Olhando para a imagem da Virgem Maria naquela antecâmara de uma igreja portuguesa, deixei meus pensamentos correrem além-mar uma última vez. Correrem até ele – porém não me permiti dizer seu nome, nem mesmo em pensamento.

Ele havia me dito que me seguiria quando eu partisse. Que atravessaria essas águas frias, cruzando do sul ao norte esse Atlântico que nos separaria. Eu quis acreditar àquela época. Mas tudo o que saía da boca dele não era fácil de acreditar. As palavras eram uma arma, um meio de vida. O ganha-pão. Não importava onde estivesse, como estivesse, eram elas – das mais simples às ricas palavras – as responsáveis por colocar comida na mesa de jantar. Ou livrá-lo de uma boa sova.

Ah, as sovas… Nos meses em que ficamos juntos, eu o tinha visto com o olho roxo apenas uma vez. E isso porque esbarrou em um bêbado que havia acabado de deixar outra briga no bar. E sabem como é. Bêbado, homem, esbarrão na rua… Essa conta raramente acaba bem. O olho roxo o deixara irritado. Afinal, o rosto é a primeira coisa que se olha em uma pessoa. Ou vai me dizer que você olha para os sapatos? A não ser que você trabalhe em uma sapataria. Via de regra, é o rosto o alvo principal. Talvez seja por isso que os homens inventaram os chapéus: para ocultar a sombra que vez e outra esfria o olhar, ou o calor que faz as mulheres desejarem sair correndo (ou não).

Mas antes disso (de desviar para chapéus e de ele receber o olho roxo de um bêbado brigão), antes de mim, era como se o corpo dele estivesse se preparando para o truque final. A leveza no andar fazia com que eu me lembrasse de Hermes, e o sorriso de Apolo fazia qualquer sombra deixar meu dia. E também enchia de luz minhas noites, insones ou não. E convenhamos que a melhor qualidade de uma luz é nos despertar.

Não foi à toa, então, que assim como ele possuía Hermes e Apolo, despertou-se a Afrodite em mim em uma noite. Estava chovendo, e não consegui ir para casa porque as ruas paulistas ficaram alagadas. Foi nesta noite, também, que eu descobri que não era apenas o olho roxo que o corpo dele tinha recebido em toda aquela vida. Havia duas cicatrizes, duas linhas finas e brancas: uma abaixo do peito esquerdo, do tamanho de meu dedo mindinho, e outra na coxa. Não me demorei muito na cicatriz da coxa. O olhar de Apolo me queimava. E logo esqueci a abaixo do peito. Ele usava palavras ricas e simples em meu ouvido enquanto a brisa de chuva arrepiava minha pele, e eu as absorvia como verdades. Como todos os que já ouviram palavras similares saindo daqueles lábios.

De olhos fechados, eu conseguia me lembrar com perfeição do que ele me dissera àquela noite. Que me seguiria além-mar, que abandonaria tudo o que um dia foi para formar uma nova vida comigo. Mas, antes disso, precisaria de dinheiro. Um último golpe. Um último conto de réis, uma última vigarice. Eu sorri para ele ao me despedir naquela manhã, e também sorri enquanto lhe acenava do ônibus que me levaria ao porto. E continuei sorrindo por bons minutos, deixando que as palavras que ouvi durante a noite não fossem para o vento ao ouvir as palavras ditas ao amanhecer. Porque elas – as palavras ditas à noite, enquanto ele e eu nos deixamos levar sob aquela chuva noturna –, mesmo não sendo fruto de sua mentira, não eram verdades. E meses depois – duas estações completas e uma terceira quase findando –, tudo o que eu tinha dele eram essas palavras.

Fiz o sinal da cruz à Virgem Maria, ajoelhada naquela pequena antecâmara de uma igreja portuguesa, e prometi a mim mesma que esqueceria meu passado. Era essencial esquecê-lo. Afinal – disse a mim mesma enquanto caminhava na nave rumo ao altar, onde meu noivo esperava –, não era todo dia que uma mulher desmemoriada por um terrível acidente de carroça se casava com um pretensioso banqueiro, o qual segurava uma requintada bengala enquanto tentava respirar devido à saúde debilitada.

Olhei para o vigário português e sorri. Será que ele tinha boas histórias para contar?

Imagem: A noiva olhando para o mar (reprodução)
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