Ilustração montagem do autor. Rolo de cédulas de contos de réis sobre foto antiga (autor não localizado) da primeira construção do Viaduto do Chá sobre o Vale do Anhangabaú. No lado esquerdo, o Teatro Municipal de São Paulo.

 

Aonde começou e os porquês, parece ter origem em Ouro Preto no Brasil e também em algum lugar em Portugal, nos séculos XVIII e XIX respectivamente. Me refiro ao conto do vigário.

Não consta que era um vigário que aplicava esse tipo de golpe, mas era utilizado a figura do mesmo exatamente pela confiança que geralmente gozava a autoridade religiosa perante a sua comunidade.

Esses golpes proliferaram no final do século XIX cuja figura do vigário não fazia mais parte das atividades dos gatunos. Porém o nome pegou. O conto do vigário era aplicado em inúmeras versões, criadas pela bandidagem, para extorquir o dinheiro dos que caiam nessas histórias.

Geralmente consistia em contar uma história de algum tipo de dificuldade que convencesse a vítima, sem causar suspeitas, a ajudar com dinheiro mediante uma recompensa maior.

A recompensa em espécie visava estimular a concupiscência da vítima, ou seja, acordar a sua ganância, ou ainda em linguagem atual, acenava-se com uma quantia que fizesse crescer os olhos dos desavisados.

Quando eu era menino, os tais contos do vigário eram relatados pelos mais velhos, em várias versões, desde o bilhete premiado da loteria, o pacote de dinheiro, etc. O que a minha a minha avó gostava de contar era o da venda do Viaduto do Chá.

A sua versão era do tempo dos contos de réis, moeda corrente da época. Na verdade, o Real português existia desde o período colonial, que de tropeço em tropeço, depois de tantos outros nomes, a moeda no Brasil acabou voltando a ser chamada de Real.

O plural era o mesmo de agora, reais, porém por apócope, foi suprimida a vogal “a” e acabou ficando réis. Um conto de réis era a nota que valia um milhão de réis, mas era a que circulava menos, sendo a mais comum a cédula de um mil réis, que virou mirréis na boca do povo.

Se os golpes eram denominados contos do vigário, os meliantes que aplicavam os mesmos passaram a ser chamados de vigaristas. Nem todo vigarista é um legítimo aplicador do conto do vigário, mas eles ainda existem e não são poucos. O mesmo pode-se dizer dos golpes e do número de vítimas, agora assediadas também pelos meios digitais.

Lembro ainda minha avó paterna dizendo:

− Era só alguém com cara de ingênuo ou se achar esperto demais e estar admirando com deslumbre o Viaduto do Chá, para ser abordado por algum desses marginais.

O do Chá foi o primeiro viaduto da cidade, construído em 1892 com estrutura metálica alemã e assoalho de madeira precisou em 1938 ser demolido e reconstruído com cimento armado.

Ganhou este nome devido a uma plantação de chá que existia nas cercanias e inclusive era gerido pela empresa Companhia Paulista de Chá, responsável pelo projeto inicial do viaduto, mas foi outra empresa que acabou assumindo a construção e importando a estrutura metálica, a Companhia de Ferro Carril de São Paulo.

Como ressarcimento do investimento, a Ferro Carril recebia o dinheiro do pedágio cobrado para atravessá-lo, além disso, ostentou o seu logotipo nos 26 postes de iluminação a gás do viaduto.

− Esse negócio de pedágio é uma boa ideia, né, Vó? − Sim pedágio é ideia antiga em São Paulo, ela dizia sorrindo: − Ah, isso vocês sabem muito bem como funciona, mas fiquem sabendo que é a última vez que vocês cobram pedágio em doce de goiaba em calda para a Vovó poder entrar na cozinha.

– Ah Vó! – Ah Vó, nada! Nem “a” nem “b” ou contarei ao pai de vocês. E não adianta emburrar. – Tá Vó, então continua! – Pois bem, vou continuar, mas estamos conversados!

− Todos os passantes se deslumbravam com a paisagem abaixo, a do Vale do Anhangabaú e ao longo da ampla vista circundante. Num dos seus extremos figurava o imponente Teatro Municipal de São Paulo e do outro a Praça do Patriarca separada pela não menos famosa Rua Libero Badaró, que o vigarista como um lobo faminto se esgueirava ao lado de um possível otário.

