Assim que a lua atinge seu apogeu, e sua luz reflete no, metodicamente bem colocado, jogo de espelhos, sua alma é, então, ritualmente tragada para sua ocupação na sagrada barca solar de Rá, que veleja calmamente em direção a Duat.

A alma desperta de seu sono ao chegar aos Salões de Amentet, onde lhes foi oferecido alimento e bebidas pela deusa Ament, afim de recuperar suas forças para que enfim, aquele ser, agora translúcido, possa seguir viagem até os campos de juncos.

Passar pelo primeiro portão de Duat fora tarefa fácil, ao chegar a sua frente avistou diversas almas saudando um faraó que tivera o mesmo destino que ele, também pôde ver ali duas grandes colunas, esculpidas perfeitamente, e ao topo de cada uma residia uma cabeça de animal, em uma havia um bode e na outra, um chacal, era como se os olhos das entidades de pedra o seguissem enquanto atravessava lentamente o portão a sua frente.

Quando atravessara o segundo portão da terra dos mortos, se viu a frente de um lago em chamas, sentiu o calor queimando sua pele, inexistente, mesmo dali, distante e próximo do portal pelo qual acabara de sair. Em meio ao fogo haviam diversas almas ardendo em brasas e sofrendo em danação eterna, mas ele não tivera problema em atravessar, pois havia sido um homem justo em vida. Assim se viu de frente ao terceiro portão, ao qual empurrou e o deslocou facilmente, faltando agora, apenas atravessar o quarto portão.

Ao chegar ao quarto portal, o portão de Arit, ele o vê guardado por um dos deuses chacais, Aau, e logo atrás dele, guardando a saída do portal, estava Tekmi, os dois dividiam muitas semelhanças, eram enormes comparados a pequena alma, e carregavam em suas mãos lanças igualmente proporcionais a seus tamanhos.

O deus guardião abriu passagem ao homem, que temeroso atravessou, entrando assim na próxima câmara.

Chegara até ali, e não havia mais volta, o deus da morte estava a sua frente e o guiou até o Salão do Julgamento, antes de seguí-lo resolveu consultar seu livro dos mortos, retirou o pergaminho do meio de suas vestes, o papiro estava novo, havia sido feito pelo seu irmão na véspera de seu sepultamento. Ele já conhecia o julgamento e agora, mais do antes temia a pesagem de seu coração.

 A frente de Anúbis, Toth, Osíris e seus quarenta e dois juízes, o jovem começa a declamar sua declaração de inocência:

“Ouça-me, Usekh Nemmat: eu não causei o mal.
Ouça-me Hepet Shet: eu não roubei com violência.”

E assim continuou, até terminar as quarenta e duas confissões para seus quarenta e dois deuses-juízes,
“Ouça-me, An a-ef: eu não desrespeitei o sagrado alheio.”
Ao terminar a quadragésima segunda confissão, os juízes e o próprio Osíris o olharam, e passados alguns segundos, aceitaram suas confissões.
Então, entregou a Anúbis seu coração, o qual foi colocado na balança, junto a pena de Maat, a deusa da justiça e da verdade, e nesse momento crucial de seu julgamento, a alma tentou enganar, não a Anúbis ou a Osíris, o jovem ali parado, com seu coração em julgamento, tentou enganar a própria balança numa última tentativa de escapar da segunda morte. Ele não queria ter seu coração devorado por Amut, a criatura-deus, com cabeça de crocodilo e corpo de leão e hipopótamo.

A fera olhava para o órgão na balança com ânsia de engoli-lo por inteiro, salivando entre seus enormes dentes de réptil.

Então…

– e agora? oque você vai fazer? – disse o mestre.

– Vou usar blefe na balança! – retruca o jovem Akhenaton.

– Rola o d20.

O garoto toma o dados em mãos e o lança, tirando o tão esperado…

– 20! – disseram os dois em uníssono.

A balança, então, permanece imóvel, demonstrando que talvez aquela alma seja pura e digna de ultrapassar o quinto portão de Duat, o homem então, segue seu caminho para atravessar o portal, após passar pelo árduo julgamento.

– Espera! – interrompe o jovem – Eu quero tentar usar stealth e roubar Anúbis!

– Você tá maluco Akhenaton?! Você só pode estar brincando comigo, querendo roubar um deus.

Obs: Imagem retrata um dado de 20 lados encontrado em 1910, datado da época do Antigo Egito, o objeto em questão encontra-se no Metropolitan Museum of Art, em Nova Iorque.

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