“08/06/87

Mulher é encontrada morta e a única testemunha foi o filho da vítima, o mesmo foi encontrado em estado catatônico pelos policiais que chegaram primeiro ao local. Após a recuperação do garoto, ele não se lembrava de nada do ocorrido.

O assassino ainda não foi encontrado.”

Mais uma vez me levanto para ir ao trabalho, é manhã e os primeiros raios de sol atingem meu rosto enquanto giro a chave para trancar a porta de casa. Me dirigindo ao trabalho o vejo do outro lado da rua, aquele rosto familiar, o cheiro de carne me vem a mente logo que vejo as moscas voando ao seu redor, desvio o olhar e não o vejo mais.

Chego ao escritório com o aviso de uma chamada em espera em minha mesa, as pessoas passam por mim como fantasmas, e os sons dos teclados e ‘bips’ dos telefones são enlouquecedores. Atendo a chamada, mais um cliente insatisfeito, todos eles são mandados para mim, o senhor do outro lado da linha grita e ruge como um neandertal, minha mente desliga com os xingos enquanto olho pela janela e o vejo lá embaixo, as moscas estão a sua volta voando como uma nuvem negra, quando o cheiro de carne atinge meu nariz novamente desligo o telefone com o gosto de bile e suco gástrico chegando a garganta, corro ao banheiro.

A secretária me avisa, na volta do banheiro, que um senhor estava me esperando na recepção, sigo pensando que seria mais um cliente frustrado, mas para a minha surpresa era muito pior. O homem ao qual eu fugia minha adolescência inteira estava lá a minha espera, pude ver as criaturas viscerais se movendo sob sua pele, saindo e entrando nela, enquanto os pequenos anjos da morte com asas rodopiavam contornando seu corpo.

– Queria te convidar para almoçar comigo hoje, filho – Disse meu padrasto esboçando um sorriso amarelado pelo tártaro e enegrecido pelas diversas cáries. Me senti obrigado a aceitar, rejeitar o convite do homem que morou comigo durante anos após a morte de minha mãe seria tal sacrilégio o qual eu não poderia cometer.

Chegamos a sua casa, o cheiro de carne me inebriava e os rastejantes em seu corpo me enojavam, o conteúdo do meu estomago já estava beirando a garganta, quando ele pôs a minha frente um delicioso prato com arroz, feijão e bife, um deleite se não fossem pelas larvas brancas saindo e entrando na carne, rastejando lentamente e as moscas pousando sobre a comida, o gosto ácido subiu a boca, senti minhas narinas queimarem e os olhos lacrimejarem, antes que pudesse me levantar ou até mesmo despejar aquele líquido acre ali mesmo, meu anfitrião disse se dirigindo a mim:

– Você sempre foi um bom garoto…

Antes que ele pudesse terminar a frase, a voz dele virou apenas um ruído, talvez tenha sido uma péssima escolha de palavras as dele, mas naquele momento fui acometido por uma incomoda dor de cabeça seguida de um ruído forte e sonoro e um flash de lembrança que parecia há muito perdida, ou até mesmo escondida e enterrada para nunca ser encontrada novamente.

Lembrei-me de quando era uma criança, estava na sala brincando e vi meu padrasto discutindo com a minha mãe. Logo veio outro flash, ela estava caída ao chão, o sangue vermelho como rubi escorria pelo chão, o cheiro de carne invadia minhas narinas, e meu padrasto coberto em sangue dizendo a mim “seja um bom garoto e não conte nada a ninguém…”.

A dor e os zumbidos passaram, foram substituídos por aquela voz rouca e irritante, o bater de asas de milhares de moscas e o rastejar de larvas brancas. Com a mente vazia e o talher em mãos, disparei por cima da mesa caindo em cima dele e o levando ao chão, enquanto a faca o atingia, o sangue respingava quente em meu rosto, o asco dos insetos havia desaparecido, fora substituído por uma fúria avassaladora que agora atingia aquele corpo inerte com punhaladas ritmadas fazendo mais sangue jorrar e escorrer pelo chão.

Quando me levantei, aquelas criaturas que habitavam nele haviam desaparecido, junto com a sua vida, saí pela porta da frente e me deparei com uma poça de água, refletido nela pude ver, meu rosto embebido em vermelho vivo e pontos pretos flutuando e volteando sob minha cabeça, senti novamente o cheiro pútrido de carne e de minha pele pude ver saírem pontos brancos, que rastejaram para fora, apenas para entrar novamente e emergirem como moscas.

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