Há uma antiga lenda que diz que um índio descerá de uma estrela colorida, brilhante e veloz, assim que a última nação indígena for exterminada e a natureza estiver devastada, e eu acredito. Acredito porque eu sou descendente de índios que viviam perto do mar, e eu tive um sonho que era igualzinho à letra da antiga canção, eu vou relatar meu sonho agora:

Era noite quando a espaçonave planou sobre a costa, onde antes havia, a poucos metros da praia, uma densa floresta. Ele desceu ali, a pele vermelha e brilhante ainda refletindo as luzes coloridas que se desprendiam do objeto. Ele encostou a mão na fuselagem e, num repente, ela partiu em silêncio como se nunca estivera ali.

Ele tinha cabelos negros, longos e lisos. Os olhos eram puxados, mas sem exagero. A pele era avermelhada, mas cor de cobre, ou canela. 

A cidade era um aglomerado de edifícios altos de concreto, vidro e ferro. Havia luzes piscantes que voavam a meia altura, entre balizas flutuantes que formavam estradas no céu. Quem diria, estradas no céu. Devia ser por isso que ninguém notou sua chegada, embora luzes flutuantes na praia devessem ser proibidas, e logo deveria haver alguém da segurança se aproximando para ver quem era o transgressor que estava flutuando fora das áreas de fluxo, mas ninguém veio.

Ele caminhou até o calçadão, e achou estranho que não houvesse pessoas transitando por ali, como deveria ser normal. Não. Elas estavam todas juntas, espremidas próximo a um poste que projetava uma tela-holograma. A imagem mostrava um caixão de vidro, e nele, um homem idoso de cabelos brancos e pele enrugada jazia, paramentado com couro e penas e uma pintura ritual. 

“Morre o último índio”, dizia a legenda em várias línguas. 

O recém-chegado sentiu uma estranha tristeza brotar em seu corpo recém-adquirido, e achou inadequado honrar A Passagem de alguém confinando-o em um esquife transparente. Com uma voz surpreendente, por ser baixa e grave, ele chamou ao povo que ali se reunia e disse-lhes que não deviam lamentar a morte daquele último índio, pois esse era o Sinal que haviam esperado por tanto tempo para saber das coisas arcanas e obscuras que foram sussurradas dentro das sombras da história pelos místicos, e encaradas por muito tempo como teorias de conspiração, mas que eram bem reais sim.

Vocês mataram o último animal e a última árvore, disse ele, secaram e poluíram o último rio, e o mar é apenas uma mancha negra de óleo e podridão. Eu vos digo: o tempo de sua espécie sobre este planeta terminou. A Terra – como vocês o chamam – precisa se renovar, sarar e brotar de novo. 

Um dia, continuou o Índio, talvez algo como vocês possa crescer e se desenvolver aqui, mas este dia não virá em breve. Olho para vocês, vejo-os como irmãos e irmãs, mas não poderemos poupá-los desta vez como fizemos no passado.

Foi quando eles se deram conta que a fala do Índio estava sendo transmitida para todo o mundo, traduzida para cada idioma, e cada família e pessoa reagiu de maneira diferente à notícia. Mas não houve muito tempo, porque o Índio caminhou até a praia e sua nave brilhante veio mais uma vez como um raio veloz, e ele partiu sem olhar para trás.

Quando a luz multicor de sua nave sumiu no céu, dezenas de bolas brilhantes do tamanho de montanhas riscaram a noite, vindo sem piedade em direção à terra e ao mar. E não houve tempo para desespero.

E foi nessa hora que acordei, e escrevo esse relato porque a holotela ligou sozinha agora há pouco, e o Índio apareceu e disse as mesmas coisas de meu sonho, e depois subiu em sua nave e sumiu no céu, e eu estou sentado aqui porque eu sei o que vai acontecer agora, mas eu não estou com medo, porque

Anúncios