Imagem de um bem-te-vi montado em foto do autor.

 

O vitrô filtra a luz do sol através do vidro martelado. Uma sutil iridescência faz brilhar os delicados espinhos dos pequenos cactos e os contornos sinuosos das suculentas, dispostos em seis vasinhos pretos de plástico.

Surpreso que após tantos anos, ainda me sinta assim com esse singelo conjunto de detalhes. Porém, só no início da manhã, a luz entra banhando de dourado o vidro martelado. Talvez a beleza da luz a que me refiro, esteja intimamente ligada a refração da suave luz matinal. Olho novamente para me certificar desse fato.

Não saberia precisar. A minha relação com essa situação é puramente emocional. Inúmeras vezes esse conjunto de fatores, luz, vidro martelado, cactos e suculentas me emocionaram no sentido de me trazerem de volta a vida das coisas simples e cotidianas.

Tão comum em nossas vidas, o vidro martelado, um registro impresso de um molde cilíndrico contra a esteira por onde passou a chapa de vidro a 900 graus. O martelado parece uma chapa de metal que sofreu inúmeras batidas de um martelo com ponta arredondada pequena, criando gomos que refratam a luz e distorcem as imagens.

Seria essa distorção ou a minha mera distração que escondeu um galho meio canhestro da árvore ao lado do vitrô? Só reparei a sua presença quando vi um pássaro pousar nele. Talvez deva dizer que ouvi, pois ele é um dos pássaros que costuma abrir a cantoria pelas manhãs ensolaradas. Era um bem-te-vi, mesmo disforme ressaltava o peito amarelo.

Bem-te-vi, pássaro típico da américa latina cujo nome científico é Pitangus sulphuratus, o primeiro nome é derivado do tupi, pitanguá guaçú, um nome genérico dado pelos indígenas para várias espécies de papa-moscas. E recebeu este último nome pela cor amarelo enxofre, sendo desnecessário dizer que esse elemento de símbolo S e número atômico 16 da tabela periódica, tem o seu nome em latim: sulphur.

Desculpem esses dados técnicos, mas para que serve estar com o celular conectado no banheiro a esta hora da manhã?

Percebi que ele estava tão intrigado quanto eu. Será que é o mesmo bem-te-vi que pousa na fonte ao lado do escritório do outro lado da casa? Qual seria a minha imagem do outro lado? Para quem nunca viu algo através de um vidro martelado, posso dizer que parece com uma imagem bem pixelizada de pouca resolução.

Mas onde estava a sua companheira de sempre? Eram dúvidas inúteis, além do mais eu nem sabia se era realmente um casal, um macho e uma fêmea, pois essa espécie não possui diferença visível.

Pensei alto: − Mesmo que o vidro fosse normal, liso e transparente não poderia afirmar que o bem-te-vi é o mesmo, afinal são todos iguais. Ele saiu com essa: − Bem-que-vi-seus-olhos-puxados! Acho que ele quis dizer, vocês chineses também são todos iguais, mas mesmo assim eu sei que é você e não qualquer um entre os bilhões. Pelo menos foi essa a sensação que eu tive.

Fiquei curioso. Como é que ele sabe que sou eu por trás do vidro martelado? − Bem-me-viu,não-é? Eu arrisquei perguntar entonando em bem-te-vintêz, afinal a linguagem dos pássaros tem muita semelhança com o chinês, creio eu. Ele rebateu: −  Bem-te-vi-chinês! − Bem-te-vi-você-também-pássaro-de-peito-amarelo, retruquei. − Bem-te-vejo-todos-os-dias! Ele gentilmente respondeu.

Não fosse uma nuvem interromper tal colóquio mosaico músico-visual, talvez essa situação permanecesse pela manhã inteira, ele bem-me-vendo e eu bem-vendo-ele, ou melhor mal-nos-vendo através daquele xadrez chinês um tanto cubista do vidro martelado.

