Ilustração do autor

Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão…
Eu passarinho!

Mário Quintana

 

Desculpe, eu estava distraído com aquele papel que voou, esperem um pouco, vou fechar a janela. Como eu dizia há pouco, sempre me interessei por pássaros, principalmente os que costumam planar, como os urubus. O mesmo posso dizer dos aviões, prefiro os planadores, acho que é algo com o vento, gosto de birutas, cata-ventos, enfim qualquer coisa movida pelo ar, principalmente as que comportam leveza e equilíbrio, como os móbiles de Calder.

Sabem, aos 8 anos, em 1970 tive a oportunidade de ver o filme de Kubrick do livro 2001 uma Odisséia no Espaço, vocês também viram esse filme? Eu fui revendo ao longo dos anos, até que chegou ao ano 2001 e nada. O interessante é que Kubrick filmou essa obra prima antes da real chegada do homem à lua. O que acham das teorias de que o homem não foi a lua? Seria tudo um embuste?

Desculpe, Senhor, mas poderia se ater ao nosso assunto?

Claro que sim! Fiquei impressionado com os macacos do início, parte que termina com a cena do osso jogado para cima e justamente quando começa a cair é transmutado num artefato espacial, em seguida surge a pequena nave chegando perto a uma enorme estação espacial que girava lentamente no espaço ao som da valsa de Strauss, mais impressionado fiquei com esse trecho, marcou demais, fora as cenas da falta de gravidade, em especial a da caneta flutuando dentro da nave, talvez daí a minha fixação pela leveza e…

Eu tenho que interromper novamente, gostaria que o Senhor fosse mais conciso e específico, pois não se trata da sua vida, mas de seu amigo de infância e o acidente com o avião.

Doutor, o senhor está enganado, pois eu estava traçando um paralelo para um entendimento mais profundo das coisas que permeavam a nossa amizade. Ao contrário do que descrevi antes sobre mim, ele gostava da velocidade, da força dos jatos, enfim, dos caças de guerra. Na época eu também tinha um sentimento belicoso, deve ser porque crescemos em meio a muitos filmes de guerra e de caubóis. Confesso que nas brincadeiras de criança eu não fazia questão de ser o herói, nem eu, nem ele nos importávamos em fazer o papel do bandido, na verdade sempre éramos os caras maus da história. Se eu não fosse tão tímido teria arriscado ser ator e poderia ser sempre o vilão sem nenhum problema.

Sim, eu entendo… isso.

Puxa, finalmente me fiz entender Doutor! O senhor pode criticar a vontade se eu desviar do assunto, é que geralmente as ideias na minha mente são levadas ou vem com os ventos, é um fluxo natural, se eu deixar as janelas abertas dentro da cabeça, posso ficar horas confabulando, os assuntos confluem e sobrepõem-se, então…

Então! Voltando ao seu amigo e se der, só um pouquinho mais resumido, pode ser?

Ah sim, claro! Vou tentar explicar da maneira mais sucinta possível: Ele tinha uma obsessão com um caça japonês da segunda guerra, o Mitsubishi A6M Zero, o Zero. Um dia, por coincidência, ganhei de presente um aeromodelo do Zero para montar. Pintei o corpo e as asas de branco, o bico de preto e colei os adesivos nos locais indicados nas instruções, ficou muito bom. Depois de tanto ele me azucrinar, não tive escolha, dei o avião para ele, mas nunca me arrependi disso. Essa fixação explica porque ele tinha bandeiras do Japão em vários lugares da sua casa, apesar de não se interessar como eu pela cultura japonesa, Hokusai, Bashô ou Kurosawa, simplesmente por causa do Zero.

Interessante isso! Porque supostamente ele embicaria o avião numa vertical suicida, o Senhor faz alguma ideia?

