Imagem (reprodução)
La bailarina, da peça de marionetes espanhola
“Formas de perder la cabeza”

A música penetra meus ouvidos como agulhas penetram a pele de uma bordadeira inapta. As mãos se movem, firmes, ininterruptas até o tempo findar enquanto meus ossos estalam. Eu tento me livrar da prisão. A cada vez que alguém se aproxima, eu tento gritar para que me liberte. Não daquela inércia dependente de uma vontade em ver o mundo menos cinza.

Não…

A liberdade que anseio é outra. Uma que remonta tantos anos que não consigo mais me lembrar. Parei de contar há… não sei… estações e estações.

Vi menina passar por mim até se transformar em mulher, trazendo filhos, acompanhando netos. Sorrindo e sorrindo como se eu fosse um enfeite que pedisse apenas uns minutos. E quando não a vi mais, prendi-me em outros rostos. Em outras gerações. Em tantas vidas que, mesmo neste mundo cinzento, ainda tinham algum significado.

Mas quando meus gritos não eram mais ouvidos, quando todos se esqueceram de como esse mundo poderia ser cheio de cor, calor, fibras de um ser antigo repleto de alegrias e vida, eu desisti. Minguei, curvando-me sobre mim mesma, meus ossos que estalavam agora apenas quando se esticavam, quando faziam aquela música eterna queimar meus ouvidos como se eu tivesse sido jogada em brasa.

Quando a dança me movia agora que eu era essa coisa limitada a uma corda nas minhas costas, cada parte de mim era um martelar contínuo de dor e tristeza e escuridão. A cada vez que os pés se esticavam, que minha cabeça se inclinava contra o violino, eu me lembrava do que tinha me prendido aqui.

Do tempo em me esqueci. Mas não dele.

Ele, que me via dançar em meio à música que um dia ele dissera ter composto para mim.

Ele, que tentara me persuadir de maneiras lisonjeiras.

Ele, que um dia me convidara para dançar e quando eu recusei… quando não toquei meu instrumento favorito apenas para ele

Maldições deviam existir para serem quebradas. Assim como grilhões. Mas a cada menina que cruza meu caminho, a cada criatura triste que gira o cordão que me mantém ligada a ele e a vida tenta se libertar através da música e dança em movimentos vãos, eu me curvo mais dentro de mim quando, ao fim da última nota, tudo o que me sobra é silêncio. E sinto – como um dia senti o ar em meus pulmões, o doce do meu em meus lábiois, o calor de um homem que fui obrigada a abandonar – que algumas maldições são eternas.

A menos, é claro, que a tão sonhada liberdade venha.

Mas haviam se passado tanto anos. Tantas estações. Tantas meninas que se tornaram mães, avós e poeira no vento que minha esperança se esvaía quando a última nota se transformava em silêncio.

Com agora.

Eu me curvo novamente em meu reluzente bronze. E me fecho para o cinza enquanto o colorido intocável tenta tomar formas ao redor de mim. Tudo em vão. Como a menina que girou minha corda e, em vez de realmente enxergar o que um dia existiu, apenas repuxou mais ainda o laço que me prendia àquela maldição.

 

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