Foto (Woman in a window, Sonya Noskowiak [1900 – 1975])

Da vidraça do quarto vejo como se movem as ondas, se quebram, se arrastam, morrem. Quase uma metáfora de uma orquestra de tambores e daquele dia que tu me sussurraste de uma certa alegria infundada ao caminhar pela cidade catando objetos com o olhar, escolhendo desejos para cada um de nós. Pisando em poças sem se importar. Abro a janela e me vejo naquela cidade manchada de areia depois de um banho de mar. Estava sentada na sala de estar pretendendo ler aquelas páginas amarelas de um livro que nunca conseguiria acabar.
Te esperava.

Conseguia ver a movimentação de chapéus ocultando olhares frios na estação ferroviária. Meus olhos atravessavam uma fresta que lançava feixes de luz sobre esse meu rosto esquecido. Era como se sentisse todas as cores que me filtravam por dentro, varrendo por alguns instantes todo meu apego aos prazeres sórdidos. E te protegia enquanto tentavas trapacear no trem, embarcando sem bilhete. De vinda ao meu encontro.
Foi assim que nos conhecemos.

Naquele trem das seis da tarde. Tu estavas num canto da janelinha com um chapéu um livro e um casaco com abas que atravessavam o pescoço, enquanto eu sustentava meu pince-nez situada no lado oposto do vagão. Pelo vidro do trem embaçado contornava meus dedos traçando um círculo, empurrando os movimentos para ambos os lados e em diagonal através da janela por um café abandonado, uma casa de putas, alguns ramos de canforeira. Parecia tocar o sol; de repente acuei de passar com as cinco falanges esse vulto de imagens de cristal. E me lembrei daquela carta que muitas de nós recebíamos durante a guerra. Uma medalha e mais nada que conservava comigo. Voltei-me para dentro do vagão e comecei a reparar no meu companheiro de viagem. De repente o trem parou numa estação fantasma. O maquinista informava que o trem havia descarrilhado.
E aquela tarde virou noite.

Saímos do trem e paramos na cidade fantasma. Enquanto um grupo de pessoas caminhava eu sentia os estilhaços de vidros no chão. Os homens foram em direção ao bar, enquanto as mulheres ficaram esperando na sala de espera da estação. Eu resolvi caminhar em direção à uma colina. Tu foste mais rápido e estava lá no alto comtemplando a vista de um muro cheio de brechas e manchas cor carmim que apodreciam. Eu guardava aquela medalha no bolso. A medalha de um morto. Resolvi jogar lá do alto. Tu me observaste e sorriste. Eu já estava cansada das medalhas e dos mortos. Não me importava se o trem tinha descarrilhado, nem quanto tempo deveria esperar para chegar a casa. Não tinha medo do desconhecido. Te desvencilhaste do teu chapéu e acenaste. Fitei muito os teus olhos. Meu rosto estava impassível. De repente…
Me provocou vida.

Todas essas lembranças se emolduravam agora na janela com vista ao mar e se acomodavam naquelas ondas. Olhava o tubo da vaga e nós enrolados no lençol para fazer tarde, aquele frio noturno que cortava os dias. Nossos semblantes unidos no baile de outono e os caracóis que tu rejeitavas para o jantar, assim como qualquer outro corpo que inspirasse dor. Teu jeito de te desenvolveres pelo mundo num sonho de não querer mais nada. Como um cavalo de coração livre que corre junto ao mar. Se minha pele indicava a minha fronteira e depois a solidão. Contigo não havia limites.
Era um barco navegando no centro da terra.

E foram tantas esperas e feixes de luz que me inundavam que um dia decidiste não pegar o último trem pela manhã. Ficaste.
E rimos! Um escândalo para a época. Finalmente a louca da praia. A mulher que mergulhava vestida somente com o mar pela madrugada. Uma mulher com uma medalha. A mulher de um corpo morto. E tu, sem nenhuma biografia a não ser a de estarmos sozinhos naquele lugar. Juntos.
Cada um na sua solidão.

A princípio tu voltavas para casa sempre com as mãos vazias. O padeiro, o fruteiro, o afiador de facas, até o padre tapou dos nossos olhos a claraboia da igreja numa tarde de domingo. Tivemos que colher frutas do bosque, manusear pedras e aumentar nosso manual de sobrevivência; reavivar nossa horta e aprender a sentir o gosto das coisas. As flores de jacarandá, viola odorata, ipê-roxo, prímula, gerânio, girassol, cravina, açafrão, calêndula, carambola invadiam o parapeito da casa. Comíamos sempre com os caixilhos inferiores da casa levantados. Por ali entrava vento, aroma, chuva e suscitava o olhar dos mais curiosos transeuntes.

O mar cor violeta de agora me aflora os sentidos de nossa sobrevivência. Nosso jantar onde chegavas atrasado. Nosso jantar onde não chegavas. Nosso jantar interrompido por um naufrágio.
Interrompido por um destino de ausências.

Agora não podia ver nada mais que o nosso lar mar adentro. Parecia eu de novo na colina, jogando mais uma medalha, mas não havia guerra. Não havia medalhas. Não havia teu corpo. Não havia luta.
Queria fechar todas as janelas.

Enquanto fixava o mar perdida em meus pensamentos e tentava fechar a última vidraça da sala, uma voz de dentro me dizia:

As janelas são os poros do lar. Respiros de vida. Deixa-as abertas para que eu possa entrar
pelos feixes de luz sobre esse teu rosto esquecido.
vestido de madrugada
pelos teus pensamentos perdidos com a vista do mar.

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