ilustração montagem do autor com o quadro do artista visual Glauco Pinto de Moraes.

 

O nosso  encontro  se  dava  na  estação  de  trem  da  Luz,  na  cidade  de  São  Paulo. A ferrovia construída em 1865 de cabo a rabo por uma companhia inglesa, ligava Jundiaí a Santos com a finalidade exclusiva de escoar a safra de café do interior do estado. Os trens de início só paravam na Estação da luz para embarque e desembarque de carga, inclusive esta  sofreu  várias  modificações  ao longo  do  tempo,  a  principal  delas  foi  em  1946 devido a um  grande  incêndio,  essa  reconstrução  deixou  a  estação  com  a  cara  que  tem  hoje.

Como de costume,  eu  chegava  cedo para  observar  de  cima  da  passarela  o  movimento  das  pessoas  e  dos  trens.  Mas  isso  já  faz  um  bom  tempo  e  a  memória,  numa  das  minhas  tortuosas  concepções,  funciona  exatamente como  um trem,  carrega  em seus vagões  os  fragmentos  compactos  daquilo  que  costumamos  chamar  de  lembranças.  Como  um  conjunto  de  composições  férreas,  encadeamos  a  sequência  de  acordo  com  os  engates emocionais  que  estejam  à  disposição  no  momento.

Muitas  vezes  alguns  desses  engates  sofrem  modificações  através  dos  anos,  por  isso  trocamos  datas  e  misturamos  no  tempo  os  acontecimentos.  Quanto  aos  vagões,  o  ideal  seria  trocar  uma  peça  avariada  por  outra  igual  ou similar  e  que  os  consertos  fossem  mais  precisos,  mas  a  realidade  é  outra.

Muitas   vezes  marretamos  algumas  lembranças  para  que  caibam  no  lugar  desejado  como  se  faz  com  um  parafuso  espanado,  inclusive  lançamos  mão de  gambiarras,  que  no  caso  das  lembranças,  vão  desde  acréscimos  duvidosos  a  pequenas  mentiras  ou  uma  simples  omissão  nos  fatos.

Nos  textos  acontecem  metamorfose  semelhante,  uma  vírgula  a  mais  aqui,  uma  pintura  com  novas  cores,  fora  acrescentar  ou  retirar  mais  carga  de  um  mesmo  vagão  quando  contamos  alguma  história.  Peço  desculpas antecipadamente,  pois  no  caso  deste  texto  em  específico,  além  dos  engates  soltos,  alguns  vagões  estão  com  suas  portas  emperradas,  outros  já  foram  esquecidos  em  algum  desvio  do  percurso.

Era  apenas  mais  uma  viagem  para  Paranapiacaba*  com  um  pequeno  grupo  de  amigos,  os  trens  não  eram  lá  essas  coisas  e  nem  os  horários  tinham  a  pontualidade  inglesa.  Íamos  misturados  e  ensardinhados  com  o  pessoal, que  na  sua  maioria  iria  desembarcar  nas  cidades  antes  do  final  da  linha  deste  trem,  alguns  voltando  para  casa  outros  indo  trabalhar  ou  estudar.

Na viagem,  que  achávamos  monótona,  as  conversas  iam  sendo  jogadas  fora  no  ritmo  do  barulho  do  trem.  Não  recordo  o  tempo  que  demorava  para  chegar,  mas  a  chegada,  ah  essa  era  sempre  um  momento  especial,  a  da entrada  em  outro  tempo.

Se  a  estação  da  Luz  tinha  um  estilo  neoclássico  vitoriano,  a  de  Paranapiacaba  na  sua  simplicidade,  tinha  uma  pequena  torre  com  um  relógio  que  apelidamos  de  Pequeno  Ben,  neste  caso,  um  inglês  legítimo,  tanto  na  origem quanto  no  controle  dos  horários  de  saída  que  geralmente  eram  seguidos  à  risca.  Se  o  horário  de  partida  era  garantido,  o  sabe  se  lá  o  que  iria  acontecer,  ficava  entre  as  estações  até  São  Paulo.

