, a moça agora não mais tão ousada. – Nem conheço a senhora…

– Estou falando de Deus.

Ao ouvir isso, a jovem não sabia mais como reagir, ficou estupefata. Não sabia se ria ou sei lá o quê.

– Você tá brincando, né? – resolveu dizer.

– Não, não estou. E vim te dizer que você tem sido extremamente irresponsável e mal-agradecida. Às vezes Ele é generoso e concede graças aos pequenos. Porém, é como nos mostra a experiência. Quanto mais damos, menos o humano valoriza.

– …

– Seu corpo e sua vida são milagres divinos, menina. – discursou a senhora, dando sermão – Valorize-os. Você não sabe o trabalho que dá pra cuidar de você. Você sempre foi uma pessoa bacana, e Deus estava sentindo-se generoso contigo. Então, no seu primeiro acidente, intuitivamente você pediu a Ele por ajuda; ela chegou, com fartura. O mesmo no segundo acidente, quando pediu explicitamente pela intervenção do Pai. Aliás, pode chamar também de Mãe, Ela, pra evitar expressões machistas.

– Como assim? Deus é mulher então?

– Tanto faz. El@ está além da compreensão de vocês, humanos. Essa divisão por gêneros ou sexos só importa para vocês. Apenas não faz mais sentido no seu mundo de hoje associar necessariamente aquel@ que tudo pode e está acima de tod@s a uma figura masculina.

– …tá… isso é. Mas como você está falando com esse arroba?

– Não importa. Você entendeu. O que mais importa, voltando ao assunto: chega de brincar com sua vida. Ele, aliás, Ela, baseado em sua inocência e boas ações anteriores, acabou por ter misericórdia sua, e desligou a fragilidade e mortalidade de seu corpo por um tempo. Entretanto, esqueceu de te olhar de novo por um tempo, e acabou que você ficou com essas molecagens com o templo divino.

– Templo divino? – perguntou a moça, estranhando a situação, porém de certa forma se acostumando à possante presença de sua interlocutora.

– Sim, seu corpo. Toda a criação Dela é templo divino, são manifestações do poder e da graça Dela.

– Poxa, que saco. Nem o meu corpo, que eu achava que era meu, posso usar para o que eu quiser?

– Pode, mas sem desperdícios.

– Senhora Gabrielle… Quem é você afinal? Quero dizer… o que é você?

– Você sabe o que eu sou. Venho em nome Dela.

– Bem… você é tipo uma anja, então? Ah, claro, Gabrielle, Gabriel… haha.

– É assim que vocês nos conhecem.

– E o que eu devo fazer agora então?

– Faça o que quiser. Porém, está avisada que já teve suas chances de aproveitar melhor suas dádivas e as desperdiçou.

– Mas poxa, como eu ia saber que estava rolando mesmo esse meu, sei lá, superpoder? Eu tinha que testar! Fazer mais testes, pra entender o que tava rolando! Depois, juro, eu podia virar uma super-heroína e salvar muita gente! Eu faria até um uniforme e um nome de heroína, tipo “Super-Wolverina” ou “Walking Déda”!

– Não importa. Já era. – resumiu Gabrielle, em tom de fim de conversa. – As suas regenerações corpóreas já gastaram muita energia milagrosa do Departamento de Curas. Acabou. Estou me despedindo agora. Repense sua vida e seus valores. Volte ao caminho da Luz.

E Gabrielle sumiu. Como se nunca tivesse estado ali.

A jovem olhou para a estrada. Impotente e desanimada. Deu meia-volta e foi para casa. Pegou um facão de cozinha. E, com medo da bronca, ficou em dúvida se podia fazer mais um teste.

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