Tudo naquela cidade era um cinza. Todos os dias, todos passavam por ali, sem graça e sem cor, rumo ao trabalho ou à escola, onde passariam dias cinzas fazendo coisas cinzentas. 

No centro da praça, esquecida, uma bailarina de bronze estava adormecida, esperando seu resgate. Aconteceu numa outra manhã cinzenta, quando uma menina um pouco mais azulada que cinza se aproximou da dançarina e girou a sua corda.

A estátua acordou devagarinho, esticando bem as pernas em sapatilhas de ponta prateada, enquanto girava sobre sua base. Os braços se curvaram sobre o violino que ela carregava e um som arranhado assuntou com os passantes.

O bater de sapatos reduziu. O violino chorou uma canção, enquanto a bailarina borboleteava tão suave que todos pararam sua rotina cinza para olhá-la florescer em rosa suave e dourado. Ao redor da canção, o mundo foi ganhando cores nunca dantes vistas naquele lugar. Era o verde, o azul, o amarelo… A música fazia limpamentos no mundo, lustrando-o com o brilho do olhar de uma estrela.

A cidade parou arrebatada. Tudo era o violino dedilhando corações, dando vontade de rir e chorar. O que estivera aprisionado nas pessoas cinzas transbordou pela canção em mil matizes diferentes.

Até que a corda da bailarina acabou e a música morreu. No silêncio que se seguiu, alguns voltaram menos cinzas, guardando uma lembrança meio vaga, mas outros, com a música da bailarina vibrando ainda em seus peitos, já tinham outras nuances. A bailarina os tinha libertado e eles pintariam no mundo suas cores bem distintas e cheias de graça. Enquanto isso, a dançarina inanimada esperava ser resgatada novamente das sombras que habitava.

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Imagem retirada de: https://www.deviantart.com/art/Shatter-Me-450948229

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