A primeira  coisa  que  fazíamos  ao  chegar  na  vila  geralmente  era  tomar  o  rumo  do  caminho  do  mirante,  mas  algumas  vezes  ficávamos  observando  o  tempo  na  passarela  que  ligava  um  lado  da  vila  ao  outro,  pois  essa  era cortada  pela  linha  do  trem.

Logo  após  a  estação  tinha  uma  curva  onde  os  trens  sumiam  de  vista  e  o  curioso  é  que  nunca  perguntamos  para  onde  eles  iam,  antigamente,  parece  que  desciam  a  serra  para  Santos.

Paranapiacaba  em  tupi  significa,  lugar  de  onde  se  vê  o  mar.  Quando  não  dava  para  ver,  era  sinal  de  que  uma  hora  ou  outra  a  cidadezinha  ia  ganhar  seus  ares  londrinos,  que  na  época  era  o  que  procurávamos  por  lá, principalmente  para  mostrar  para  quem  não  conhecia,  o  fog  paulista,  se  é  que  tinha  alguma  semelhança  com  o  famoso  fog  de  Londres.  Na  verdade,  o  que  sempre  acontecia  em  Paranapiacaba  era  nada  mais,  nada  menos que  banais  nevoeiros,  tão  comuns  na  Serra  do  Mar.  Mas  essa  era  a  mágica,  a  natureza  somada  ao  sotaque  inglês  das  construções  da  vila  que  nos  encantava,  e  os  momentos  em  que  de  um  segundo  a  outro,  não  se  enxergava um palmo a frente  do  nariz.

Neste  dia  fomos  primeiro  na  passarela.  Arrisquei  perguntar:  ‒  Harry,  será  que  a  neblina  será  espessa  hoje?  ‒  Espessa  nada  Joe!  Você  sempre  se  refere  a  neblina  como  aquela  das  histórias  em  quadrinhos,  que  de  tão  espessa, o  personagem  corta  a  neblina  com  uma  faca,  mas  essa  aqui  é  vaporosa,  fina  e  ainda  por  cima  molhada.  Repliquei:  ‒  Você  quer  dizer  úmida  Harry?  Mike  Brown  quase  que  entediado  emitia  esse  comentário:  ‒  A  velha discussão,  neblina  ou  névoa.  Enquanto  David  Ohara  começava  a  dar  o  seu  parecer  técnico:  ‒  A  neblina,  mais  vaporosa,  dá  uma  visibilidade  maior  enquanto  a  névoa  é  mais  espessa,  chegando  ao  ponto  de  obstruir  toda  a visão,  mas  as  duas  tem  a  mesma  formação  que  é…

Desculpem,  interrompi  o  relato  técnico  do  David  Ohara,  foi  uma  falha  em  não  me  apresentar  e  nem  ao  grupo.  Nós,  quando  estávamos  juntos,  fazíamos  essa  brincadeira  de  usar  nomes,  supostamente  de  americanos  e brincar  com  a  entonação  e  sotaque,  mesmo  falando  em  português,  algo  como  personagens  de  um  faroeste  tupiquiniquim,  coisas  da  televisão  da  época  e  suas  dublagens  estranhas.

Como vocês  puderam deduzir,  eu  era  o  Joe  MacGregor.  Se  o  Harry  estivesse  aqui,  agora,  ele  diria,  Hey  Joe,  meu  amigo  sempre  disponível  para  qualquer  aventura!  O  Harry  Mackenzie  fazia  o  tipo  do  sujeito  esperto,  safo como  diria  hoje  um  carioca  como  o  Mike  Brown.  Este  por  sua  vez  era  o  descolado,  mais  abonado  na  época,  trazia  novidades  ao  grupo  como  posteriormente  traria  em  primeira  mão  o  tocador  de  CD  e  o  som  de  Keith Jarret,especificamente o  Nude  Ants  com  o  incrível  sax  de  Jan  Garbarek.  E  finalmente  o  David  Ohara  ganhou  este  nome  por  aparentemente  ser  o  mais  pé  no  chão,  quase  um  xerife  do  bom  senso  e  do  humor  crítico.

