Quantes vegades vaig passejar per les Rambles?

Lembro-me das Ramblas molhadas e nós caíndo de bicicleta.
Passeando nelas com um machucado nas pernas.
Lembro-me de minha mãe e eu nas Ramblas conversando com a florista.
Sustentado nelas um vasinho de flor de volta para casa.
Lembro-me conversando com mais um romance de juventude nas Ramblas.
Pisando em cima delas nossa despedida.
Lembro-me atravessar as Ramblas com as compras do mercado da Boqueria.
Impregnada pelo cheiro de azeitonas.

As Ramblas e eu, e todas as estações.

Lembro-me de atravessar as Ramblas
Às vezes atrasada para o trabalho,
para a universidade,
para a biblioteca,
para encontrar algum namorico,
para um café, para o teatro,
para dar gargalhadas,
para o encontro amigo,
para afugentar a escuridão dos dias.

As Ramblas, estes braços estendidos.
Estas pontes, corpos,
seus mosaicos, vidros coloridos,
um breve infinito em pouco mais de um quilômetro.

Não importava a hora de passagem.
Era meu rosto confundido na multidão.
Meus braços movimentando a leveza de deambular.
Meus olhos imaginando vidas.
Minhas pernas traçando destinos espontâneos.
Minha voz abafada pela brisa do mar.
Minhas mãos ausentes de exigências.
Era ganhar o tempo que não produzimos.
Solvitur ambulando.

Eram Ramblas pra cima e Ramblas pra baixo.
Eram Ramblas pra cá e pra lá.
Eram sempre coloridas, alegres e cheias de surpresas.
Eram flores e estátuas.
Pessoas de todo o lugar a toda hora.
Não havia exclusão
Nas Ramblas não havia solidão.
Entre os rumos do mar e da montanha.

As Ramblas!
A bússula dos boêmios perdidos.
O percurso dos amantes.
Dos viajantes,
dos anarquistas,
dos pequenos furtos,
dos enganos de la vida misma.

E assim que me quero lembrar de ti, queridas Ramblas.
Desse passeio gostoso no qual fizeste embalar tantas pessoas.
Acolhendo a todos, tolerante, afetuosa, colorida.
Sempre vibrante.

E não de agora

Quando vimos que ele movia os dedos grudados pela tela retangular de um cristal trincado.
Hijos de puta, —ele dizia.
Desviando os corpos estirados pelo chão.
O sangue filmado.
Jogando o silêncio num canto de quem se foi.
Difundindo o terror de corpos desfocados.

Era o meu corpo.
O meu terror sem rosto.
Dizem que o respeito é voltar a olhar.
Então, olha pra mim e fica.
Entrega a tua mão para os que não podem estendê-la.

No coração das Ramblas, no coração de Barcelona, no coração do mundo, com os braços estendidos.
Este breve infinito em pouco mais de um quilômetro.

Pessoas de todo o lugar naquela hora.
Entre os rumos do mar e da montanha.
No infinito das Ramblas
Aprender a passear
Voltar a olhar
E contar ainda

Quantes vegades vaig passejar per les Rambles?

Ilustração de Anthony Pilley

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