− Boa tarde! Está gostando da vista? – Tarde! Sim, estou, é uma das maravilhas do mundo! O traje da época era terno, gravata e chapéu. E o cumprimento usual se fazia levantando um pouco chapéu e dando uma leve inclinada com a cabeça, numa educada mesura.

− Pois é, meu finado avô que construiu, pena que eu tenho que abandonar tudo isso. Justo agora que consegui um reajuste no pedágio.

− Ô, nem me fale, está salgadinho o valor, não acha? – São os custos que estão pela hora da morte! Veja estas lâmpadas a gás, a noite toda iluminando esta obra de arte! O senhor irá ficar na cidade hoje? Fique e verá o que eu digo, nem o farol de Alexandria iluminava tanto.

− Nossa que pena! Terá que ficar para a próxima vez, eu infelizmente tenho que ir embora, acabei de comprar mais um tiquinho de terra, para o gado sabe? – Tiquinho quanto? Repetia o vigarista. O sinal que o fazendeiro fez com os dois dedos, o polegar e o indicador quase encostando os dedos um no outro, de tão pequeno que deveria ser o tiquinho.

− Tiquinho de nada! Não dá nem mil alqueires paulistas, ah, uma bagatela! O gado não para de aumentar e fica todo encolhido naquele espacinho de nada, aí vamos comprando as terrinhas ao lado, espichando aqui, espichando acolá quando vê está maiorzinha a Fazendinha.

E deu-se essa prosa, falando com as mãos, variando a distância dos dedos e terminando em espirituosa observação: − Deus meu, parece coelho esse gado, as vacas não cessam de parir! E os dois riram. Logo após o vigarista deu umas batidinhas amigáveis no ombro do fazendeiro que imediatamente ficou sisudo.

O vigarista retirou a mão e esperou. Parecia que o fazendeiro estava matutando algo. E estava mesmo, quando o vigarista pensou que não ia funcionar a tramoia, o fazendeiro colocou a mão no ombro dele e perguntou solene: − Seu avô construiu esse lindo viaduto, o valor do pedágio acabou de subir, porque você terá que abandoná-lo?

− Ah, Seu… Senhor… – Propércio Limão as suas ordens! – Que falta de cortesia a minha, o Senhor Seu Propércio vem na minha terra, no meu viaduto querido e eu nem me apresento: − Ao seu dispor, Eustáquio Durvalino Vivaldo de Castro Pereira Parpatudo! – Nossa! Seu nome é grande feito esse enorme viaduto! Mas me diga Seu Eustáquio, porque terá que abandonar tão gloriosa obra familiar?

− Agradeço a sua preocupação Seu Propércio, mas não quero com os meus problemas particulares, ocupar o seu pouco tempo. O vigarista faz aquele sinal com os dedos. – Não ocupa nadinha, responde o fazendeiro repetindo o sinal. – Diga-me sem rodeios o porquê de tal desdita.

− Vou falar porque confio no Senhor. Dá para se ver no trato da sua pessoa, um verdadeiro homem de bem! Apaixonei-me por uma rapariga portuguesa de classe média, linda ela, formosa como uma rosa, tão recatada, humilde de posses e sem nenhum título na família, porém de honestos trabalhadores. Ela e a família acabaram de retornar na terceira classe para Lisboa.

− Quando alentei a ideia de ir atrás dela na terrinha, a minha aristocrática família paulistana ameaçou de me deserdar dos outros bens e fortuna. Sendo o neto preferido do meu avô, tenho o direito ao viaduto em testamento juramentado e sacramentado em cartório. Me custará o coração colocar-lhe um valor de venda.

− Ah família, família, sei como é isso Eustáquio! – Que bom que me compreende, isso alivia o meu fardo, meu bom amigo Propércio! O fazendeiro procura esconder uma lágrima virando o rosto e diz: − Já entendi o seu dilema, se você for atrás de seu verdadeiro amor, perde quase tudo, mas porque abandonar este outro bem que é praticamente seu?

− É que nós nos conhecemos aqui, Propércio! Imagine eu aqui amargurando mil e uma lembranças da meiguice dela. Sei que em pouco tempo essas mesmas lembranças iriam se transformando em dolorosas memórias.

− Por esse motivo, Propércio, prefiro partir em busca da minha felicidade, abrindo mão de tudo. Eis o que farei: venderei a qualquer um que queira esse próspero negócio e essa monumental obra da engenharia construída com metal germânico de primeira e vou atrás dela.

