O breu era entrecortado de relâmpagos azuis que iluminavam o contorno dos ossos que cobriam o chão. Havia milhares deles, ossaduras inteiras esparramadas, espatifadas, esquecidas e amareladas.

Do meio delas, surgiu uma criatura tão velha quanto o mundo. Feita dos ossos mais antigos, ela cobria-se apenas com um manto do negror da noite e seus olhos vazios se fixavam de forma perturbadora. A criatura aproximava-se a passos lentos, o vento parecia atrasá-la.

E ele, pensando em escapar, não se movia. Seus pés não se mexiam, pressos ao chão pedregoso diante dos portões de ferro. O ser ancião se aproximava na lentidão que o vento permitia, bailando no ar com uma graciosidade medonha, iluminado pelas luzes azuladas. Em dado momento, o manto foi-se para trás, como se fosse feito dos belos cabelos negros de uma moça pálida e nua que valsava.

Era a morte que dançava, seus ossos num articular quebradiço. Vinha bailando ao seu encontro, com uma suavidade inesperada. E então parecia sorrateira, depois impiedosa. Por fim, misericordiosa. Como que de sangue pulsando, parecia ser ela muitas coisas diferentes.

Em seus compassos vagarosos, achegou-se enfim, diante dos portões em que ele estava estático. Esquelética, ela parou diante dele, os dedos esticados eram só falanges brancas num convite que era uma ordem.

Seu desespero fez o coração saltar. Não queria dar a mão àquela besta, personificação do medo mais antigo e inevitável. Mas a exigência era feita em tom de ordem, não havia escolha. Hesitou ainda, mas lentamente, sua própria mão se estendeu, pousando sobre a palma de ossos estendida. Deu o primeiro passo rumo à escuridão e aquele mundo evanesceu…

A música acabara.

*Totentanz (que pode ser traduzido como “Dança da morte”) é uma composição clássica do alemão Franz Liszt.

**Ilustração do post: foto de https://www.flickr.com/photos/elclan29/

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