{Forte de São João, Bertioga (SP); foto por Jurema Oliveira, licença GNU/CC-atribuição}

Sempre adorei ir à praia. Quero dizer, eu, bicho urbano, tinha na verdade certa preguiça de sair da metrópole. Mas acabei me acostumando a pegar umas horinhas de carro (na época em que viajava com meus pais e irmãs) ou ônibus (depois, com namoradas) para sentir aquele frescor do oceano.

Parece algo tão gigantesco. Tão infinito. Aquele mundão de mar, que vem e vai, em incontáveis variações de ondas e espumas e outras formas, com hidromassagem gratuita de lambuja.

E como a nossa relação com a terra fica alterada nesse lugar. Ao invés de um chão estável e seco, de cerâmica, cimento ou asfalto… pisamos na areia, de pé descalço. Num piso fofo, inconstante, que se molda às nossas pegadas.

Feita a homenagem ao contato com o mar… devo dizer por que pensei em praia. É que um amigo me contou de um causo a respeito de uma viagem dele à Paranapiacaba, distrito do município de Santo André, relativamente coladinho à capital de São Paulo – apesar de a viagem de trem não ser tão rapidinha assim.

E Paranapiacaba, traduzindo-se do tupi ao português, é justamente o nome do título deste conto em que o leitor está. Sim, “lugar de onde se vê o mar”. Decompondo-se a palavra, temos: paranã = mar, epiak = ver e aba = lugar.

Mas se formos parar pra pensar, tem lugares pra caramba por este nosso Brasil afora que poderíamos chamar então de Paranapiacaba. Qualquer morrinho perto do litoral, ou mesmo de qualquer cidade costeira… de todos esses lugares, de norte a sul do país, dá pra gente ver o mar. Ainda que o litoral gaúcho não seja lá muito elogiado…

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Seja como for, para o causo que vou lhes contar, não precisarei ir pra muito distante da “Paranapiacaba” original. O “lugar de onde se vê o mar” de que me lembrei foi Bertioga, no litoral paulista.

Cidade cujo nome, aliás, também tem origem no tupi (ou tupi-guarani): parati + oca => baratioca => bartioga => “refúgio ou paradeiro das tainhas”.

Por que eu me lembrei dessa localidade? Bem, provavelmente porque estive estudando bastante sobre a história e cultura indígena ultimamente, então falar em mar e e em tupi, ainda que de passagem… não deu outra. Pois nessa cidade lembro-me de ter visitado um museu histórico, em que a temática indígena era bem predominante. Na verdade, tratava-se do Forte de São João da Bertioga (e sim, na prática transformado em museu, e tendo ao lado o chamado Parque dos Tupiniquins, com um “museu extra a céu aberto” relacionado à temática).

Certamente a questão da antropofagia indígena era bem chamativa nos painéis explicativos! Assim como uns canhões apontados para o mar (olhaí um lugar especialmente estratégico para se ver o mar!) e uma armadura de cavaleiro. Só não sei quem é que ia aguentar vestir esse metal nos Trópicos… De modo que os itens chamaram muito minha atenção de antigo jogador de RPG, para quem os combates medievais eram parte da rotina imaginária.

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O mais inesquecível mesmo foi quando me deparei com um legítimo índio sentado numa cadeira do museu de Bertioga, em meio ao percurso de minha visita! Com seus traços étnicos típicos, cabelo bem preto e liso; e pele vermelha queimada de sol, exatamente como a gente imagina esse povo e eram assim percebidos desde que os europeus aqui chegaram. Parecem gostar até bastante dessa cor, haja vista que é frequentemente incluída em suas pinturas corporais, com o fruto urucum.

É certo que tal índio não lembrava muito o mito heróico indianista de Gonçalves Dias ou de José de Alencar. Claro que não, tais representações do século XIX eram idealizadas. O indígena que eu encontrei era na verdade meio gordo, e largado numa postura descansada pouco elegante.

Ainda que aparentemente trabalhasse no lugar, talvez como “vigia”, “tomador de conta do lugar”, quem sabe como “monitor”? (apesar que ele não parecia apto a dar muitas informações…) Ou simplesmente para efeitos temáticos, decorativos e históricos, fazendo parte do museu, como representação viva dos tempos antigos em que o indígena de fato era predominante na população da costa brasileira, lá pra 1.500? Eu acharia isso fantástico! Isso sim é museu, com representatividade étnica conectada com seu assunto central!

Opa, por falar em guarda (hipoteticamente), olhaí outra coisa que tem a ver com o causo de meu amigo. Ele também teve que lidar com um guardinha em Paranapiacaba. Mas esse dele era bem mais ativo que o suposto que encontrei em Bertioga. E além de não aparentar preguiça, não deixava ninguém dormir. Ah, os dois lugares, em Paranapiacaba e Bertioga, também eram tombados!

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Pra concluir a história: fiquei tão curioso e empolgado com o lance de haver um índio nesse museu de história de Bertioga, que respirava essa temática – e sim, ok, eu nunca tinha visto índio na vida, que me lembre, exceto talvez no programa da Xuxa, em que ela cantava “Vamos brincar de índio, mas sem mocinho…” – que sim, fui curioso e empolgado pedir ao índio-suposto-vigilante-curtindo-repouso confirmação de minha hipotética óbvia conclusão.

Chegamos a outro enlace com o causo de meu amigo, que falou de um tal “David Ohara” em sua história. Que eu saiba, Ohara é sobrenome japonês, ao menos é quase igual ao sobrenome original de minha vovó japonesa, Hara. Pois, foi essa a resposta do “índio”: “Eu? Índio? Sou japonês, pô!”

E depois dizem que japonês é tudo igual… De fato, no Brasil, e principalmente em São Paulo, você nunca sabe quem pode encontrar. Até mesmo variações dos meus primos nipônicos, perfeitamente adaptados ao clima local!

(Bela lembrança, a ficar pra sempre, aliás, de que os japas e índios são parentes, tendo estes algo dos olhos puxados dos primeiros, né? Sim, veja estes artigos pra ter uma noção de que eu não estava tão maluco assim pra confundir índio com japonês… As pesquisas mostram que os orientais provavelmente eram algo como tataravós dos indígenas brasileiros!

“Índios sem barba” (Revista Mundo Estranho)

Os Índios Eram Japoneses?” (Revista Época) )

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