Aos seis anos, eu conseguia ver o vapor da locomotiva antes dela aparecer depois da curva. Ela vinha margeando o rio e entrava em Maresias, subindo o morro, mostrando aos passageiros a visão da praia lá embaixo.

Era comum eu correr até a janela no primeiro apito que ouvia.

– Esse daí vai embora na primeira oportunidade – dizia mamãe.

– Tu toma cuidado com o que deseja, mulher – dizia papai.

– Ele é igualzinho a ti, Tobia. Tu nunca demora, e eu nunca sei se vai voltar.

Papai era marinheiro. Eu achava que era o homem mais bonito do mundo, quando chegava com aquele uniforme branco e o quepe.

– A terra me enjoa, Timóteo – dizia ele, o cigarro sem filtro na boca, a tatuagem de âncora no braço forte. – Ela não balança nada. Essa vida firme, sem tempestade… isso não é pra mim.

Ele também ficava muito na janela, quando vinha. Lá de casa eram quinze minutos até o porto, e quando o Stella apitava três vezes, ele sabia que era hora de ir. Pegava o mochilão de lona, beijava minha mãe e dizia:

– Eu volto.

Ela ficava chorando em silêncio, e quando o navio sumia no horizonte, ela quebrava uns três ou quatro pratos no chão. Depois vinha me abraçar e me negava ao mar.

– Você é melhor que ele, viu, Timóteo? Você é de terra.

E eu era de terra mesmo. Andara de navio uma vez com ele, e tudo o que eu sabia fazer era vomitar.

– Esse não é de mar – diziam os outros marinheiros, rindo. Meu pai fazia que sim.

– Não tem problema, Timóteo – dizia meu pai, ao me colocar para dormir naquela noite. – Nós, do mar, não somos felizes. A felicidade está na terra. Fique no chão, plante, colha, faça uma família bonita e fique com eles até o fim.

– O senhor não vai ficar com a gente até o fim?

– Não sei – disse ele, acendendo o cigarro. – Minha mãe sempre dizia que eu vou morrer no mar…

*

Eu tinha oito anos quando o trem encostou e minha mãe quebrou a caneca de porcelana do papai e começou a chorar. Pouco tempo depois chegou a carta, dizendo que o Stella tinha afundado depois de uma tempestade perto da África do Sul.

Ela chorou e chorou por três dias, mas eu não. Eu já sabia que papai iria morrer no mar, ele havia me dito.

*

Quando mamãe ficou melhor, recebeu uma carta da Marinha dizendo que haveria uma indenização e a pensão dele para mim até os dezoito. As coisas foram se aclarando, se acalmando.

Com um mês, enterramos o caixão vazio, e papai passou a ser só uma lembrança.

Mamãe morreu depois, de câncer. Eu já tinha dezessete, comecei a aprender a pilotar os novos trens a diesel com o Joaquim, meu padrasto. Aos dezoito já conseguia levar sozinho uma composição.

*

Aos vinte e cinco eu ainda morava em Maresias. Num fim de tarde, quando levava o trem para o galpão, vi meu pai acenar para mim da janela de minha antiga casa, e mamãe estava com ele. Na mesma hora, um navio apitou três vezes, e eu respondi com o grito forte da minha máquina.

Chorei por meu pai e por minha mãe pela primeira vez. Jurei que, se um dia tivesse uma família, jamais a deixaria. Por nada.

E jurei que não morreria no mar.

Eu era de terra.

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