Ilustração montagem do autor, três caveiras sábias com cigarra.

 

− Igor Stravinsky? Eu lia em seus lábios. Não aprendi essa ciência, ler lábios, mas ler em seus lábios o nome do meu compositor favorito foi, digamos, uma obviedade.

Não aprendi a linguagem dos sinais. Sempre fui atrapalhado para essas proezas gestuais. Ainda me sentia inapto para tal empresa. Era muito recente. Comunicava-me pelo aplicativo de mensagens, ficando com o celular no vibra, na mão ou no bolso.

E foi essa mensagem que ela leu: Por favor, coloque A Sagração da Primavera do Igor Stravinsky a todo volume.

O que eu estranhei foi o seu questionamento, ficou claro na sua expressão e nos seus lábios: − Igor Stravinsky? Acharia normal ela retrucar: −  A todo volume? Talvez o estranhamento foi a inclusão do primeiro nome, Igor.

Sim Igor Stravinsky! Eu falei ao mesmo tempo em que escrevi. Eu procuro não falar, pois mesmo quando eu ainda ouvia, falava cada vez mais alto, sintoma do problema que me deixou surdo. E eu sentia nos rostos congelados em expressões interrompidas o incômodo das pessoas.

Agora respondendo a tardia bronca: Eu sei, escrevi, que os vizinhos com certeza irão reclamar, mas quero sentir a vibração. Sei que o início sinuoso do fagote não irei captar, mas quem sabe eu possa sentir o ritmo pulsante do ataque das cordas e da percurssão abraçado a caixa de som.

Lembrei a ela que, quando eu tinha uns 13 anos, escutava The Dark Side of the Moon do Pink Floyd deitado com uma caixa de som de cada lado, como se fosse um enorme fone de ouvido, acompanhando o som estéreo transitando através do meu cérebro de um lado para outro pelos túneis auditivos.

Logo chegou a resposta: Por isso você ficou surdo. Será? Perguntei a mim mesmo.

Não deu certo. Era de certa forma agradável, mas não correspondia em nada a Sagração. Pena que eu não era adepto ao tecno batidão, aí sim, acho que teria uma chance de me encontrar na trepidação dos alto-falantes.

Olho ironicamente um pequeno badulaque que comprei numa lojinha perto da 25 de março, no lugar dos costumeiros três macacos, que eu já tinha, utilizaram caveiras. Comprei uma semana antes de entrar para o ensurdecedor mundo do silêncio.

Ensurdecedor mundo do silêncio, no meu caso, não é uma metáfora, ouço zumbidos, as vezes parece uma campainha, outras uma cigarra. Outra ironia: eu adorava esses barulhos do mato, inclusive o canto da cigarra. As vezes duram horas, quase suporto a cigarra, mas a campainha requer uma paz de espírito insustentável para aguentar por tanto tempo.

Os três macacos sábios, nem todos sabem, é de origem chinesa, mas foi através do budismo japonês que a imagem tão conhecida se incrustou mundo afora. O fato de um não ver, outro não ouvir e o terceiro não falar, não remete para muitos o verdadeiro significado, que interpretam apenas como uma negação pura e simples nos atos de ver, ouvir ou falar. Quase como uma covardia.

Entretanto o significado dessa imagem sobrevive a ilustração, debaixo de sua imagem divertida reside o provérbio “não veja o mal, não ouça o mal, não fale o mal” considerado no Japão como uma regra de ouro para o convívio harmonioso com as outras pessoas. O interessante com as caveiras, além da irreverência, era canhestramente simbolizar, deixe o mal de lado antes que seja tarde demais.

Recordei de algumas conversas que surgiam quando olhavam os três macacos na minha mesa de centro: − Se você tivesse que escolher, escolheria o quê? Ser cego, surdo ou mudo?

A maioria das pessoas diziam quase que instantaneamente, ser mudo. Era a minha opção também, apesar de achar a pergunta um despropósito.

Resolvo pegar o violão e cantar. Descobri que ela apesar de me ouvir pacientemente durante anos, me elogiava apenas porque eu amava cantar, mas principalmente porque era para ela que eu cantava.

Não que eu não soubesse que eu desafinava quando tentava alcançar notas mais altas, porém, mesmo quando funcionava eu perdia o fôlego e gaguejava ao continuar. Sem contar o problema da falta de ritmo. Até que um dia ela resolveu ser carinhosamente sincera e eu larguei mão da cantoria.

Zumbia eu e a cigarra quando ela se posicionou bem na minha frente. Fez um sinal que eu sabia o que significava. Esse de colocar as mãos nos ouvidos como o macaco do meio. Após o gesto digitou: Stravinsky a todo volume e você cantando Tente Outra Vez do Raul Seixas, descoordenados, voz e violão, não é um pouco demais?

Gostei da sutileza dela do pouco demais! Ah, mas tudo bem, depois de enviar uns coraçõezinhos e umas carinhas dando beijinhos de amor, ela continuou a mensagem rindo e apontando as três caveiras sábias: Se continuar assim e tiver que escolher, escolho ser surda!

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