O dia  prometia,  resolvemos  checar  o  mirante,  estava  tudo  encoberto,  não  deu  nem  para  chegar  no  topo.  Na  verdade  a  neblina  estava  misturada  nas  duas  condições,  espessa  e  vaporosa.  David  Ohara  nos  aconselhou  a  voltar, pois  lá  não  havia  nenhuma  proteção,  era  como  andar  à  beira  do  precipício  de  olhos  vendados.  Descíamos  devagar  e  o  nosso  fog  parecia  um  cão,  corria  vaporoso  a  nossa  frente  e  olhava  para  trás  esperando  a  massa  espessa achegar  nas  nossas  costas  e  seguia  em  frente  mais  um  trecho.

Se  subimos  com  calor,  na  volta  já  estávamos  devidamente  encapotados.  No  meio  do  caminho,  como  era  normal  acontecer,  a  coisa  toda  se  dissipou  e  voltamos  às camisetas  e  pasmem,  sob  um  sol  de  rachar.  Descemos  até  a vila  e  atravessamos  a  passarela  para  o  outro  lado.  Duros,  a  opção  era  o  boteco  do  lado  esquerdo  de  quem  chegava  na  cidade,  não  havia  naquele  tempo  a  infra  que  tem  hoje  em  dia,  do  outro  lado  tinha  uma  espécie  de lanchonete  e  padaria,  mas  no  bar  era  mais  barato.

Como era  dia  de semana,  do  jeito  que  nos  olhavam  a  gente  tinha  a  impressão  de  que  nos  achavam  vagabundos  legítimos,  porém  tínhamos  aquela  boa  aparência  surrada  da  classe  média,  jeans,  camiseta,  sapato  com  sola  de pneu  e  casacos  forrados  com  gorro,  as  vezes  gorros  extras,  cachecóis  e  extravagantes  luvas  coloridas  de  lã  adquiridas  em  uma  viagem  a  Campos  do  Jordão.

Um dos vagões  que estão  emperrados  é  esse,  não  saberia  descrever  mais  do  que  isso  quanto  aos  nossos  trajes,  embora  tenha  a  sensação  de  que  cada  um  tinha  um  estilo  diferente,  principalmente  o  Mike  Brown  com  suas luvas  de  couro.

De  fato,  ainda  ninguém  trabalhava,  enquanto  eu  e  o  Harry  estávamos  no  limbo  após  o  colegial,  o  ensino  médio  da  época,  o  Mike  e  o  David  cursavam  a  mesma  faculdade.  Depois  de  beliscar  algo  e  bebericar,  voltamos  ao outro  lado  para  explorar  os  vagões  que  estavam  abandonados  no  meio  do  mato  ao  largo  da  linha,  numa  parte  mais  baixa,  uma  espécie  de  desvio.

Observava  as  pesadas  peças  de  ferro,  desgastadas  e  enferrujadas  que  me  lembravam  muito  os  quadros  de  um  pintor  brasileiro  que  agora  não  recordo  o  nome**.  O  David  Ohara  cobrava  com  razão:  ‒  Joe,  você  é  foda, sempre  fala  do  tal  artista  que  pinta  detalhes  de  trens,  alguns  enferrujados  como  esses  e  nunca  sabe  dizer  o  nome  dele.!  Memória  para  nomes  nunca  foi  o  meu  forte,  não  é  agora  que  irá  surgir  o  tal  do  nome,  mas  prometo pesquisar  na  internet  para  prestar  uma  homenagem  a  esse  artista  que  sempre  me  proporcionou  essa  grata  lembrança.

Além  da  cervejinha  no  bar,  na  subida  para  o  mirante  sempre  rolava  uma  brisa  a  mais,  outro  elo  em  comum  na época, descoberto por  acaso,  pois  no  colegial  cada  um  foi  para  um  lado  e  o  reencontro  no  início  dos  anos  80.  Dentro  do vagão  abandonado  a  temperatura  já  tinha  começado  a  baixar,  lá  mesmo  nos  despedimos  do  David  e  do  Mike  que  tinham  que  ir  para  a  faculdade.  Uma  ou  duas  horas  depois  eu  e  o  Harry  apertamos  o  passo  para  alentar  uma nova  brisa  e  bem  perto  da  subida  o  fog  já  estendia  seus  braços.

