Era ainda jovem demais para saber
que a memória do coração elimina as más lembranças
e enaltece as boas, e que graças a esse artifício
conseguimos suportar o passado.

Gabriel García Márquez, O amor nos tempos do cólera

As sombras das árvores serviam de refresco. E também para desenhar um mar de cores além das pálpebras fechadas. O inverno tinha feito a maioria das folhas caírem, deixando as figueiras nuas. Mas nem por isso desprotegidas. Ao menos não àquela hora.

Marina sentia o sol do meio-dia arder-lhe a face ao mesmo tempo em que a brisa lhe refrescava a pele. Como uma lembrança dos últimos dias em que passava no sítio dos avós. Partiria no dia seguinte, subindo em um trem que a quebraria ao meio. Mas a vida era assim. Você se quebra, se conserta. Preenche um vazio recém descoberto por algo que logo vai lhe deixar um novo vazio.

As memórias de Marina estavam todas gravadas num diário antigo, o qual ela mantinha desde que descobrira como aqueles papéis poderiam ser o mais valioso mantenedor de segredos. Algumas páginas estavam marcadas com papéis adesivos. O dia em que viu escondida os pais dançando na sala era uma dessas páginas marcadas. O abraço deles era tão amplo, mas também tão íntimo, que pela primeira vez Marina entendeu o real significado da palavra amor. Os outros momentos dos pais ela preferia não escrever em seu diário. Era melhor. Deixava para a memória desfigurar qualquer feição desagradável ou qualquer arroxeado que o corpo cuidava de eliminar com os dias. Não havia motivos para destruir um significado que ela queria muito guardar protegido.

Mas com os avós era diferente. Desde que tinha chegado no sítio, seu diário se tornou um companheiro constante. A cada cheiro novo, a cada cantarolar no batente da janela com a aurora ou com o início da noite, antes de uma chuva, até mesmo quando o leite já veio morno do curral… Tudo isso estava naquelas páginas. A diferença era que não havia marcadores. Não precisava. Nem quando ela conheceu o menino alto demais para a idade e tão quieto que o silêncio era preenchido pela brisa balançando as folhas, Marina colocou marcador na página. Algumas maravilhas não precisam ser tão enaltecidas. Algumas memórias, mesmo sendo preto no branco, em forma de palavras, não devem ser colocadas em destaque. Ela sabia disso, agora.

Marina respirou fundo e o cheiro das folhas das figueiras e da grama ressecada fez com que seus olhos se enchessem de lágrimas. Ainda não estava dentro daquele trem que a levaria para a cidade, mas a alma já se perdia nos trilhos.

— Trouxe o creme de leite — o garoto falou, interrompendo a tristeza e as luzes que invadiam as pálpebras de Marina. Ela o olhou e sorriu. Esqueceu-se do frescor do vento, absorvendo apenas o ar morno que o sol aquecia até lhe alcançar a alma.

— E vovó fez doce ontem — Marina replicou, mostrando a vasilha que estava ao seu lado.

— Eu sei. Consegui sentir o cheiro lá de casa.

— Mentiroso.

Ele apenas balançou os ombros e sorriu, enquanto se sentava. Depois beijou Marina como se não a tivesse visto poucas horas atrás, quando buscou leite no sítio dos avós dela.

— Não sei por que vocês da cidade gostam de comer esse doce com creme de leite. É heresia, sabe?

— Não é heresia quando se tem bom gosto.

Marina despejou uma boa quantidade do creme sobre o doce de figo da avó. Fingiu não notar a expressão desgostosa de Diego (a qual não se parecia em nada com as que já tinha visto no rosto do pai) enquanto abocanhava um figo inteirinho. Aquele era seu doce preferido e a avó tinha feito no dia anterior justamente para que ela pudesse levar uma boa quantidade para casa. Olhando para o creme caseiro da mãe de Diego, decidiu que precisaria também daquilo. Muito. Os olhos arderam novamente. Como era possível sentir-se correndo nos trilhos quando ainda estava sob a sombra da figueira desfolhada?

— Você vai se despedir de mim amanhã? — Marina perguntou quando nem o som da brisa e muito menos o calor que não vinha mais do sol conseguiam preencher ou suavizar o silêncio entre ela e Diego.

— Claro. Preciso entender o motivo de você gostar tanto de viajar naquela maria-fumaça velha. Temos rodoviária, sabe?

— Eu gosto de trens.

— Por quê? Eles são tão lentos e barulhentos…

— Me lembra meus pais.

— Você sente falta deles?

Marina deu de ombros.

— Quando estou num trem. Ou quando ouço Can’t help faling in love. Do Elvis — explicou. — Já vi meus pais dançando essa música.

— Sinto falta do meu pai quando solto pipa. Ou quando vou na cidade. E também quando vou tentar consertar qualquer coisa lá em casa. Ele sempre se sentava na ponta da mesa, mesmo quando era só ele comendo. Na verdade… — Diego riu.

— Você sente falta dele o tempo todo.

Havia dor nas palavras de Marina. Diego inclinou-se bem ligeiramente, os olhos do menino que cresceu mais entre bichos do que entre gente tentando descobrir por que havia aquela nuvem nos olhos tão azuis da neta do sítio vizinho. Mas Marina sempre lhe sorria nessas tentativas e saía correndo, rindo, provocando. E gritava já longe que ele nunca a alcançaria.

Desta vez, quando ela fez a mesma coisa e gritou metros à frente, Diego acreditou nas palavras dela. Ainda assim correu como o vento. Talvez, mesmo quando Marina já estivesse no trem, ele a alcançaria. Aí ela não precisaria mais ficar se lembrando dele só quando comesse os doces da avó regado do creme de leite que ele lhe daria de viagem.

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