29 de setemb
Segunda semana de
Primavera. 1997.

Há quem diga que o ato de observar é coisa de quem não tem o que fazer. Que não tem uma pia cheia de louça suja, uma pilha de roupa a ser lavada e passada, e que seria bem melhor se estivesse observando pretendentes e analisando como seria a melhor maneira de se criar filhos. Eu não me importo que pensem isso de mim; que sou uma criatura vagabunda, sentada num banco, vendo a vida dos outros passar enquanto a minha espera.

Mal sabem que minha vida não espera. E que, apesar de parecer, eu não vivo através dos outros. Quando tentam me julgar, eu simplesmente dou um sorriso e sigo com minha vida. Mas quando não estou no melhor do meu humor, lanço um proverbiozinho popular: sábio é aquele que aprende com os erros alheios. Ou coisa que valha. Não que eu use tal conselho, também.

Carrego sempre comigo minha máquina fotográfica de segunda mão e uma caderneta. Aprendi a gostar de observar os outros. De entender o que se passa na alma de cada um apenas pelo que vejo em seus rostos taciturnos, ombros caídos, andar pesado… Ou de tentar descobrir o que fez um olhar brilhar, enquanto olha para o nada, os dedos passando distraídos nos cabelos, numa barba que cresceu demais, num vestido colorido que voa com o vento como num filme hollywoodiano da década de sessenta.

Quando não utilizo a fotografia para registrar os detalhes de um par de mãos unidas ou um beijo ao pôr do sol, na beira da lagoinha, sento-me no banco e procuro alguém que possa ser o gatilho. Uma criança que sorri para os patos que nadam despreocupados, um pai esperando ao pé do escorregador o filho temeroso, a avó que está se perguntando onde foi se meter enquanto a neta só quer saber de fazer o balanço subir cada vez mais alto. Tento escrever uma história com isso. Não importa se seja com dez linhas ou dez páginas. Mas muitas vezes é mais difícil colocar tudo o que carrego na ponta de um lápis. Deixa-o quebradiço. Deixa a mim quebradiço.

Hoje, por exemplo, preferi as fotos. Era um dia bom, com o céu claro de início de primavera, as flores colorindo o largo da praça matriz, o sol tentando se esconder no oeste enquanto as crianças corriam, aproveitando o final de um dia sem aula, os adultos se refrescavam com sorvete e tentavam dar a liberdade para os pequenos enquanto os vigiavam como águias. Tem algo de bom admirar as crianças. Vê-los correr alguns metros como se estivessem em uma rua de maratona, lambuzar-se com sorvete sem se importar com a roupa que ficará grudenta e tentar se esconder atrás dos arbustos enquanto os pés aparecem completamente.

Havia um tênis branco e rosa atrás do arbusto das margaridas. A menina ria, imaginando-se no melhor esconderijo, enquanto a mulher fingia não a estar vendo. Ficaram naquilo por horas. Ora atrás das margaridas, ora atrás das rosas, ora atrás de uma árvore estreita.

Fotografei-as quando a menina jogou-se nos braços da mulher, quando a mulher a ergueu como se não pesasse vinte quilos, mas quatro. A menina gargalhava enquanto a mulher fingia não notar o peso contra os braços e a coluna. Quando ela colocou a menina no chão, a vi suspirar. Dor e alegria digladiavam naqueles olhos. Esperança e perda. Perguntei-me o que se passava na alma daquela mulher (pois na da criança eu tinha certeza o que a preenchia).

A mulher notou meu estudo. Em vez de se irritar, como algumas vezes acontecia com pessoas flagradas por estranhos, sorriu para mim. Fotografei-a mais uma vez. Ela pareceu querer se aproximar, mas a menina a chamava.

Quando o sol se pôs, fui embora. Vi a mulher colocar a criança lambuzada de sorvete no carro, sonolenta. Arrisquei mais uma foto antes de partir.

Minha casa estava com as luzes acesas. Ouvi barulho de liquidificador enquanto destrancava a porta. Fiz com que me ouvissem entrar. Uma voz fraca respondeu, vinda do quarto. Retirei os sapatos, sentindo o chão gelado e bem-vindo, e segui o som. Cumprimentei antes a dona Ana na cozinha, que terminava o jantar.

A luz do quarto estava acesa. Entrei sem dar muita atenção para os aparelhos, fingindo não ouvir os bipes intermitentes e monocórdios que causava inveja em qualquer sinfonia, de Beethoven ou Bach: nunca um som ficava por tanto tempo ressonando em um cérebro como aqueles bipes.

— O dia foi bom? — perguntou o amor que se instalou em minha própria alma, muitos anos atrás, e que havia criado as mais profundas raízes.

— Sim.

— Viu algum amor como o nosso?

Estive pronto para dizer que não, como frequentemente acontecia. Não por presunção; desaprendi o significado dessa palavra – assim como de tantas outras – desde que descobri o que os próximos meses me trariam. Mas eu não conseguia enxergar nos outros o que via entre meu amor e eu: uma esperança que míngua enquanto a dor cresce, uma alegria que te completa quando a tristeza tenta tomar conta a todo custo, uma completude que nunca irá findar mesmo que comece a se perder pouco a pouco.

— Tinha uma mulher, hoje, com uma criança. Ela estava cansada, mas continuava a brincar com a criança, mesmo que repetissem a mesma brincadeira por horas.

— Mãe e filha?

— Não. Penso ter ouvido a menina chamá-la de tia.

Meu amor suspirou e se aconchegou mais a mim quando passei o braço sob ela, tentando não repuxar os fios que a mantinham sã e viva para mim.

— E você viu nosso amor nelas?

— Sim.

Ficamos em silêncio por alguns segundos e percebi que meu amor chorava.

— Uma pena. Só desejo que a tia tenha tempo para se despedir como eu estou tendo.

Eu não disse nada. As pessoas tinham o costume de superestimar as despedidas. Mas às vezes, quando eu conseguia sentir as raízes perdendo forças no meu peito, tornando-o gelado, eu me perguntava se não seria mais fácil esquecer a despedida e deixar logo a dor sobrepujar a tudo para enfim esvair-se.

Então olhei para minha vida – a que estava ao meu lado, ressonando baixinho, fazendo com que eu não ouvisse os bipes intermitentes e monocórdios – e percebi que nunca a despedida seria superestimada. Afinal, ela era algo que ninguém queria que chegasse. Principalmente se você fosse se despedir da própria alma que convalesce em seus braços.

 

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