Os grandes barcos estavam ancorados ao largo da praia, os enormes pedaços de tecido amarelado inchados de vento. Na areia, os pequenos barcos amarrados a toras de madeira enterradas, esperando a maré subir.

O morubixaba estava recebendo os brancos em sua cabana já há muito tempo. Eles sorriam por trás das barbas, mas fediam muito, com suas roupas trapentas e as caras vermelhas. Pela maneira com que se coçavam, deveriam estar infestados de piolhos e pulgas.

Do lado de fora da cabana, dois deles alisavam seus paus de fogo e sorriam. Moaci tinha vontade de cortar-lhes a garganta pelo jeito com que olhavam para suas mulheres e diziam coisas com sua língua grosseira e ligeira. Ele os odiara desde a primeira vez em que os vira.

Começaram a sair de dentro da cabana. O homem mais velho, que parecia ser o chefe deles, não sorria, mas os olhos da cor do mar não lhe escondiam a felicidade. Algum acordo havia sido feito.

– Moaci! – disse o pai, o gesto duro de mão chamando-o para perto.

Ele se aproximou, o arco tenso na mão, a flecha pedindo para ser encaixada na corda. Só precisaria de cinco delas para sumir com todos eles, os malditos de pele clara, os malcheirosos estranhos que se pareciam tanto com os deuses. Mas deuses não fediam, a não ser que viessem da parte de Anhanguera, e se tivessem vindo de lá, nada disso seria bom.

– Pai – disse Moaci, postando-se à frente do seu cacique.

– Esses homens vêm da parte de um Grande Chefe chamado Rei, e dizem que esta terra lhe pertence.

– Esta terra não pertence a ninguém, nós é que somos da terra.

– Jovem guerreiro – disse o homem velho, a quem chamavam de Capitão. O uso da língua era pobre e rude, mas compreensível. – O Rei de Portugal, a quem me reporto, e que serve a Deus, Nosso Senhor, tem seu pai em alta conta, e acredita que devemos respeitá-lo, e a seu povo. Por isso, viemos conversar, entrar em um acordo, para…

– Vocês não devem satisfação a mim. Se já conversaram com meu pai, está resolvido.

– Mas você é o maior guerreiro, e seu pai tem seu conselho em alta conta…

– Se assim é, pai – disse Moaci -, permita-me falar o que penso.

O morubixaba balançou a cabeça, os cabelos brancos subindo e descendo devagar, acompanhando o movimento.

– Esses homens fedem, pai. Eles trazem o testemunho de Anhangá. Prevejo sangue, e muitos de nós derrubados por seus paus de fogo, prostrados por suas doenças. Quando pisaram em nossa terra, ela começou a apodrecer. Vi isso em sonho, pai. Estamos condenados.

O capitão riu, mas colocou as mãos nas empunhaduras de suas armas. Seus homens fizeram o mesmo.

– O que você faria em meu lugar, então, meu filho, se fosse morubixaba?

– Matava todos eles – disse Moaci. – O sangue imundo deles na terra, como oferenda a Nhanderuvuçú.

– Há mais de nossos navios, e homens, no mar, descendo a cost…

A flecha perfurou a garganta do capitão, que caiu de joelhos, cuspindo sangue.  Durante a confusão, Moaci acertou os outros quatro no mesmo lugar, na velocidade de duas piscadas de olhos.

O velho morubixaba suspirou. Seu filho era um excelente guerreiro, mas jamais seria um bom líder. Impetuoso demais, sábio de menos.

– Isso não vai impedir o que está por vir, Moaci.

– Vamos lutar, pai. Por nossa terra, nossas mulheres e crianças. Esses imundos fedidos podem até nos vencer, mas não morreremos sem lutar!

– Que assim seja, meu filho – disse o velho. – Queime os corpos, retire o que puder do barco grande e ponha fogo lá também. Quando terminar, organize todos. Precisamos sair daqui antes que os outros cheguem.

O morubixaba entrou na cabana. O guerreiro ajoelhou-se ao lado do capitão, que ainda agonizava, e cuspiu-lhe no rosto. O homem tentou dizer alguma coisa, mas apenas uma espuma de sangue saiu de sua boca. Moaci pegou a faca da cintura do moribundo e fez um talho na parte de dentro do antebraço. Bom corte.

– Não sem lutar, espírito imundo – disse Moaci, e enfiou a faca até o cabo no peito do capitão. – Por nossa terra, nossas mulheres e crianças. Será guerra, então, até o último de nós.


*Imagem: Adrian Henri Vital van Emelen – Índio com arco e flecha

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