Bem que te vi, bem-te-vi. Passarinhando diverso pelos gramados, catando bichos com o biquinho.

E o menino também olhava, cada pequeno salto passarinhesco filmado pelas íris castanhas. O peitinho amarelo do animalzinho era da cor da jaqueta que ele usava, eram como irmãozinhos, e nos olhos, tinha uma máscara negra de super-herói, que o menino não usava. Ninguém o deixara pegar brinquedos naquela manhã.

O bem-te-vi flagrou o olhar do menino, soltou pio e voejou de leve, afastando-se. Saltitou um pouco por um tempo e o seu amigo ficou observando de longe, estudando cada movimento.

Os adultos falavam sério, havia gravidades demais. Queria ir com o passarinho pelo campo, até as flores amarelas que nasciam no capim lá adiante, num lugar que ele nem conhecia.

Deu tímidos passos, tão leves quanto os da ave, mas logo havia uma mão sobre seu ombro. Foi puxado pra junto da mãe, ela segurou firme.

A mãe apertou, tinha lágrimas deslizando pelas bochechas. Outros também tinham, enquanto admiravam o que havia em frente. Ele também olhou. Todos agora tinham ficado quietos e então começaram a cantar uma música triste demais.

O menino olhou para o buraco, ao qual baixavam a caixa grande e escura de madeira. A mãe lhe meteu nas mãos umas flores fedorentas e mandou jogar em cima. Fez sem entender porque fazia e lembrou então de olhar pelo amigo voejante. Nem sinal, fora embora.

O menino entristeceu. Não chorou, mas olhou os pés, esperando. Ouviu pás trabalhando, o buraco fora selado e uma cruz de madeira foi colocada ali, cercada de flores coloridas que as pessoas tinham trazido.

A mãe e o pai o puxaram pra ir embora, todos já iam, cabeças baixas, tristezas muitas. O menino olhou então pra trás, e sorriu. Bem que ele te viu, bem-te-vi, empoleirado na cruzinha de madeira.

-Então o vô se fez passarinho… – Murmurou de si pra si, desviando os olhinhos brilhantes de quem viu o que bem viu no coração.

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