A tarde caía e, com ela, vinham as lembranças que ele não queria trazer à tona. E era outono. Perto do Horto, ela costumava fazer a sua parada. Ela disfarçava um sorriso com intuito de vender seus colares. Pouco ou nada ele sabia a seu respeito. Tentava imaginar como teria sido a sua infância. Não via hora de se aproximar e dizer alguma palavra. Adorava suas tranças e os vestidos coloridos.

Ela era magra, elegante, semblante altivo. Às vezes, sentava e ficava observando o movimento dos carros e das pessoas. O menino com o cachorro passava quando ela já estava pronta para redescobrir o passado. Ele parava, falava alguma coisa, ela ria, acariciava o animal, depois continuava o passeio. Era o seu ritual.

Havia sempre um engraçadinho que tentava aborrecê-la com conversas inúteis. Ela conseguia contornar a situação. Em alguns momentos, ele até acreditava poder vê-la flutuando, bailando. Parecia que seguia no contrapasso dos pedestres. A Alameda não suportava aquela quantidade de carros.

Depois da missa, o padre tirava o hábito e saía para a conversa matinal. Cumprimentava os fiéis que ainda se encontravam próximo à paróquia, gostava de tomar um cafezinho no bar de seu Onofre, um dos primeiros portugueses a chegar ao bairro. Seu Onofre era conhecido pelo codinome de Marx, ou, às vezes, de portuga revolucionário. Deste, seu Onofre não gostava muito, ficava na dúvida se estavam a provocá-lo. Em várias ocasiões, tentei tirar-lhe lembranças da guerra, mas ele era irredutível, dizia que preferiria falar do presente, pois o passado já foi e não volta mais. Contavam que havia perdido a família depois que uma bomba fora lançada em sua residência. Na hora exata da tragédia, ele fora chamado pelo comando da resistência, era o sinal de que alguma coisa havia saído do controle. Ele não conseguiu chegar a tempo de tirar a família de dentro de casa.

O padre era seu amigo, mas viviam discutindo. Ele dizia que a sua convicção era política, não via salvação na humanidade a não ser pela construção política. O padre não gostava de apostas, no entanto o maior prazer de Onofre era testar a paciência do sacerdote. “Quero ver quem vai vencer, você ou a menina que não sai daquele maldito lugar. “Olha a língua Onofre…” E ficavam ali trocando farpas por alguns minutos. Os clientes já estavam acostumados com aquela disputa. Depois era o padre querendo pagar o café e seu Onofre dizendo que era a sua contribuição para a paróquia. O padre dizia que aquilo era retórica, seu Onofre ria e dizia que era fé.

Onofre chegava cedo ao bar, gostava de falar com os fregueses da primeira hora do dia. Havia aprendido isso com o pai. Primeiro ele adquirira a prática da massa. Era o responsável pela primeira fornada na padaria do pai. Dormia um pouco, depois acordava para atender os amigos que chegavam bem cedo, para pegar o pão quentinho. O pai fazia a segunda fornada e depois saía para entregar as encomendas. Seu Onofre, quando chegou ao Brasil, não quis mais saber de fazer pão. Escolheu um ponto bem próximo da paróquia e fincou ali o seu pequeno comércio. Brigava todos os dias com o rapaz que trazia o pão, dizia que era para acordar para o mundo, aquele serviço não lhe renderia nada. O rapaz deixava Onofre nervoso, pois respondia sem pestanejar que o portuga deveria arranjar uma namorada e parar de se meter com a vida alheia.

Como era difícil explicar para o rapaz que a vida não se constrói sem resistências. Por que deveria aceitar que o mundo já veio pronto? E o que dava o direito de achar que a existência começava e terminava ali, em pegar e carregar o pão? O rapaz era importante, o pão também, mas não o ser ignorante. E pensar que lutou para que jovens fossem livres. A forma de agir nos espaços de conflitos, de superação, de alegria e tristeza, mais alegria que tristeza. Não sentia nos jovens a ousadia de transformar o pó em lírio. Via jovens parados, desocupados, agarrados a meninas do colegial e provocando trabalhadores também jovens, que ali, em outra lanchonete, tentavam sobreviver. Conflitos vazios na rua. A pedido de quem?

Mas o que ele ainda aguardava da vida? Grudado àquele balcão, não conseguia guiar mais ninguém para o bem. Sentia-se anestesiado. Tentava em vão entender a nova pátria escolhida. Por mais que a língua o aproximasse, batia uma vontade forte de sentir o outro mar em seus pés. Quase sempre era pego com a mão na barba, absorto, como se estivesse boiando em mar aberto, mas sem a sofreguidão de um náufrago. Voltava para a realidade com uma expressão plácida, olhava para o sinal onde não via mais a moça.

Pela primeira vez sentiu vontade de partir. Há muito que não via sentido em ficar naquele lugar. Conversou com o padre, disse que pretendia voltar para sua terra. Não tinha muita convicção do que estava dizendo. Queria ouvir outra voz. O padre ria contido e perguntava se ele não queria se confessar. A expressão de Onofre mudava rapidamente, dizia ao padre que ele havia se enganado ao alinhavar tal conversa com respeitosa pessoa.

Mas era com o padre que ele contava. Conseguiu aos poucos arrumar os documentos pessoais, comprou a passagem só de ida. Deixou o bar e a casa dos fundos para o Godofredo, que esteve ao seu lado desde que chegaram; tinha quatro filhos, mas pouco gostava de falar do que passaram, e o que mais apreciava era o jogo de tabuleiro. Passava horas jogando com Onofre, tentando distraí-lo do passado.

No dia da viagem, ele não quis se despedir de ninguém. Apenas de Maria. Mas, naquele dia, ela não apareceu. Ele havia preparado uma surpresa para ela. Ficou um pouco desolado, mas não era homem de fraquezas. Pegou o jarro com a orquídea e deixou perto do poste onde Maria costumava ficar. Um pequeno bilhete escrito: Para a querida Maria.

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