Resolvemos  o  assunto  com  certa  dificuldade  devido  a  umidade  e  fomos  para  a  passarela,  de  olho  no  Pequeno  Ben,  para  não  perder  o  último  trem  que  saia  no  início  da  noite.  O  Harry  teve  uma  ideia  e  disse:  ‒  Joe,  nós  ainda não  compramos  as  passagens,  vamos  ficar  aqui,  o  que  acha?  Antes  que  eu  pudesse  raciocinar,  devido  a  névoa,  já  não  conseguia  ver  mais  nada,  então  respondi:  ‒  Harry  é  melhor  a  gente  ir!  Harry?  Meu,  responde,  eu  sei  que você  está  aí!  Ficar  mudo  quando  não  se  tinha  mais  visão  era  uma  brincadeira  que  fazíamos  sempre,  mas  agora  não  tinha  sentido.

Não  precisa  ser  adivinho  para  saber  o  que  aconteceu.  O  último  trem  foi  embora.

Quando  a  neblina  deu  uma  trégua,  o  Harry  já  estava  do  outro  lado  da  passarela  e  vinha  correndo  perguntando,  cara  onde  você  estava?  ‒  Aqui  mesmo,  plantado  neste  lugar!  Retruquei  nervoso.  Ouvimos  o  sinal  da  partida  e  o barulho  do  trem,  era  tarde  demais.  Harry  veio  com  um  papo  furado  dizendo:  ‒  Te  procurei  em  todo  lugar,  fui  até  na  parte  de  cima  da  vila,  sabe  que  não  gosto  de  ir  lá.  ‒  Harry,  eu  nunca  vou  te  entender,  você  é  todo  místico, acredita  em  disco  voador  e  tem  medo  de  cemitério?  ‒  Joe,  uma  coisa  é  uma  coisa,  outra  coisa  é  outra  coisa!

Aí  endureci  o  papo:  ‒  Tá,  pode  ser,  mas  vamos  deixar  dessa  lenga  lenga,  você  me  sacaneou,  perguntou  o  que  eu  achava  de  ficar  a  noite  aqui  e  depois  ficou  quieto  encoberto  pela  neblina,  que  encenação  é  essa  agora? Igualmente  com  dureza  ele  me  respondeu:  ‒  Do  que  você  está  falando?  Que  neblina  e  que  encenação  o  cacete!  Eu  estava  na  frente  atravessando  a  passarela,  logo  que  eu  perguntei  e  abaixei  para  amarrar  o  sapato,  você  que estava  logo  atrás,  sumiu!  Achei  que  você  tinha  passado  por  mim  enquanto  eu  estava  de  cabeça  baixa  e  ido  para  o  bar,  subi  até  lá  para  conferir.

E  ele  continuou:  ‒  Nem  sombra,  resolvi  seguir  em  frente,  sei  que  você  e  seus  amigos  gostavam  de  pular  o  muro  e  desenhar  no  cemitério  do  Araça  de  madrugada,  pensei,  aquele  maluco  do  Joe,  resolveu  ficar  e  foi  explorar  o cemitério  local.  Apesar  das  portas  sempre  ficarem  abertas  por  aqui,  quando  cheguei  lá  não  tive  coragem  de  entrar.

‒  Ah  tá,  bem  cagão  você  Harry!  E  o  fog?  ‒  Que  fog  Joe,  tá  louco?  A  neblina  cacete?  ‒  A  espessa  ou  a  vaporosa?  ‒  Harry,  tá  me  sacaneando?  ‒  Tô,  claro  que  tô  Joe!  Porque  você  que  está  de  sacanagem  comigo,  se  tivesse neblina  ESPESSA  ou  VAPOROSA,  nessa  hora  ele  aumentou  o  tom  da  voz  apontando  para  cima:  ‒  Como  eu  ia  chegar  até  lá?  Eu  falei:  ‒  Meu,  alguma  coisa  está  acontecendo,  sério,  eu  estava  aqui  e…

Enevoou  tudo:  ‒  Harry?  HARRY!  Pô  meu,  de  novo  não!  ‒  De  novo  o  quê  Joe,  você  está  maluco?  Quando  ele  respondeu  já  não  havia  mais  neblina,  aí  eu  disse:  ‒  Harry  vamos  subir  e  ficar  lá  na  igrejinha?  ‒  Ah,  o  corajoso  Joe agora  quer  proteção  divina?  ‒  Sei  lá,  uma  proteção  dessas  não  caía  mal  agora  não,  a  coisa  está  muito  estranha,  respondi.

