Sabemos pouco a respeito da vida. Às vezes aquela frase dita por ela resiste em ficar em minha mente desenhando arabescos. Dita despretensiosamente como se fosse pouco. Para eu notar somente o ruído, para que a percepção do som se deslocasse para o infinito do que seria a aurora. Simples para que não houvesse tempo de percebê-la, assim como aquela última foto.

Sei que ainda não estou pronto, mas vou começar assim mesmo. Esperei muito sem saber por quem.

Sim, só poderia ser ele. Alto, forte.

Minha mãe orientou-me com carinho. Eu poderia acreditar em algumas verdades, somente as que parecessem mais com os pássaros em V. Então o mundo caberia na palma de minhas mãos. Teria a oportunidade de manter a emoção em equilíbrio.

Justo agora que resolvo trabalhar no projeto… No momento, traçar umas linhas finais, voltar ao local, marcar a hora. Falta pouco para eu me transformar no grande executivo.

Comprei o melhor terno, como deve ser. Não gosto de ver homens na televisão com aqueles ternos amarfanhados como diria minha irmã. Sinto que tenho grandes chances de alcançar um posto elevado na empresa. Hoje são poucos os que têm a minha experiência. Sou bem treinado, assimilei todas as estratégias do mercado. Tenho estudo, entendo de computação, já li todos os best sellers, a minha namorada verdadeira fica impressionada com minha habilidade com as palavras. Se eu não tivesse o que fazer na vida, ou melhor, se eu não servisse para nada, certamente seria um grande escritor. Daqueles que você fica lendo, lendo e não quer que acabe nunca.

Observei que todos os dias ele sai bem cedo para levar o cachorro para passear, menos na terça. Mas logo na terça, justamente no dia em que durmo na casa da Sharleny, moça de respeito. Como eu vou explicar que não vou poder dormir. Ela tem sensibilidade, percebe longe uma conversa fora de hora.

Mulher não gosta de futebol, ainda mais quando você vai assistir com amigos, aqueles que ela naturalmente detesta. Essa seria a minha desculpa. Eu não poderia faltar a partida, havia uma aposta, bebidas… Eram pessoas importantes da empresa. Ela certamente entenderia. Mas eu deveria construir a história de forma que tudo fosse muito natural. Quando ela menos esperasse, eu sairia com uma conversa despretensiosa e tal.

Pensei em tudo, em todos os detalhes. Exatamente no momento em que o motorista abre a janela para dar uma respirada, ele sempre faz isso, eu rapidamente atiro e vou embora.

Eu sei que poderia matá-lo em suas caminhadas matinais, mas ele estava sempre com os cachorros, esta era minha fraqueza, comecei a perceber que estava na hora de mudar de profissão. Eu não conseguia matar um cachorro. E também só conseguia matar pela manhã. Era o meu horário preferido, dava sorte. O disfarce de açougueiro servia bem. Já estava acostumado a pisar em poça de sangue. Me fazia bem, sentia uma certa liberdade.

Fiquei imaginando em que confusão se metera um sujeito tão apessoado, limpo, jeito de alemão de filmes de espionagem.

No dia em que decidi matá-lo, avisei a Sharleny que precisava resolver umas questões em outra cidade e que precisaria dormir fora. Ela não acreditou muito, mas foi o que veio à mente naquele momento, desistira da história de ver jogo com os colegas. Nisso ela não acreditaria.

Pegar a arma me dava prazer, já estava sentido falta do uso. Não podemos deixar de praticar, enferruja. A pontaria enfraquece. Precisava dar os últimos retoques, verificar o silenciador. Pôr tudo no devido lugar. Não poderia contar com imprevistos, essas coisas não servem para mim. Fiquei pensando que realmente estava na hora de parar. Pegaria o dinheiro juntado e partiria para um lugar tranquilo qualquer, melhor se fosse em beira de praia, não vivo sem praia. Abriria um pequeno negócio e ficaria assim por resto da vida.

O celular tocou, só ouvi uma voz irritada:

_ Porra! Você matou o cara errado! Eliminou o segurança, nós precisávamos dele. Nós avisamos que o figurão dirigia o próprio carro.

Nesse dia do recado, quando recebi o telefonema, eu estava na cama com a Sharleny, não poderia me distrair com nada. Eu só anotei o endereço do executivo e a história dos cães.

Pela primeira vez, matei o cara errado. Mas também pudera. Era rico para caralho! Preto pra caralho! E, para me atrapalhar mais ainda, gostava de dirigir o próprio carro.

Perdi o emprego e a Sharleny.

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