( ilustração de Felipe Bandoli )

 

Até agora o que me deixava esperançoso era poder sentar ali tranquilamente e ter o tempo necessário para pensar no rumo que daria a reconstrução de minhas memórias. Já me sentia velho o suficiente para começar a lembrar a respeito do que fui algum dia.

Ficava sempre imaginando, tentando entender as existências de uma pessoa. Quando passo por alguém, já aconteceu ou estou inventando o acontecimento? Seria mais simples se eu somente deslizasse pelo corredor e não avistasse o lugar de chegada. Saberia a trajetória da minha carreira e teria a certeza do jogo e do resultado. Não me obrigaria a ver aquela partida. Não deixaria o meu filho sofrer, mas ele precisaria aprender a dor; não daquele jeito. Tão rápido, tão sofrido. Não se tem mais calma para o aprendizado. Aceleraram o pedal, e o pé ficou preso.

Ter tempo é o mais valoroso investimento. Não sei se resistiria a uma volta ao passado. Esqueço-me de tudo. Minhas memórias falseantes, o que vem são apenas faíscas ficcionais.

A jovem sentou-se ao meu lado, perguntou se eu não gostaria de caminhar um pouco com ela. Afinal, a tarde de outono não era para ser desperdiçada. A pista estava repleta de gente bonita correndo, andando de bicicleta, skate… Olha só, eu também gosto dessa parte da lagoa, acho o lugar lindo demais.

Eu fiquei olhando para a jovem-mulher… Quem disse que eu quero conversar com alguém? Àquela hora, eu só pensava em ficar ali parado. E ela insistia em puxar conversa. O senhor acredita em anjos? E essa agora. A última coisa sobre a qual eu gostaria de refletir era a respeito dos sexos dos anjos.

Você acha que qualquer pessoa pode ter uma Ferrari? Não qualquer Ferrrari, mas uma F40. Ela passou de senhor para você. Me senti mais novo. Agora talvez eu revelasse alguma sabedoria. Mas que pergunta difícil essa. E se eu pudesse me transformar em uma vermelha? Meu Deus!? Será que a menina é do tipo que vê um filme mil vezes e, depois, sente-se o próprio. Ela estava com uma camisa com o desenho do Transformers e uma jaqueta preta, sem mangas, com alguns botons. Tinha um do Darth Vader, outro da banda Sex Pistols. O cabelo verde combinava com tudo. Eu curtia aqueles botons.

Depois de alguns segundos, esbocei uma resposta com outra pergunta. É possível bem-te-vis pousarem em uma Ferrari?

Ela fixou o olhar direto para mim, meio desacreditada; em seguida, a linha reta desviou-se da minha face e foi encontrar alguma coisa que eu não poderia ver. Levantou-se, deu um beijo em minha testa, um sorriso confiante transpareceu em seus lábios, e foi caminhar sozinha.

Atrás do meu banco havia uma F40. Não sei se ela viu os bem-te-vis.

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