Faço sim, talvez uma ousadia, beirando a imprudência, um mergulho mal calculado, mas não um suicídio, pois a paixão que ele tinha pela vida era bem maior que a sua paixão pelo Zero. Nós éramos valentes atrás do muro, tolos cheios de bravatas, mas prudentes. Meu grande amigo era filho de um aviador da FAB que nos levou uma vez no IV Comar para empinar pipa, do outro lado os moleques da região empinavam as deles em cima de uma elevação que beirava a avenida em frente, isso antes da reforma. Gritavam que iriam cortar nossas pipas e cortaram mesmo. Xingamos da maneira que sabíamos naquela época, eles xingavam do outro lado, mas estavam dando risadas, pois eles haviam abatido nossas pipas, pior, capturaram as quatro e mostravam balançando os braços e pulando só para nos provocar.

Morávamos no mesmo prédio. Quando o zelador do prédio separou as lâmpadas fluorescentes queimadas, surrupiamos umas três e no fundo da garagem, como num filme de caubói, viramos bandidos com máscaras feitas com as nossas camisetas, na verdade para não inalar o gás ou o poeira de vidro ao quebrarmos e triturarmos as lâmpadas. Eu não entendia nada sobre isso, porém ele dominava os segredos do cerol: uma mistura de cola e vidro para passar na linha, mas apenas na terça parte da linha que ficava amarrada no cabresto. O cerol bem feito cortava fácil no contato com a linha das pipas oponentes.

Compramos seda e varetas e fizemos mais duas pipas cada um. Eu sempre tentava fazer uma diferente da outra apesar de só utilizar o preto e branco, ele como sempre só fazia pipa Zero, branca e vermelha. E na outra vez que fomos lá no IV Comar, conseguimos cortar sete pipas dos nossos oponentes. Ele cinco e eu apenas dois e de quebra estávamos municiados de novos xingamentos. Ele manejava habilmente a sua pipa branca com uma bola vermelha, como um verdadeiro Zero camicase, subia, enlaçava e cortava a linha da pipa adversária, na segunda cortada ele soltou um Zing!

Um Zing?

Sim, um barulho que ele inventou, quando cortou a linha da segunda pipa, vibrou dizendo Zing! A partir daí, sem largar a linha e a lata ele passava a mão rapidamente no pescoço, assim, vejam só, Zing! Eu desconfio que era por causa de um filme da segunda guerra que vimos juntos, num jipe na estrada, um soldado aliado tinha a cabeça decepada por um fio de arame esticado pelos nazistas.

Resultado final: o vento forte daquele dia levou para longe todas elas e os meninos da rua juraram nos pegar quando fossemos embora. Como a saída era para essa avenida, ficamos com medo e tivemos que esperar até o final da tarde pelo pai dele, para o nosso resgate.

Nessa época devíamos ter uns doze anos. Fizemos peixinhos e maranhões, geralmente com grandes rabiolas, e foi assim até aos 15 anos. Usávamos varetas e papel de seda da lojinha do bairro e carretel de linha 10 que as mães davam. Aí era só enrolar a linha em latinhas de leite em pó ou achocolatado. Eu no caso, preferia as latas de óleo. Mas no bairro era proibido o cerol devido ao perigo de corte e até mesmo do manuseio, se fosse pego com cerol era surra na certa.

A batalha no céu tinha que ser na laçada, saber a hora de dar linha e o momento exato de puxar, embicar e subir. O problema era que as vezes as duas se entrelaçavam e as linhas se partiam, quando por acaso elas estavam caindo por perto, coisa dificílima de precisar, além da correria, a gritaria era uma só: É minha, é minha! Deixa que é minha!

Nos dias de calmaria, mesmo correndo as pipas subiam só até certo ponto, mas não se sustentavam. O negócio era ficarmos ancorados nas árvores como birutas murchas e desorientadas até o vento chegar. Outras vezes o vento cessava de uma hora para outra, as pipas lá no alto desciam e neste caso, nem dava para tentar enrolar rapidamente a linha, o jeito era jogar a lata no chão e dar belas braçadas para puxar a linha, mesmo assim não evitava o ninar das pipas no ar descendo em direção ao solo.

