Ruídos e vozes invadem o ambiente da sala, repleto de alunos. Para ela imperceptíveis. Antes a incomodavam, confusos, vindo em um bloco de ruídos amalgamados sem sentido, ferozes, o que a obrigou a usar um redutor de som, feito sob medida, caríssimo e que seus pais não puderam pagar, mas um empresário anônimo de Brasília pôde.

Uma atenção especial é dada todos os dias a ela, por uma auxiliar de sala que acompanha as aulas e é seu ouvido e parte imprescindível da sua relação com o mundo fora de casa. Transformou-se em uma grande e melhor amiga, passado mais de um ano de convívio, com adaptações, erros, sorrisos, gargalhadas e festas juntas. Até seus pais se afinizaram com os dela e viajam todos quando podem.

Hoje não será apenas mais um dia de salada de frutas pela manhã, flores e insetos capturados no jardim da avó pela sua câmera antiga e a caminhada pelo parque perto de casa, percebendo apenas o vai e vem do coração, a expansão do peito – entremeada por suspiros resilientes – e seus pensamentos que tomam forma e quase um som, como ela costuma brincar ao se referir a eles. Hoje está reservada uma surpresa, uma das várias que os que a amam procuram oferecer.

É final do dia, uma tarde atípica sem uma nuvem sequer, um sol absurdamente amarelado e um vento morno contra seu pequeno corpo de onze anos, permitindo-a retirar seu pesado casaco. Quando chega perto de casa vê seus pais e um homem, sentados ao redor da mesa redonda da varanda que toma toda a frente, recheada de filetes do carramanchão e vasos de cactos cuidados pessoalmente por ela. Eles se levantam e a mãe a apresenta. Minutos depois, ansiosa e ainda atônita com a notícia, sobe ao seu quarto, joga-se na cama, sorridente a olhar o teto, pensativa. Lá em baixo seus pais, elétricos, combinam tudo com o jovem advogado que representa o empresário que já a ajudou antes. Será uma cirurgia inovadora, introduzindo uma estrutura eletrônica idêntica a auditiva. Cóclea, canais, tudo e nas dimensões perfeitas a dela.

Dias depois, logo após a cirurgia, ela acorda e a enfermeira chama de imediato o médico de plantão e notificam os pais. Eles chegam em minutos, esbaforidos, trazendo a sua melhor amiga e esperam a enfermeira retirar os abafadores de ruídos que evitavam efeitos inconvenientes aos primeiros sons. O silêncio impera e os pais autorizam a retirada do aparelho para que ela ouça pela primeira vez. Feito isso, a mãe a pergunta se está ouvindo. As lágrimas descem do rosto da pequena, seguidas pelas dos pais, da amiga e até da enfermeira. Na língua dos sinais ela responde muito trêmula: “Percebo que já ouvia a sua voz quando ainda na sua barriga. Ouço agora, de verdade, o som dos meus pensamentos”

De muito longe, através de uma câmera previamente colocada, o empresário, surdo-mudo, chora mais do que todos e com um sorriso que há muitos anos não visitava seu rosto.

Anúncios