{Fotos do autor}

Outra ameaça se aproximava da Espanha, mais precisamente da Catalunha e de Barcelona, a terra da festa, do turismo, do multinacionalismo e multiculturalismo, ainda que regionalista, e mantendo seu idioma catalão (ou melhor, català) mesmo após décadas de repressão da língua que lhe dá identidade ao longo da ditadura do general Franco, no século 20.

Cansadas de ataques terroristas, umas figuras bastante singulares uniram-se em prol do povo: ¡Les Estatuas Vives de Las Ramblas! Não que tenha sido algo lá organizado ou premeditado por elas.

Elas simplesmente estavam lá, fazendo o que sempre fizeram para ganhar el pan (ou el pa, em catalão) de cada dia, em geral não exatamente paradinhas como estátuas, e nem sempre em cor de cimento, mas devidamente atuantes, pintadas, coloridas e caracterizadas de seus personagens favoritos: um índio colorido norte-americano com seu longo cocar branco, um bobo da corte de vermelho, um detetive prateado de sobretudo, um curvado duende verde rindo galhofeiro, uma dupla de ciclistas prateados de cartola – cada um acompanhado de seu companheiro esqueleto –, um Che Guevara todo bronzeado, além de uma (um) nobre egípcia arremedo de Cleópatra (ou Cleópatro) com seu brilhante vestido dourado, sem falar numa sombria e clássica bruxa de contos de fadas; todas aguardando por seus euros metálicos.

Eis que tais honrosas figuras foram eleitas as campeãs do Espírito Catalão da Liberdade e da Paz (Llibertat i Pau)! E assim, munidas de um detector de ataques terroristas, e com seus poderes de Estàtuas Viu de Las Ramblas, foram defender Barcelona do ataque múltiplo mais mortífero de que já se teve notícia!

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Um avião se arremetia em direção à igreja Sagrada Família de Gaudí (eternamente em finalização de obras, mas principal ponto turístico da cidade), deixando todos desesperados! Foi quando o Duende Verde Galhofeiro chegou voando sobre seu morcego, arremessando abóboras no avião!

E ao invés de explodirem como as do clássico vilão do Homem-Aranha, as frutonas convertiam os ocupantes do veículo atingido em pacíficos e festeiros barceloneses, que imediatamente desistiam da vida de terroristas e se uniam lá embaixo à tradicional e centenária Festa Major de Gràcia (¡200 años!), entre as de outros bairros, como Sants, Raval, Poblenou e Poble Sec!

Foi por um triz, mas deu tempo de o avião desviar da igreja, pousar no aeroporto direitinho e partir pra festa, não sem antes seus ocupantes pedirem desculpas e prometerem que depois das festas de agosto iriam passar uma boa temporada na cadeia!

Em outra obra onírica planejada pelo arquiteto Gaudí, o Parc Güell, homens armados se preparavam para disparar rajadas de tiros de fuzil pelo aglomerado de admirados visitantes. Desta vez foi a vez do Quarteto Prateado de Cartolas e Esqueletos interceder! Com um estalar de dedos de cada cartolado, os risonhos esqueletos foram parar bem juntinhos e abraçados aos atiradores! De língua (!) para fora e risinhos, os ossudos foram ruidosamente (slep-slep-slep, tlec-tlec-tlec, hehehehe) convencendo os jovens cegos de razão, quase assassinos, que o que fariam não tinha o menor cabimento.

 

Outras Estátuas Vivas foram detendo os outros metidos a terroristas em Barcelona, como o Detetive Prateado, que detectou e transformou bombas instaladas em diversas maletas espalhadas por trens e metrôs da cidade em pedra; além do Bobo da Corte, que instilou espírito festivo e pacífico em motoristas que se preparavam para atropelar e explodir a multidão espalhada pelas ruas da Festa Major de Gràcia i de Sants, que bailava alegre, ao som de todo estilo musical, entre cidadãos locais, turistas e emigrados; cristãos, muçulmanos e ateus; espanhóis integrados e catalães independentistas!

Ao fim, o Espírito Catalão da Llibertat i Pau (sim, pau é “paz” mesmo em catalão, haha) prevaleceu, deixando uma bolha protetora contra influências insanas homicidas a qualquer um que chegasse à região!

É claro que o serviço não estaria completo caso a Estátua Viva Cleópatro Dourado não jogasse ao Mar Mediterrâneo o rei da Espanha e o presidente do governo, que vendiam armas à Arábia Saudita, para lhes dar uma boa esfriada nas ideias armamentistas!

Y así gritaban las Estàtuas Vives: No Tinc Por (Não tenho medo)!

{fotos do autor de 2005, com exceção das festas de Gràcia i Sants, de 2017}

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