Ele foi embora, não esperou esse nublado intervalo ou entediou-se com o recente som da minha escova de dentes, pensei. Mas ele reapareceu juntamente com a luz. Notei uma certa tristeza. Abaixou a cabeça e sinalizou com a sua cauda. Me aproximei do vidro martelado e ele me confidenciou:

 

Bem-que-nos-vimos

Bem-que-tentamos

Bem-que-nos-amamos

Bem-que-a-perdi

Bem-que-ela-me-alertou

 

Que-bem-querer

Não-é-bem-que-se-despreze

Que-bem-te-vi

Tem-peito-amarelo

Não-é-à-toa

 

Que-bem-vi-ela-nua

Bem-que-te-queria-ela-falava

Me-aninhar-com-você

E-bem-que-se-aninhou

 

Dizia-todos-os-dias-me-amar

Me-ouvir-cantar-pelas-manhãs

Mas-bem-que-vi-que-ela-bem-me-viu

E-eu-não-estava-só

Ela-bateu-asas-e-voou

Bem-na-minha-frente

Desde-esse-dia-me-perdi-em-mim

 

E-ela-bem-que-me-viu-passar

Bem-que-me-ouviu-cantar

Bem-que-me-fez-chorar

E-ela-também-chorou-cantando

Bem-sei-que-você-partiu-meu-coração

 

E-finalizou-nossa-canção-com:

Por-que-não-há-bem-no-mundo

Que-me-faça-voltar

Nunca-mais-bem-te-verei

Como-sempre-bem-te-via

 

Eu-bem-que-tentei-consolá-lo, mas tenho uma teoria de que nenhum argumento funciona com um coração recém partido, ou melhor, um belo pé na bunda, resultado previsível de uma pisada na bola. Resolvi deixá-lo a sós com sua dor refletida na distorção do vidro.

De tarde um pássaro pousou numa das pedras da fonte, fiquei observando pela janela do escritório, escondido atrás da persiana entreaberta. Hoje em especial observei com outros olhos, e ouvi com outros ouvidos, será ele novamente, o meu bem-te-vi? Ri da minha ambiciosa apropriação da sua pessoa mediante a sua confidência, efetivamente ele não era meu.

Nos outros dias, quando eu os flagrava na hora do banho, eles rapidamente voavam, era raro apenas um estar na fonte. Ainda que eu abrisse a porta com cuidado e procurasse chegar assim devagar como um gato para observar de mais perto, eles percebiam e voavam.

Seria meu erro essa minha felina presunção? Continuavam os estalidos dos pequenos saltos na água e quando ele retornou no raio da minha visão, balançava a cabeça para os lados, parecia que me procurava através da fresta, porém, com um tom grave e reprovador. Talvez tenha se ofendido por eu abandoná-lo de manhã, imaginei.

Abaixei devagar e suavemente deslizei pisando macio até a porta ao lado da fonte, que já havia deixado semiaberta. E espiei de um terço de face e num olho só, o belo pássaro que saltava sobre as pedras levemente cobertas pela água, mas como de costume, arisco, ele voou para as floreiras.

E como fazia sempre, virou a cabeça e desta vez olhou-me nos olhos, mas não era ele, era ela, senti o seu desprezo, mas não atinava o porquê. Então eu resolvi dizer: − Ele-bem-que-te-ama! Ela me olhou bem no fundo dos meus olhos e eu humildemente entendi que ela sabia que era eu quem estava ouvindo o lamento de seu par do outro lado do vidro martelado e já no topo do muro confirmou minha suspeita.

E eu no meu assoberbado disfarce fajuto de gato apenas consenti enquanto ela afirmava em alto e bom tom: − Bem-te-vi-chinês! Bem-te-ouvi-também! Bem-te-vi-com-aquele-safado!

Tentei contornar a situação dizendo: − Ele-está-arrependido-bem-o-sei! Então ela jogou na minha cara: − Arrependido-por-não-ser-a-primeira-vez? Engoli seco a próxima frase que eu construí mentalmente em bem-te-vintêz. Mas ela continuou: − Bem-o-vi-desta-última-vez-com-uma-canária-do-reino-toda-amarelinha-seleção-em-nosso-ninho! Entendi que isso encerrava a questão, pelo menos naquele momento.

Com o orgulho e a classe de muitas fêmeas feridas, da floreira ela empinou o bico, virou as asas e alçou voo. Eu acompanhei até ela sumir no céu pixelizado de nuvens. Ele em seguida pousou na pedra grande e perguntou covardemente: − Já-era-não-é? E agradeceu: − Obrigado-pela-força! Bem-que-tentei-me-explicar!

Não sabendo o que dizer, tentei uma frase consoladora, mesmo envergonhado da minha cumplicidade machista: − Não-fique-assim-bem-que-eu-sei-como-é! Tudo-passa-tudo-um-dia-passará, não-acha? Ele esboçou uma resposta, mas desistiu. E ficamos ouvindo o cair da água até anoitecer sem darmos mais um único pio.

 

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