Ilustração montagem do autor de moscas sobre um detalhe da página do manuscrito medieval pintado pelo monge Rufillus no final do século XII em uma abadia em Weissenau, na Alemanha. Além de assinar o seu trabalho, o que era incomum nesta época, retrata a si próprio pintando nesta mesma página.

 

Meus pais se conheceram numa viagem. Eles seguiram viajando e eu nasci em trânsito, mas antes do término dessa viagem de nove meses, meu pai já havia partido. Quando perguntei, ela já nem sabia dizer onde foi, mas lembrava que deu à luz na beira de um rio. Desde então o traçado de todos os rios se tornaram um só arabesco. Segui a vida de peregrino pelas margens líquidas dessas curvas com a minha mãe.

No dia em que chegaram as moscas, eu senti a falta dela ao meu lado e de criar raízes. Uma coisa por vez, comecemos então com as malditas ou benditas moscas volantes. Por favor, aproxime-se mais, prefiro assim sussurrar com o vento, dessa maneira me faço entender melhor, não há tristeza, talvez um excesso de emoção.

Esses arabescos começaram com essas moscas que não pousavam na comida, nem eram iguais a da sopa a zumbizar, silenciosas moscas. Falo dos pequenos pontos que flutuavam no meu campo visual acompanhando o meu olhar. São chamadas assim mesmo: moscas volantes!

Não tem exatamente a forma de moscas, mas se comportam como elas quando dançam a nossa frente e desaparecem como mágica. Na verdade, são condensações do corpo vítreo, o fluido gelatinoso que preenche o interior do olho. São minúsculos acúmulos desse gel navegando dentro do olho.

Quando a oftalmologista descrevia o meu caso, voltou-me a cabeça um dia em que peguei umas moscas, retirei as suas asas e as coloquei num pote de vidro com um montinho de açúcar e esqueci num canto. Para a minha surpresa, em horas o pote estava infestado de larvas, não sabia o que fazer, então coloquei de volta no armário do quarto de pensão.

 

INTERLÚDIO

 

Esse próximo parágrafo você pode pular, ou melhor, pode deixá-lo as moscas, embora não sejam como os Excertos (Fornecidos por um sub-sub-bibliotecário) sobre as baleias no romance Moby Dick, como o fez Melville. Invoco a ele para deixar claro, pelo contraste em todos os sentidos, a minha pequenez e a do meu texto, que no fundo são como moscas desavisadas capturadas numa teia esperando pacientemente que a aranha as venha devorar.

 

