Eu senti o cheiro antes de vê-lo. Respirei fundo, como uma viciada em drogas, e meus lábios tremeram num sorriso doentio enquanto o estômago embrulhava. Engoli a seco. Controle. Eu precisava de controle.

Encostei o ombro esquerdo na parede para o caso do meu corpo se esquecer como era se equilibrar e com a mão direita busquei o revólver. O metal estava frio contra minha pele desde o momento em que o escondi sob a camiseta, bem firme no cós da calça jeans sustentada por um cinto velho. Eu havia feito um furo a mais nele. Tinha emagrecido muito e rapidamente no último ano. Era engraçado como até tinha atraído alguns olhares invejosos de algumas mulheres e outros de cobiça, tanto de homens como de mulheres.

O mundo era muito estranho. Porque eu daria muitas coisas para não ter emagrecido de uma maneira tão violenta. Um quilo por um tapa. Um centímetro por um soco. Uma maldita numeração por um chute. Até que eu estava da maneira que ele tinha desejado: fraca demais para lutar. Mas quem disse que eu precisava de músculos para dar a ele o que ele merecia?

Apertei a empunhadura com a mão trêmula. Respirei fundo novamente e o cheiro familiar encheu meus pulmões. Desta vez não sorri. Nem meu estômago embrulhou. Senti a mão firme envolver o revólver. Ouvi os passos dele; sapatos novos que se arrastavam pelo chão impecavelmente limpo. Ele resmungou algo que não entendi, porém não me importei.

– Joana – ele chamou, e a voz autoritária fez com que minhas pernas se movessem sozinhas. Segurei-me a tempo. – Filha da puta… JOANA!

Contei mentalmente até três.

– Estou aqui – falei com a voz fraca antes de finalmente sair de meu esconderijo, o revólver e minha mão agindo sozinhos, como se fossem uma coisa só.

– Mas que merda…

– Sim, é uma merda – falei sem realmente pensar. Mas, e daí? Eu não era eu mesma naqueles últimos minutos em que o esperei.

Mire no estômago, ouvi uma voz sussurrar no meu ouvido. O primeiro chute foi ali.

Mas não o primeiro golpe, peguei-me respondendo de volta. Atirei. Em reflexo, meus olhos piscaram e a bala acertou a fruteira em cima da mesa. Eu o vi andar em minha direção, os pés não se arrastando mais. Finalmente ele tinha aprendido como realmente uma pessoa caminha: sem se arrastar, e sim levantando a porcaria dos pés para que os sapatos não se desgastassem no primeiro mês de uso. Pena que foi em seu último suspiro, porque daquela vez eu segui o primeiro conselho que o vendedor disse para mim quando colocou o revólver na minha mão.

Não feche os olhos.

Apertei novamente o gatilho. E acertei onde realmente deveria. O barulho ecoou nos meus ouvidos por um bom tempo. Não o estampido do revólver; este eu sequer processei. O que me fez levar as mãos às orelhas e sorrir de maneira quase doentia, foi o som dele caindo. Pela primeira vez, aquele som não vinha de mim. E pela primeira vez eu apreciei esse som.

Andei até a poça de sangue que enchia a cozinha. Curvei-me e, com a ponta dos dedos, baixei as pálpebras dele.

– Bons sonhos, querido.

Senti meus lábios tremerem num sorriso doentio e respirei fundo. O cheiro que me entrou nos pulmões era novo. Mas eu percebi que logo também me viciaria nele. Quem poderia dizer que o cheiro de sangue se pareceria muito com o cheiro de liberdade?

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