Chuva caindo cadenciada no compasso do coração. Olhava para as gotas que corriam pela vidraça, traçando um caminho vagaroso até o parapeito da janela. Como um daqueles fiapos d’água, ela seguia seu caminho tortuoso na vida, esperando o dia de se espatifar suavemente.

O silêncio em que mergulhara era delicioso. Havia muito o apartamento não silenciava tanto assim. Agora o derradeiro som colocara fim aos sons que circundavam sua vida e só havia paz.

Sentara-se no banquinho ao lado da janela fazia horas e desde então estudava o chover. Seus olhos tinham se derramado em lágrimas salgadas, logo que o baque colocara fim nos ruídos.

Não sentia frio, apesar de seus pés descalços ficarem dependurados no ar gelado e de vestir apenas uma camiseta sobre o corpo nu. As mãos agarravam-se à tesoura que desprendia um chorar vermelho.

A magia da chuva, que suspendera toda a sua alma em imaculado silêncio, acabou com um raio de sol surgindo pelo vidro. Seus olhos piscaram, como se tivessem sido libertos de uma prisão.

Seus pés azulados encontram o chão frio e se tingiram de vermelho. Passou indiferente pelo amontoado de carnes sobre o chão, onde ela tantas vezes havia caído de joelhos, onde sentira os medos chegando e a cinta e a vara e os punhos. Nada disso a aguardava em seu sinuoso caminho de lágrima a percorrer a janela.

Deixou cair a tesoura no chão, rumo ao chuveiro, desejando ver-se purificada, em definitivo, de seu último pecado. Enquanto mergulhava, corpo e cabeça, na água morna, deixava para trás aquela que já fora.

Acabara de deixar uma prisão, mas o caminho era tortuoso e ela era apenas uma gotinha. Será que havia mesmo a liberdade? Não tinha bem certeza, só sabia que era cedo demais pousar na madeira. Seguia agarrada ao vidro pelo qual trilhava, separada de outra gota, a gota espatifada no chão da sala.

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