(((Dípteras, duas asas, comuns muscas domésticas, verdes varejeiras, Drosophilas, as famosas moscas da fruta, do figo, da banana, enfim de toda a quitanda, mosca de estábulo chupa cavalo, as mutucas e os moscardos, moscas vampiras babando sangue. Vem mosca que eu te dou uma elétrica raquetada! Mosca frita na chapa do bar, no meio das cebolas do bife acebolado, a mosca na sopa de letrinhas, a mosca no morto, mosca morta na rosca, a mosca enroscada na teia, a casca da mosca sugada, a mosca réu foi condenada, mosca sim, mocassim, moscas assim, moscas assado, mil e uma moscas em um só dia, mosca lisa, listrada ou pintada, mosca de calça jeans a tal de mosca azul, mosca de banheiro, mosca da lixeira do banheiro, mosca do papel higiênico da lixeira do banheiro, mosca do café da manhã, do almoço, do lanche, do jantar e das madrugadas de verão, a moscastronauta que a segurança da NASA não viu desvia a rota para a constelação de Musca, a mosca mutante do experimentos da guerra fria, uma moscovita mosca de moscou, a mosca de Nescau, de açúcar mascavo e de adoçante natural, a mosca da ponta do nariz do iogue, as de metal na orelha e no piercing do umbigo, mosca do engenho, do sangue derramado dos escravos, da vergonha nacional, tantas moscas putaquetepariu! Engolir mosca de boca aberta que de boca fechada nunca mais saiu, a mosca do rabo da vaca amarela caiu na panela quem falar come tudo dela! Mosca PLAFT! Mosca disfarçada de abelha do ursinho Pluft! Mosca da noz moscada, mosca da sessão da tarde, o homem mosca e na sessão da meia noite a mosca nua, a mosca só sua, moscas solteiras ou casadas, as moscas de motel, moscas jamais beijadas, a mosca da encruzilhada, do santo fossilizada pela parafina da vela, a cesta da maçã podre invadida por um bando de moscas uniformizadas, a banda das moscas dos corações solitários, a mosca dourada dos otários, o balé das moscas no bolo de aniversário, a mosca deu sua última mancada, escorregou na saliva doce da beirada do copo e caiu na água, a mosca levando sopapo atrás de sopapo, o pernilongo pica e a mosca paga o pato, moscando só de papo a mosca bêbada de vinho da uva moscatel, a diabética mosca da Ilha do Mel na mira da língua do sapo que acerta na mosca, mosca espiã de escritório, mosca cartorial, as moscas de cadeia, o massacre das moscas com aerossol, mosca do Estado, pública ou a mosca privada da privada, moscas do desleixo da saúde, dos hospitais lotados as moscas, moscas esfregando as patinhas ou dando beijinhos espalhando doenças por todo lado, numa rede em sono profundo de uma tsé-tsé, o sonho Neomalthusiano: moscas com natalidade controlada, no supermercado moscas com prazo vencido de validade, mosca cabeluda na careca, isca de mosca viva pendurada na vara, no grude nojento da fita pega moscas, a mosca do brocado, do bom-bocado, dos mal amados, a mosca de elevador enchendo os pacovás andar por andar, as moscas do carnaval fora de hora grudadas no suor de um folião que funciona como a nojenta fita pega mosca, a mosca da cocada, do rei da cocada, mosca de merda, mosca da merda, peso mosca, da pesada, mosca desempregada, pensionista de asa quebrada, mosca do ketchup espatifada na vidraça da lanchonete da esquina, mosca que te espera na porta de casa, chamando as outras para a farra, mas não era nenhuma dessas, nem tão pouco moscas imaginárias, quem dera fossem invisíveis, transparentes, mas eram moscas de véu e grinalda.)))

 

FINAL DO INTERLÚDIO

 

No entanto, continuava a médica, quando estes corpúsculos atingem o nosso campo de visão, o bloqueio da luz os fazem visíveis pelas sombras projetadas na retina.

Essa minha sensibilidade despertada pelas larvas, logo puxou a imagem mais forte do filme de Buñuel e Dali, o Cão Andaluz, o corte do olho com uma navalha. Senti um arrepio, tinha certeza que ao cortar os meus olhos sairiam as moscas, constatei que tinha razão, eram milhares de moscas volantes, saindo de meus olhos em voos que pareciam formar arabescos.

Ou seria apenas delírios de um colírio mal pingado?

Eram de diversas formas de arabescos, como numa porta de uma mesquita em Istambul ou seria de um tapete persa? Outros não tão árabes feito um entalhe viking em madeira ou sinuosos como um desenho art nouveau de Beardsley ou ainda uma joia céltica ou mesmo um grafismo indígena Kadiwéu. Em outras partes assemelhava-se a uma máscara maori espalhando milhares de trançados de cabelos afros girando numa roda de samba, expandiam-se pelo espaço circundante como um grafite de Keith Haring ou resignavam-se ornar um pote de cerâmica marajoara. Quando finalmente soprou uma brisa e no vento desenhou-se em diluída aquarela chinesa contra o céu azul em preto e branco infinitas ramas.

Esses arabescos se entrelaçavam como numa capitular de um livro medieval. Meu Deus eu pensei, onde eu já tinha visto um desses? Ao tentar andar percebi que não conseguia, estava imóvel na beira do rio, entretanto, minha visão continuava a formar imagens nessa trama.

O movimento visível de expansão para o alto tinha sua contrapartida para baixo, senti uma energia me ligando ao solo, eu agora tinha raízes. Não era isso que eu sempre quis? Criar raízes? Não assim literalmente, claro. Chorei de emoção, minhas folhas se orvalharam apesar do sol, quando descobri o real status de minha nova realidade.

Logo ouvi uma criança perguntando: − Mãe, que árvore é essa? − Eu acho que é um chorão. − Chorão? Curvei-me de leve para ficar ao alcance de suas mãos, acariciando minhas folhas e perguntou: − E ela chora de verdade? Curvei um pouco mais e envolvi a cabeça do menino com meus ramos da mesma maneira que envolvo você agora e disse: − Sim choro, literalmente, eu choro!

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