− Mas para que vender a qualquer um Eustáquio? – Porque Propércio, conhece alguém digno de confiança para me indicar? – Melhor que isso, ele está aqui na sua frente! – Propércio, está falando sério? – Seríssimo! − Assim você me ajudaria a honrar a escolha do meu avô. Mas você já está de partida, como faremos negócio, a papelada toda? Já sei, dê-me o seu endereço.

− Nem é preciso, vá a minha terra, siga a estrada nova para o oeste paulista até o final, lá todos me conhecem, Propércio da Fazendinha! Aí você me leva em mãos a papelada e tomamos um cafezinho feito na hora com os grãos da terra roxa da região. – Santo Propércio, venha cá por favor.

Fazendo parte da arapuca, perto do portão do pedágio, está o comparsa do pilantra com uma caixa de madeira talhada em formoso ornamento. − Por favor, Manoel, abra a caixa para o Seu Propércio ver parte da arrecadação do pedágio.

– Sim, Senhor Eustáquio! Ao abrir, Propércio arregalou os olhos, caixa cheia e só naquela hora da manhã. – Obrigado Manoel, por favor, vá ao banco do Brasil depositar na conta da empresa e me traga o recibo, dê saudações minhas ao gerente. – Sim, Senhor Eustáquio!

− Esse humilde Senhor me viu crescer! Sentirei falta dele também, sabe Propércio, é difícil ser assim tão sentimental. – Sei como é, sou assim também Eustáquio!

− A única coisa que me falta agora Propércio é o dinheiro para viajar. Terei que esperar o inventário ficar pronto no mês que vem, até lá não posso usufruir do dinheiro do pedágio. Meu medo é perdê-la de vista ou ela achar que não ligo mais para ela, que meu amor era apenas fogo de palha…

O vigarista andando com o braço no ombro do fazendeiro, dirigindo-se novamente para o meio do viaduto, faz um gesto digno de um dramalhão em cartaz no Teatro Municipal e completa a frase que deixou no ar: − A verdade é que aqui, bem neste peito, arde o fogo de mil fogueiras de São João, é um mundo em chamas!

− Não se preocupe, caro amigo, antes que você entre em combustão por tamanha paixão, darei uma pequena entrada como prova de fé de que assinarei. Confio nos termos justos que sei que irá propor, ao levar o contrato de venda em minha humilde terrinha, disse Propércio fazendo o sinal com os dedos.

− Ah, generoso Propércio, não posso aceitar, não seria honrado aceitar seu dinheiro antes de fechar o negócio efetivamente. – Entre amigos Eustáquio não é questão de honra, aceite então só um pouquinho, sinalizou com os dedos.

− Talvez só um pouquinho! E o vigarista repete o sinal. O fazendeiro, saca um rolo de contos de réis da meia e o dá todo para ele. Novamente a encenação dramática: − Não é justo Propércio! – Esse tiquinho de nada?

– Nem uma moeda meu amigo! – Deixe disso Eustáquio, sei como são esses casos. Abra o olho homem, mulher espera mas as vezes, se passa outro cavalo branco na frente dela, já viu!

O fazendeiro coloca gentilmente o rolo de notas na mão do vigarista que diz aparentemente emocionado enfiando o mesmo no bolso: − Por favor, ilustre amigo, faço questão de que seja o meu padrinho! – Ah, isso não Eustáquio!

O vigarista assustado dá uma cambaleada para trás, achando que a coisa foi para o brejo e tenta consertar dizendo: − Peço desculpas por lhe imputar um dever que não me cabe exigir a sua anuência. – Deixe de falar difícil Eustáquio! Sou homem simples, venha aqui e me dê um abraço.

Depois do abraço o fazendeiro diz: − Não posso aceitar sem antes te dar esse presentinho! E saca da outra perna mais um polpudo rolo de contos de réis. Dê meus parabéns a noiva, presenteando-a com mimos de Lisboa.

− E mais, Eustáquio, vá na Rua Direita, compre um anel de noivado e coloque na minha conta, diga o meu nome e conte uma piada ao gerente. Piada igual à que irei contar a você e aí ele saberá que eu autorizei você a escolher a melhor joia para sua amada.