Pelo  tamanho,  talvez  fosse  apenas  uma  capelinha,  esse  é  outro  vagão  que  sofreu  uma  manutenção  considerável,  o  que  eu  tenho  a  mão  era  que  parecia  ser  igual  à  da  música:  ‒  Capelinha  de  melão,  é  de  São  João,  é  de  cravo é  de rosa  é  de  manjericão!  Até  que  não  desafinei,  não  é?

Mas voltando  ao  assunto,  tinha  o  chão  em  volta  inclinado  e  com  as  bordas  arredondadas  e  acabava  num  jardinzinho  com  rosas,  mas  de  qualquer  maneira  não  era  possível  ficar  lá,  pintado  com  tinta  sintética  branca  e brilhante  era  escorregadio  e  o  Harry  segurando‐se  como  podia,  falava  como  se  estivesse  pregando:  ‒  Homem  de  pouca  fé!

Enquanto  eu  escorregava  de  encontro  aos  espinhos.  Em  seguida  levantei  como  pude  e  falei:  ‒  Pra  mim  chega!  Vou  ficar  nos  vagões  enferrujados,  pelo  menos  lá  não  tem  espinhos.  Desci  primeiro  e  fiquei  aguardando  no  meio da  passarela.  Não  havia  viva  alma  e  a  luz  do  poste  tentava  em  vão  cruzar  a  neblina,  mas  o  máximo  que  conseguia  era  formar  um  halo  fosco  e  pulsante  em  volta  da  parte  luminosa.

Mergulhado  novamente  na  branca  escuridão  eu  chamava:  ‒  HARRY!  HARRY!  Ele  me  deu  um tapa  na  minha  cabeça:  ‒  Quer  acordar  a  cidade  toda,  eu  estou  aqui  atrás  de  você!  Tentei  falar:  ‒  A  neblina  espessa…  ‒  Lá  vem você  de  novo  Joe  com  essa  história!  Continuei  em  frente  devagar  e  com  muito  cuidado  segurando  na  murada  até  chegar  escada.  Quando  cheguei  no  final,  abriu  uma  brecha  na  névoa  e  desci  rapidinho  os  degraus.  Harry resmungou:  ‒  Até  que  enfim,  você  parecia  uma  lesma!

Resolvemos  ficar  no  vagão  do  meio,  era  o  que  tinha  os  assentos  em  melhor  estado  de  conservação,  por  algum  motivo,  os  cupins  não  haviam  atacado  alguns  deles,  porém  não  havia  nenhum  vidro  intacto,  e  as  portas  também não  fechavam,  mas  era  bom  poder  sentar  e  esticar  as  pernas.  Quem  sabe  esquecer  o  frio  nos  pés  e  dar  um  cochilo.  Foi  num  momento  desses  que  o  Harry  ouviu  um  barulho  lá  fora.

Me cutucou:  ‒  Joe,  você  está  ouvindo?  Disse  o  Harry  bem,  bem  baixinho  mesmo,  se  fosse  descrever  o  tom  dele  eu  diria,  vaporoso  e  úmido.  E  ele  continuava  a  gesticular  para  que  eu  tentasse  ouvir,  fazendo  sinal  ao  mesmo tempo  para  eu  ficar  em  silêncio.  Eu  sou  meio  desorientado  na  audição,  para  mim  era  um  silêncio  só  até  que  uma  voz  desconhecida  falou:  ‒  Seu  amigo  tem  ouvido  bom,  mas  não  tão  bom  quanto  o  meu!  ‒  Quem  está  aí?  Eu perguntei  assustado.  ‒  Eu  que  devia  perguntar  isso,  quem  são  vocês,  eu  sou  o  guarda  noturno  da  estação!

