Recebi um pacote com o bilhete preso do lado de fora. Abri bem devagar, sabia que não era boa notícia. “ É para você, sei que vai gostar.” Como ele poderia ter imaginado tudo!? Havia uma passagem de ida e volta para França, os botões e uma foto.

Jogávamos futebol de mesa sempre que eu ia a sua casa. Meu tio não teve filhos, a minha tia morreu ainda nova, ele não quis casar novamente. Os seus botões de futebol de mesa eram a coisa mais incrível do mundo. Dizia que me levaria a Paris, que eu entenderia o século XIX. Mas não era só isso: eu encontraria a poesia em todas as esquinas. Às vezes, não entendia o que ele falava. Eu me concentrava mais no jogo, ganhava todas as partidas. O tio não se importava, ele ria muito quando eu dizia que ele precisava treinar mais. Depois de cada partida, ele guardava cuidadosamente os botões como troféus recebidos por cada vitória na vida.

Ele morava em uma rua muito agradável, eu tinha muito amigos ali. Minha mãe não queria morar perto do irmão, dizia que ele era uma pessoa muito generosa, não merecia esse destino.

Ainda não falei do acidente. Estavam juntos meu pai, minha mãe, minha tia e meu tio. Meu pai e minha tia não conseguiram sobreviver.

Mais do que os botões, a foto me deixou mais emocionado. Era uma foto que ele guardara há muito anos. Foi tirada por minha mãe. Eu segurava um figo, era o único maduro daquela árvore que estava logo atrás de nós dois. Eu não me lembrava mais da foto, só do momento em que o tio falou para eu pegar o figo. A fruta mais saborosa que comi até hoje; não consigo comê-la cristalizada ou em caldas.

Paris não estava em meus planos, mas entendi que já era hora de reformular meus projetos. O livro que eu tanto queria fazer tomou vida. Sim, eu irei ao encontro dessa Cidade. A felicidade daqueles dias de jogos de futebol de botão tomou conta da minha alma. Não pensei em mais nada, arrumei as malas e parti.

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