No mais era correr contra o vento e dar a linha. Ver subir, subir, subir, emendar outro carretel e dar mais linha, mais e mais, até ela sumir no céu azul e sentir apenas o repuxar na mão. Lembro que a nossa última empinada juntos foi assim: eu com uma preta e branca, e ele com a sua famosa Zero. Numa contagem de três, uma última puxada no derradeiro Já! lá iam vários carretéis de linha pelo ar. Neste dia nos despedimos delas e nos despedimos, o pai dele foi transferido para o nordeste, mas ele tinha reservado uma surpresa, me deu uma pipa Zero que tinha de estepe.

Ele não parou por aí. Entrou na onda dos aeromodelos com motor e depois de muito tempo fiquei sabendo sobre o Zero em escala real que ele construiu e fui em Natal para conferir. Conseguiu que uma costureira fizesse um uniforme completo de piloto japonês da segunda guerra, menos o capacete que era original, disse que comprou numa espécie de mercado negro da guerra num país do leste europeu, que agora não recordo o nome, ele até me mostrou no mapa. Quando vi o avião, não pensei que aquela réplica fosse capaz de voar, porém a maior surpresa foi em saber por vocês que ele efetuou anos depois um único voo camicase mar adentro.

Eu, no meu caso, ensaiei durante muito tempo em buscar um local isolado e amplo para empinar a Zero que ele me deu. Talvez o muro que separa a minha infância numa redoma segura e de tantas lembranças me impedia de tentar revivê-la na vida real, talvez porque eu lembrasse da minha mãe que sempre me dava a sua linha 10 quando eu precisava.

Sempre pensei neste elo entre mãe e filho, uma linha em que ambos ao mesmo tempo se empinam, voando os dois unidos por esse cordão umbilical metafórico, por isso é tão triste quando um deles parte. Porém esse fio invisível nunca se rompe e ficamos por muito tempo dando linha ou puxando as lembranças que insistem ir e vir com o vento.

Desculpe interromper o Senhor neste final. Vejo que está emocionado, mas temos outra diligência e precisamos comer algo antes. Obrigado pelo seu depoimento, esclarece certos pontos, pois o capacete pertencia a um piloto que sumiu na segunda guerra, de início foi dado como morto em combate, mas nunca comprovado, por outro lado, havia uma grave suspeita de que era um espião que fugiu com um Zero, não se sabe exatamente para onde, por isso se você lembrar o nome do país, por favor, me telefone, aqui está o meu cartão.

Agora entendo, achava mesmo que o Zero que ele construiu estava perfeito demais, mas como será que ele veio parar no Brasil? Desmontado, peça por peça e enviado num contêiner?

Isso é mais uma coisa que queremos descobrir. Ah, uma última coisa, só uma curiosidade, o Senhor ainda tem a pipa Zero que ele deu?

Sinto muito, não tenho, um dia eu fui em Paranapiacaba e no alto do morro, dei linha, mais e mais, até o final do carretel e Zing!

Ah! Claro, Zing!

Sim, Zing! Mas, se eu fui bem sucedido, espero que vocês estejam vendo nitidamente como eu vejo. Olhem lá! Estão vendo aquele minúsculo ponto vermelho lá no alto? É o Zero dele. O mesmo que agora em definitivo, sabendo de sua morte, eu corto a linha…

Zing!

Obrigado! Sou eu a partir deste momento, um Zero no ar, um derradeiro ato camicase da minha infância que ao sabor do vento, vai, apenas vai.

 

Então chefe, o que achou? Eu acho que esses dois sujeitos eram doidos de pedra, desconfiei quando ele disse que as ideias na cabeça dele eram levadas ou trazidas pelo vento. E que maluquice se despedir na porta apontando o céu azul sem uma única nuvem e perguntar se estávamos vendo o mesmo ponto vermelho que ele.

E você não viu?

Ah? O quê… Vai dizer que você… Viu?

Devia ver a sua cara agora no espelho, claro que eu também não vi nada, estou brincando, vamos almoçar.

 

 

 

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