O Harry  que  aparentava  não  ter  mais  medo,  perguntou  curioso:  ‒  Eu  sou  o  Harry  e  você?   ‒  Ah,  me  chamam  de  Taturana  devido  ao  meu  ouvido  apurado,  posso  ouvir  o  trem  a  quilômetros  de  distância  e  também  consigo dizer  quantos  e  quais  passarinhos  estão  cantando  numa  determinada  região,  são  todos  meus  amigos,  principalmente  os  noturnos,  gosto  de  cuidar  das  corujas.

‒  Ter  uma  boa  audição  não  explica  o  porquê  de  chamarem  você  de  Taturana!  Replicou  o  Harry.  O  Taturana  explicou:  ‒  Ah,  tem  razão,  é  que  quando  eu  ouço  o  trem  lá  longe  me  contorço  todo.  Acharam  que  nessa  hora  eu parecia  uma  taturana.  Sabe  quando  a  gente  cutuca  ela,  aí  alguém  me  chamou  assim  uma  só  vez  e  pegou.  ‒  Prazer  Taturana,  eu  sou  o  Joe!

‒  O  prazer  é  todo  meu,  o  papo  está  bom  criançada,  mas  vocês  não  podem  ficar  aqui,  é  patrimônio  tombado.  O  Harry  abriu  os  braços  olhando  para  os  lados  e  disse:  ‒  Puxa,  assim  caindo  aos  pedaços,  tombado  literalmente!  ‒ Triste  não  é?  Mas  infelizmente  como  muita  coisa  por  aí,  um  dia  darão  mais  valor,  tenho  certeza  disso!  Afirmou  com  orgulho  o  Taturana  continuando  em  tom  de  mando:  ‒  Até  lá,  levantem  as  vossas  bundas  daí  e  piquem  a mula!  ‒  E  para  onde  vamos?  ‒  Aí  é  com  vocês,  perderam  o  trem? ‒  O  que  você  acha?  ‒  Eu  não  sou  pago  para  achar  nada,  mas  aqui  vocês  não  podem  ficar,  não  devo  deixar  que  vagabundos  fiquem  deitados  por  aí,  se  me permitem  utilizar  essa  palavra.

Permitimos  e  saímos  andando  quietos.  Quando  chegamos  na  passarela  eu  disse:  ‒  Vamos  ficar  nos  degraus  do  bar,  o  que  acha  Harry?  Ele  assentiu  com  a  cabeça,  estava  cansado  e  com  sono.  Logo  que  sentamos  encostados na  porta,  baixou  a  neblina  espessa.

Passaram  apenas  uns  minutos  e  deu  para  ouvir  uma  faca  cortando  a  neblina,  em  seguida  foi  sacado  um  pedaço  quadrado  da  mesma  e  nesse  buraco  o  Taturana  colocou  a  cabeça.  O  Harry  desta  vez,  além  de  ver  a  névoa espessa,  viu  o  buraco  com  o  Taturana  e  antes  mesmo  dele  falar:  ‒  Aqui  também  vocês  não  podem  ficar  esparramados  assim!  Num  salto  só  ficamos  em  pé.  Depois  de  uns  dois  minutos  que  ele  se  foi  o  Harry  cochichou:  ‒  Cara e  agora?  Não  é  que o  sujeito  ouve  bem  mesmo,  não  é  mentira  não,  vamos  deitar  no…

Lá  de  baixo  o  Taturana  gritou:  ‒  Eu  ouvi!  Não  deita  que  não  pode!  Usamos  mímica,  mas  parece  que  ele  ouvia  os  nossos  passos.  Quem  sabe  essa  coisa  com  os  pássaros  tinha  sua  contrapartida,  Harry  arriscou  dizer  apontando para  uns  olhos  brilhantes  numa  árvore:  ‒  Que  passos  que  nada  Joe,  com  certeza  fomos  denunciados  pelas  corujas.