Outro abraço afetuoso no meio do viaduto, era tamanha a alegria que quase se formou uma roda em torno. Neste momento, o vigarista que obviamente não gostava de plateia, vira o fazendeiro para a grade lateral ornamentada e diz: − Quero vislumbrar em sua companhia, amigo Propércio, essa maravilha de paisagem antes de ir buscar o meu amor em Portugal. –Eustáquio, vou adorar colocar aqui mesmo uma cadeira para apreciar esta bela visão.

− Boa ideia Propércio! Vou tentar partir hoje mesmo para o porto de Santos. Quando eu voltar o inventário estará finalizado e providenciarei a papelada do nosso negócio em família. − Em família Eustáquio? Pergunta surpreso Propércio. – Sim como já disse a você, se viajar atrás dela, serei expulso da família. Terei apenas você que será meu compadre!

Propércio sacou outro rolo de notas do bolso interno do paletó. Novamente o gesto de recusa teatral. – Eustáquio, neste caso terei que exigir que aceite! Agora é questão de princípios, não posso deixar alguém da minha família, quase sem dinheiro andando por aí pelo mundo.

−  E tem mais, quero que voltem ao Brasil confortavelmente, procure em Lisboa meu irmão Aristênio, ele tem uma agência de viagens. Conte a mesma piada que eu disse para você contar ao gerente da joalheria, que ele lhe dará as passagens de volta na primeira classe.

− Desculpe a pressa Eustáquio, dê-me o último abraço, tenho que ir, estou atrasado. Boa viagem! – Claro Propércio, boa viagem para você também. Nos vemos em breve! Quando o fazendeiro estava quase no final do viaduto, o vigarista correu atrás gritando: − Propércio, espere, espere!

– O que foi amigo Eustáquio, porque essa afobação? Precisa de algo mais? Arfando, mal conseguia dizer: – A pi… a piada Propércio! − Ah claro, a piada, como eu pude esquecer da piada!

Propércio falou firme: − Teje preso! Eustáquio ficou sério, depois riu com Propércio que logo voltou a ficar sério. Eustáquio perguntou: − Que piada estranha é essa Propércio? − Não gostou, Eustáquio Durvalino Vivaldo de Castro Pereira Parpatudo? Sei que é uma piada meio suja, mas eu acho boa e hilária!

Sentindo um tom bem diferente na voz de Propércio, o larápio recuou olhando para os lados examinando uma possível rota de fuga. Mas ao tentar fugir, já estava cercado pela guarda.

Revistado e algemado, os cinco rolos de notas foram devolvidos a Propércio, que os guardas chamavam de Seu Delegado. Propércio ordena ao subordinado: – Sargento deixe-me um instante com esse vigarista de marca maior que já lhe chamo. – Sim Senhor, guardas afastem-se!

– Olhe aqui Eustáquio. Cada rolo contém apenas três ou quatro notas verdadeiras e as outras são apenas jornal antigo amarelado como dinheiro, mas isso você está careca de saber, pois essa vigarice aprendemos com vocês.

– Mas Seu Delegado, o Sr. está com dois rolos a mais, estes outros dois me pertencem, poderei pegá-los de volta depois? – Claro que não, esse é o meu cachê, seu canastrão! Além do mais, se eu devolvesse a você estragaria o final da minha piada.

Ao abrir os rolos de notas de Eustáquio exclamou: − Ora, ora, vejam só, aqui só tem contos de réis verdadeiros, providencialmente minhas férias estão chegando. Vou lhe dar um aviso só espertalhão, se abrir a boca você já era, entendeu? Propércio abriu o terno e mostrou a arma e Eustáquio concordou.

− Sargento, pode levar o meliante para o xilindró, mas não se esqueça, coloque na mesma cela do seu velho amigo Manoel para que esse meu compadre conte a ele as novidades!

− Espere um pouco Sargento! Pediu Eustáquio. − Seu Delegado, por favor me diga! Porque levou tão longe essa história se podia me prender bem lá no começo?

– É que eu sempre aspirei ser um ator e quando eu fiquei noivo…  Bom, essa é uma longa história que ficará para a próxima vez. Sargento! – Senhor!

− Recolha o vigarista e coloque na lavra da autuação em flagrante de que não havia nada a mais nos bolsos desse sujeito que os três rolos preparados. Foram apenas três rolos que você me entregou, não foi Sargento? – Hã… Foi sim, Senhor! – Perfeito Sargento, pode levar!

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