Ao  longo  da  noite,  o  mesmo  se deu  em  todos os lugares,  ao  lado  da  igrejinha,  no  muro  largo  da  farmácia  e  até  na  varandinha  da  casa  branca  ao  lado  do  cemitério.  Nesta  última  o  Taturana  explicou  que  o  turno dele  já  estava para  acabar  e  ele  ia  se  recolher  e  se  despediu  dizendo:  ‒  Tenham  um  bom  dia  e  desculpem  qualquer  coisa.  Meninos  a  minha  hora  já  chegou,  mas  atenção,  a  de  vocês  está  chegando  ligeira!  E  entrou  no  cemitério  se contorcendo  todo.

Nem deu tempo de olharmos  um para o outro,  saímos  correndo,  dois  motivos  impeliram  a  nossa  imediata  reação,  se  a  história  toda  fosse  verdade,  o  trem  estava  para  chegar.  E  o  que  disse  da  nossa  hora  impressionou  Harry: ‒  Você  viu  aquilo?  Isso  é  coisa  para  se  dizer?  A  hora  de  vocês  está  chegando  ligeira!  Não  aguentei  e  ri  dizendo:  ‒  Harry,  ele  estava  falando  do  trem  que  deve  estar  chegando,  ligeiro!  Dito  e  feito,  foi  só  descer  e  virar  a  esquina e  constatar  o  movimento  na  vila,  as  pessoas  estavam  na  rua,  no  bar,  na  farmácia,  na  estação,  enfim,  em  toda  parte,  era  muito  cedo,  ainda  sem  sol,  mas  um  lugar  que  adormece  cedo,  desperta  cedo  também,  eu  pensei  isso sorrindo  ao  ver  o  guichê  que  vendia  os  bilhetes  aberto.

Ao  comprar  as  passagens,  resolvi  comentar:  ‒  O  guarda  noturno  da  estação  é  uma  figura,  hein?  O  senhor  parou  de  fazer  o  troco  e  retrucou:  ‒  Que  guarda  noturno?  Também  respondi  com  outra  pergunta:  ‒  O  Taturana,  e que  ouvido  ele  tem,  hein?  ‒  Desculpe  moço,  mas  o  Taturana  morreu  faz  muito  tempo,  em  1915  ou  16  se  não  me  engano,  no  mais,  nem  sei  se  ele  existiu  de  fato  ou  é  apenas  história  para  boi  dormir.  O  Harry,  com  sono  e ainda  impressionado  resmungou:  ‒  Pode  ser  até  história  pra  boi,  mas  para  DORMIR…  DORMIR  o  senhor  pode  ter  certeza  de  que  não  é!

Notas:

*Neste  texto  misturou‐se  a  realidade  do  início  dos  anos  80  com  a  ficção.  Para  quem  quiser  ir  de  trem  a  moda  antiga,  existe  um  Expresso  Turístico  que  vai  quase  que  direto  para  Paranapiacaba,  consulte  o  site  da  CPTM, http://www.cptm.sp.gov.br,  hoje  em  dia,  a  vila,  local  histórico,  tem  uma  estrutura  muito  boa  para  o  ecoturismo.  Vários  sites  indicam  as  outras  formas  de  acesso  à  cidade  entre  outras  informações  para  que  você  desfrute  com segurança  e  de  forma  ecológica  a  região,  inclusive  com  serviço  de  guias  entre  outros.

**Em  tempo:  O artista  brasileiro  era  o  Glauco  Pinto  de  Moraes  (Passo  Fundo,  RS,  1928  –  São  Paulo,  SP,  1990).  Para  mais  informações,  consultar  on‐line  a  Enciclopédia  do  Itaú  Cultural.  A pintura  de  Glauco  Pinto  de  Moraes  que utilizei como base da  ilustração deste conto é  de  1978,  óleo  sobre  tela  –  1,5  x  2  m.  Para  variar,  não  recordo  quando  e  nem  que  obras  eu  vi,  creio  ter  sido  na  Bienal  de  1979  ou  se  vi  em  algum  catálogo  ou livro  na  época,  mas  os  engates ficaram  na  memória num vagão que nunca enferrujou.

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